Número 931,

Internacional

EUA

A “Diplomacia” de Trump pelo Twitter

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 18/12/2016 07h48
O presidente eleito dos EUA dispensa o Departamento de Estado e desafia empresas estratégicas e potências estrangeiras pela rede social
Por smartphone

O estilo trumpiano de governar faz vibrar os seus eleitores, mas pode desarticular a rede de alianças da qual depende a hegemonia dos EUA

Faltam seis semanas para a posse de Donald Trump, mas o caos nas relações internacionais não pode esperar. Seus assessores, com receio de alguma asneira mais grave comprometer a eleição, o haviam convencido a se afastar do Twitter na reta final da campanha, mas agora ninguém mais o segura.

De maneira inédita para um governante, Trump desdenha manifestar-se por meio de porta-vozes ou entrevistas coletivas e anuncia reviravoltas políticas por meio da rede social. Assim consegue fugir de perguntas embaraçosas, esvaziar a mídia e contornar filtros às vezes críticos para se comunicar diretamente com as massas de apoiadores.

As consequências podem ser sérias. Na terça-feira 6, Trump anunciou sem mais nem menos o cancelamento de um projeto estratégico: “A Boeing está construindo um novo 747 Air Force One para futuros presidentes, mas os custos estão fora de controle, mais de 4 bilhões (de dólares). Ordem cancelada!”

Foi, aparentemente, uma retaliação a críticas do executivo-chefe da empresa. Segundo artigo publicado 20 minutos antes no site do jornal The Chicago Tribune, “a Boeing, uma das maiores empresas da cidade e uma potência aeroespacial e de defesa mundial, deve estremecer quando o presidente eleito Donald Trump bagunça a política externa, especialmente ao lidar com a China”, um dos maiores clientes de seus aviões, um dos raros produtos ainda feitos com 90% de mão de obra estadunidense.

Não só as ações da empresa caíram, como as de todo o setor aeroespacial e bélico, dadas as súbitas dúvidas sobre as intenções de um governo até então visto como um patrono incondicional da indústria armamentista.

É uma questão em aberto se a família e os amigos do presidente eleito tiveram tempo de fazer suas jogadas na Bolsa e provavelmente a mensagem custará ao país e aos seus eleitores um bom número de empregos, para a satisfação de concorrentes como a europeia Airbus e a ucraniana Antonov.

Mais grave ainda é a bagunça nas relações com a China à qual se referia o jornal, igualmente provocada por meio do Twitter, sem consulta ou aviso ao Departamento de Estado ou a qualquer pessoa fora de seu próprio círculo de áulicos e propagandistas, até porque ainda não escolheu o seu secretário de Estado. No sábado 3, anunciou sua gratidão por um telefonema de congratulações da presidenta de Taiwan, Tsai Ing-wen.

Twittes
Os twittes de Trump atacam a todos
Não foi uma mensagem de rotina, pois dezenas de chefes de Estado fizeram o mesmo sem receberem agradecimentos públicos e mesmo Trump não deve ignorar que desde 1979 os EUA romperam com Taipé, reconhecem apenas o governo de Pequim e essa é uma questão de honra para a China. Obviamente a presidenta Tsai, uma tecnocrata discreta, jamais teria tomado a iniciativa sem ser convidada.

O governo de Xi Jinping prontamente protestou e o vice eleito Mike Pence tentou minimizar o incidente dizendo ter sido apenas um telefonema de cortesia e foi logo desmentido.

Primeiro pelo Washington Post, cujas fontes esclareceram ter sido uma provocação premeditada e preparada em conjunto com assessores pró-Taiwan e com o governo de Taipé para marcar uma virada política nas relações com a ilha, tão simbólica quanto o reatamento de Barack Obama com Havana.

Segundo The New York Times, é o produto de seis meses de trabalho de Bob Dole, ex-candidato republicano à presidência (em 1996, contra Bill Clinton) , hoje lobista a serviço de governos estrangeiros, remunerado pela operação com 140 mil dólares.

Depois, pelo próprio chefe, em novas sequências de tuítes inesperados: “Interessante como os EUA vendem a Taiwan bilhões em equipamentos militares, mas eu não deveria aceitar uma chamada de congratulações.

Por acaso a China nos perguntou se era OK desvalorizar sua moeda (tornando nossas empresas menos competitivas) e taxar nossos produtos (enquanto os EUA não taxam os deles) ou construir um massivo complexo militar no meio do Mar da China do Sul? Acho que não!”

A tensão entre os EUA e a China não chega a ser novidade. Obama dedicou boa parte dos seus esforços em política externa a uma “virada para a Ásia”, que em português claro foi uma tentativa de isolar Pequim por meio de acordos militares e comerciais com seus vizinhos, mesmo inimigos históricos como Mianmar e Vietnã, e foi à provocação militar ao fazer navios de guerra passear perto de ilhas reivindicadas e ocupadas pelos chineses.

