Número 935,

Internacional

América Latina

México, perto demais dos EUA

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 19/01/2017 00h47, última modificação 18/01/2017 15h32
Posse de Trump vai agravar um quadro já crítico. Mas e se o feitiço se voltar contra o feiticeiro?
Carlos Jasso/Reuters/Fotoarena
Protesto

O aumento da gasolina se soma a um histórico de violência, corrupção e insensibilidade política

Pode-se dizer o mesmo de muitos outros países, mas dificilmente com tanta ênfase e certeza: para o México, 2016 foi um ano péssimo e 2017 será pior. O ano passado foi marcado pelo agravamento de problemas sociais, deterioração da economia, queda da produção de petróleo e aumento do número de vítimas do narcotráfico e da violência política.

A todos esses problemas agora se soma Donald Trump, cuja candidatura o desavisado e incompetente presidente Enrique Peña Nieto ajudou a impulsionar em agosto ao convidá-lo, recebê-lo com honras de chefe de Estado e se deixar humilhar por ele na esperança de agradá-lo.

Antes mesmo de sua posse começar a agravar todos esses problemas, o gasolinazo, aumento de 14% a 24% dos combustíveis a partir de 1º de janeiro, serviu de estopim a uma revolta popular que já dura duas semanas e não dá sinais de arrefecer. Estradas foram interrompidas, instalações da estatal petroleira Pemex ocupadas e mais de mil lojas e mercados foram saqueados, sem falar de manifestações mais pacíficas em praticamente todas as cidades.

Nos anos 1980, o México exportou petróleo para os EUA como se não houvesse amanhã. Ajudou o vizinho do Norte a quebrar o poderio da Opep e derrubar os preços internacionais, mas esgotou as reservas recém-descobertas. Desde 2004, a produção começou a cair, enquanto a indústria nacional de refino e petroquímica se deteriorava. No ano passado, o país voltou a ser importador líquido, em proveito das refinarias estadunidenses. 

Juntamente com a queda das commodities e a incerteza política criada pela eleição de Trump, isso impulsionou a desvalorização do peso e a inflação e alimenta o aumento de preços. Um segundo aumento foi programado para o início de março, antes que os preços sejam totalmente liberados dentro da política de privatização do setor.

O presidente conduziu a reforma e privatização do setor de petróleo e eletricidade, desde dezembro de 2013, com a promessa de trazer investimentos privados e baratear os combustíveis. Agora culpa o antecessor por ter subsidiado os combustíveis e justifica-se cobrando os eleitores em rede nacional: “O que vocês fariam no meu lugar?”

É a gota d’água a entornar um caldeirão no qual cozinham décadas de violência, corrupção e insensibilidade política. Peña Nieto fugiu de investigar a presumível execução de 43 estudantes dos Ayotzinapa, abafou-a dentro do possível e deu a investigação por encerrada com um relatório condenado por investigadores independentes. Sua esposa foi presenteada por uma empreiteira com uma casa de 7 milhões de dólares e ele recusou discutir o assunto. 

A isso se soma o iminente desastre para as indústrias que puderam prosperar com o Nafta, a começar pela automobilística. Trump começou a desmontar o acordo de livre-comércio a golpes de Twitter, com ameaças de tarifas proibitivas a cada montadora com planos de criar fábricas no México.

A Ford submeteu-se de imediato: anunciou que cancelaria um projeto de 1,6 bilhão em San Luis Potosí e construiria uma fábrica de 700 milhões no Michigan, dizendo-se “encorajada pelas políticas de crescimento do presidente eleito”. A Fiat Chrysler admite suspender a produção no México se Trump cumprir a promessa de criar uma sobretaxa, enquanto a GM e a Toyota resistem, esta última com respaldo do governo japonês e o argumento de ter investido bilhões e criado milhares de empregos nos EUA. 

Para aproveitar os acordos de livre-comércio e os salários baixos todas as grandes montadoras do mundo criaram fábricas no México, hoje o sétimo maior produtor mundial, acima da França, da Espanha e do Brasil, com 3,5 milhões de veículos por ano, 61% dos quais exportados aos EUA, 6% ao Canadá e 12% a outros países.

Cerca de 40% do valor desses carros refere-se a autopeças produzidas nos EUA e Trump coleciona carros importados, mas isso pouco importa ante o valor do espetáculo de “trazer” fábricas para o país, mesmo se, devido à automatização, isso não significa recuperar os empregos perdidos, nem em qualidade nem em quantidade.

Os carros produzidos no México são hoje 19,4% dos vendidos nos EUA e a expectativa era de crescerem para 27,9% em 2020. Está agora em risco um setor com 1 milhão de empregos e, se a ameaça for estendida a toda a indústria maquiladora surgida desde a criação do Nafta, falamos de 2,65 milhões de empregos que respondem por 59% das exportações e 25% do PIB mexicano. 

