Número 935,

Internacional

The Observer

Marine esconde Le Pen para ganhar a França

por The Observer — publicado 23/01/2017 00h17, última modificação 20/01/2017 10h36
A candidata da extrema-direita francesa cria uma versão "light" para tentar vencer as eleições
Charles Pau/Reuters/Fotoarena
Marine Le Pen

A candidata no figurino extrema-direita "light"

Por Kim Willsher

Na modesta sede da campanha de Marine Le Pen, em uma das ruas mais elegantes de Paris, a Rue du Faubourg Saint-Honoré, falta alguma coisa, e não é apenas a estátua simbólica de Joana d’Arc ou o galo gigante de papel machê que enfeita os escritórios permanentes da Frente Nacional a poucos quilômetros dali.

Não longe do Palácio do Élysée, onde Le Pen espera morar daqui a quatro meses, cartazes pendurados na sala da entrevista mostram o slogan da campanha, Au Nom du Peuple (Em Nome do Povo), e as palavras MARINE Presidente, acompanhadas de uma rosa azul, sem espinhos. Não há menção à FN nem qualquer indício do nome Le Pen. Também desapareceu o logotipo da Frente, uma chama vermelha, branca e azul.

É o lançamento oficial de sua campanha presidencial. Ela chega em um blazer que combina perfeitamente com os cartazes e a cadeira destinada a ela, perto da obrigatória bandeira francesa, a Tricolore, que se mistura às paredes cinza-azuladas. Tudo é perfeitamente coordenado e tranquilizador. Le Pen sorri e deseja a todos um feliz ano-novo.

Tudo é extrema-direita “light”, a imagem suave de uma mulher conhecida como durona e defensora de uma “França esquecida”, que, segundo fotos “privadas” divulgadas no ano passado, também é generosa com os gatos.

Há seis anos Marine assumiu a FN e começou a torná-la, e a si mesma, elegível. Nesse período, transformou sua posição de movimento marginal tóxico em um partido da corrente dominante. Quatro meses antes da eleição presidencial, a vitória de Le Pen continua improvável, mas não mais impossível.

O pai de Le Pen não tem, porém, lugar nesse partido metamorfoseado e reembalado. Jean-Marie e sua filha não se falam mais, depois que ela o expulsou por não assinar o programa de desintoxicação. Enquanto o patriarca insiste que o Holocausto foi um “detalhe” da história, Marine segue em frente: seus alvos são a imigração, a União Europeia e o fundamentalismo islâmico.

Segundo Jérôme Fourquet, diretor da empresa de pesquisas de opinião Ifop, essa repaginação vai além da tentativa habitual de um candidato presidencial francês de personalizar sua campanha. “Todo mundo na França conhece o logo da FN e o nome Le Pen, e estes ainda deixam muita gente temerosa”, afirma. “Ao eliminar o logo e o nome, e apresentar a candidata pelo primeiro nome, eles tentam criar uma proximidade e sugerir um produto menos difícil, preocupante, assustador.”

Em setembro passado, a FN anunciou que sua conferência anual, tradicionalmente uma “universidade de verão”, seria chamada de “evento de verão”. Os cartazes exibiam um pôr de sol no mar. “Era em cores suaves, tons pastel, mais parecido com uma publicidade de férias na Côte d’Azur do que de um evento político”, compara Fourquet.

Marine Le Pen, 48 anos, decidiu “des-demonizar” a FN em 2011, depois de tomar o controle do partido fundado pelo pai nos anos 1970. Le Pen sênior, 88 anos, causou um terremoto político em 2002 ao vencer o segundo turno da eleição presidencial, mas, até relativamente pouco tempo atrás, a família era vista como inelegível ao cargo máximo.

Uli Wiesendanger, fundadora da agência de publicidade internacional TBWA, com sede em Paris, disse que Le Pen rapidamente percebeu a necessidade de “diluir” a imagem racista, nazista e homofóbica do partido, exemplificada por seu pai, se almejasse a sério o poder. “O que ela tem feito não é tão criativo, na verdade, e não imagino que um especialista em marketing tenha criado isso.” 

Wiesendanger acrescenta: “Espero que ela mesma tenha pensado, ao perceber que o nome não atraía os eleitores. Mas, se o partido que ela representa se envergonha de seu nome, é uma observação muito interessante. Ela não é nada burra, e fala muito bem, melhor que qualquer outro político do país, mas eu não a representaria”.

Não está claro quem representa Le Pen, se é que há alguém. Sua campanha presidencial de 2012 foi conduzida por uma agência pouco conhecida, a Riwal, dirigida por um velho amigo, Frédéric Chatillon, ex-integrante da sombria organização estudantil de extrema-direita Groupe Union Défense. Em 2015, um juiz ordenou a Chatillon, cujo nome apareceu nos Panama Papers, e à Riwal a não trabalhar de “maneira direta ou indireta” com a FN como parte de uma investigação sobre financiamento de campanha.

Diante do QG da campanha de Le Pen, L’Escale, um cartaz de eleição tinha sido vandalizado. Por baixo dos arranhões, Le Pen podia ser vista diante de um fundo bucólico a olhar sonhadora para o futuro da extrema-direita, acima do slogan “La France Appaisée” (a França tranquilizada). Mais uma vez, nenhuma menção à FN. 

Os institutos de pesquisa são cautelosos ao prever o resultado da eleição presidencial, mas uma disputa em segundo turno entre o candidato de centro-direita, François Fillon, e Le Pen ou o ex-ministro socialista independente Emmanuel Macron é considerado o cenário mais provável. Os partidos Socialista e Ecológico escolherão seus candidatos no fim do mês, de uma longa lista de candidatos de esquerda, incluído o ex- primeiro-ministro Manuel Valls.

Em L’Escale, diante dos integrantes da Associação Anglo-Americana de Imprensa, Le Pen estava confiante ao atacar diversos alvos: “Chantagem, ameaças, intimidação... e diktats” dos tecnocratas da UE. O euro, disse, “é uma faca enfiada nas costelas do país”. Sem falar na “submissão” forçada da França à vontade de Bruxelas.

Le Pen atacou a chanceler alemã, Angela Merkel, e a dominação pela UE da política do continente. Usou o termo à la schlague, que significa “à surra” e é mais associado à brutalidade de um campo de concentração nazista. Este é um dos motivos pelos quais muitos concordam com Fourquet e veem com ceticismo a reformulação de Marine.