Mas de um tapa com luvas de pelica a um chute no baixo ventre vai certa distância. Desafiar a segunda (ou primeira, conforme o critério) economia e a terceira potência militar do planeta não é para amadores.

Principalmente se, ao mesmo tempo, se jogam às urtigas os compromissos com os quais Washington persuadia potenciais aliados a preferir sua parceria à dos chineses, incluído o Tratado Transpacífico e a cooperação militar com o Japão e a Coreia do Sul, para não falar das ameaças de desmantelar a Otan, abandonar o acordo climático e romper acordos com o Irã e com Cuba que são frutos de longas e penosas negociações.

A chave dessa postura pode estar na aspiração de Trump a ser “imprevisível”, repetida mais de uma vez e em diferentes contextos, inclusive sobre uso de armas nucleares, combate ao Estado Islâmico e gestão da dívida pública.

Às vezes pareceu mera desculpa para ocultar a ignorância e deixar de responder a perguntas difíceis, mas cada vez mais parece ser uma postura sistemática, inspirada por uma longa carreira como caloteiro e trapaceiro.

Poderia funcionar também para a um terrorista, um mafioso ou um Estado fraco e acuado, como a Coreia do Norte. Há quem prefira ceder a se arriscar a bater de frente com um sujeito perigoso sem nada a perder.

Não serve, porém, para uma superpotência preservar sua hegemonia em uma ordem mundial favorável.  Na diplomacia e na postura militar, uma nação nessa posição precisa inspirar segurança sobre seus princípios , doutrinas e políticas de longo prazo. 

“America First” soa bem a seus eleitores, não ao resto do mundo. Muitos governos enfrentam oposição interna por se aproximarem dos EUA e pagam um preço político por aceitar sua liderança diplomática, suas bases militares e suas imposições comerciais.

E começam a percebê-lo como um aliado pouco confiável, à mercê dos caprichos de um demagogo inescrupuloso. Em comparação, o autoritarismo chinês, com sua sucessão cuidadosamente controlada, começa a parecer um parceiro mais atraente. Ou mesmo Vladimir Putin, confiável ao menos com os aliados, como demonstrou com a Síria e o Irã.

Qual o plano?  Trump alardeia boas relações com Vladimir Putin, mas espera a sério que o líder russo se afaste de Pequim e Teerã pelos seus não tão belos olhos? Quando este se manifestou, soou sutilmente sarcástico. “Na medida em que (Trump) teve sucesso nos negócios mostrou ser esperto”, disse ele à tevê russa: “Se é esperto, vai logo compreender o nível diferente de sua responsabilidade (como estadista) e supomos que agirá com base nessa posição”. 

Para Pequim e Moscou, Trump é uma faca de dois gumes. Por um lado, pode causar dores de cabeça no comércio internacional – tentar cumprir a promessa de taxar produtos chineses, por exemplo, o que traria retaliação proporcional – e turbulência na economia mundial, mas o potencial de perturbação nas relações tradicionais de Washington com o mundo lhes trará oportunidades de expandir alianças e influência.

Recentemente, candidatos pró-russos venceram eleições presidenciais na Moldávia e na Bulgária, esta integrante da Otan desde 2004. E o presidente da Turquia, país da Otan desde 1955, disse há poucas semanas, em resposta ao congelamento pela União Europeia da proposta de adesão de seu país, estar considerando se unir ao Pacto de Xangai, que une China, Rússia e três países da Ásia Central.

Mesmo a governos com os quais mostra simpatia, Trump ainda não ofereceu mais que retórica. O primeiro-ministro Nawaz Sharif, do Paquistão, publicou uma transcrição de um telefonema a Trump. “Você tem muito boa reputação, é um cara fantástico, está fazendo trabalho incrível visível em todos os sentidos. Seu país é incrível, com enormes oportunidades.

Os paquistaneses são das pessoas mais inteligentes. Eu adoraria ir a esse país fantástico, lugar fantástico de pessoas fantásticas”, disse o presidente eleito. Este também cumprimentou efusivamente o presidente filipino Rodrigo Duterte e elogiou o massacre promovido por este contra usuários de drogas, com mais de 5 mil execuções extrajudiciais. Mas nada disse de concreto sobre as relações comerciais e estratégicas com esses governos simpáticos a Pequim. 

Quanto a Taiwan, seu governo de popularidade cambaleante marcou pontos junto à opinião pública interna ao conseguir um meio reconhecimento do presidente eleito, mas corre o risco de pagar caro no relacionamento com Pequim, destino de 40% de suas exportações e origem de boa parte dos turistas a visitar a ilha e não está claro o que os EUA poderiam oferecer além de proposta de vendas de mais alguns bilhões em armas.

Pelo contrário, as pressões de Trump para “trazer de volta” linhas de produção para o país afetam diretamente suas empresas, inclusive, por exemplo, as fornecedoras da Apple como Foxconn, TSMC e Pegatron. 

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