Some-se o risco de colapso dessa indústria ao da expulsão de imigrantes e à ameaça de reter as remessas de trabalhadores mexicanos para suas famílias para pagar o famigerado muro na fronteira e não é preciso enfatizar o risco de uma explosão política e social no segundo país mais populoso da América Latina. A União Europeia, às voltas com as ondas de refugiados da Síria e Líbia, bem que poderia esclarecer o presidente eleito sobre os problemas de ter esse tipo de crise às portas e o México é bem maior.

Não que seja o único ameaçado. O México e a China são os bichos-papões mais citados por Trump, mas todos os países com exportações industriais importantes para os EUA estão ameaçados, inclusive o Brasil. A proposta republicana é que os custos com produtos e insumos importados deixem de ser dedutíveis da receita para fins tributários, o que equivale a uma taxa alfandegária pesada e universal.

Como assinalou a economista Monica de Bolle, da Johns Hopkins University, em artigo no Estadão, empresas aéreas dos EUA não poderão deduzir de suas receitas o custo com aviões comprados da Embraer, que, além disso, teria de pagar um adicional de 6% de border adjustment tax por não usar mão de obra estadunidense. 

De certa forma, Trump lembra Mikhail Gorbachev e seu sonho fracassado de fazer a União Soviética “grande de novo”. Os dois podem ser antípodas em muitos aspectos do temperamento e da formação intelectual, mas ambos representam ou representaram um movimento de insatisfação com a decadência percebida de suas superpotências e mostraram vaidade e autoconfiança desproporcionais à sua capacidade de enfrentar ou talvez nem sequer compreender as razões profundas das suas dificuldades sociais e econômicas. 

História
Gorbachev repudiou acordos comerciais por julgá-los danosos e isso acabou por destruir o bloco soviético e a própria URSS (Foto: Ricardo Alday Turriaga/Fotoarena e Abramochkin Yuryia/AFP)

Gorbachev, enquanto conduzia tentativas ineficazes de reforma e modernização internas, julgou a URSS prejudicada por acordos comerciais demasiado generosos para com países do bloco soviético, anteriores aos choques do petróleo.

Ao menos segundo a cotação oficial da moeda fictícia usada nessas transações, Moscou fornecia a esses parceiros petróleo e matérias-primas a preços inferiores aos internacionais e pagava por seus produtos mais do que o mercado ocidental.

Economias e comércio internacional foram moldados por esse sistema de “solidariedade socialista”: Cuba, por exemplo, foi desencorajada a desenvolver uma indústria própria (como pretendera Che Guevara) e estimulada a se concentrar em exportar açúcar e importar máquinas russas e alemãs orientais. Em troca da hegemonia soviética, essa interdependência proporcionava razoável segurança econômica aos parceiros.

A partir de julho de 1989, com poucos meses de aviso prévio, esses países foram obrigados a entrar num sistema de transações em moedas fortes a preços de mercado e expostos a uma competição impiedosa.

Suas economias e seus sistemas políticos entraram em colapso antes mesmo que fosse completada a reforma do comércio exigida pelo Kremlin. O Muro de Berlim caiu em novembro do mesmo ano e o resto do bloco (salvo Cuba) desmoronou como uma fileira de dominó até o colapso chegar, no fim de 1991, à própria URSS.

O império construído pelos EUA talvez não desabe com a mesma rapidez, mas dá passos na mesma direção. Desde os anos de Ronald Reagan, os EUA estimularam ou forçaram a abertura de seus parceiros ao livre-comércio e à livre circulação de capitais. Com isso os obrigou a moldar suas economias às suas demandas e fortaleceu sua hegemonia.

Países aliados tiveram de sucatear setores tradicionais e enfrentar crises sociais, embora também se criassem oportunidades de investimento e enriquecimento para suas elites. Por outro lado, os EUA abriram mão de algumas indústrias e aceitaram manter um crescente déficit comercial, compensado pelo fluxo de capitais para Wall Street. Apesar do aumento da desigualdade e do desemprego, um número suficiente de pessoas, principalmente nos EUA, podia ser persuadido a não contestar o sistema antes da crise de 2008. 

Ficou mais difícil mascarar os problemas causados pela globalização neoliberal aos trabalhadores da própria superpotência. O resultado é Trump e um eleitorado iludido sobre a possibilidade de comer o bolo e continuar com ele, sem consciência de que querer revogar o livre-comércio apenas nos aspectos danosos à classe média estadunidense e cobrar dos aliados os custos da “proteção” oferecida por Washington é abrir caminho à desintegração do império e matar a galinha dos ovos de ouro.

Mesmo que os EUA pudessem voltar aos anos 1960, não teriam como obrigar a China e as demais potências industriais asiáticas surgidas nas últimas décadas a fazer o mesmo e perderiam o que lhes resta de competitividade.

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