Número 925,

Sociedade

História

Governo Temer: Bem-vindos à barbárie

por Nirlando beirão publicado 17/12/2016 09h45
Como a Alemanha dos anos 20 pode ensinar o Brasil a se defender do projeto autoritário gestado à sombra de um governo de cabaré
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Não é quem você está pensando (O Gabinete do Dr. Caligari, 1919)

Foi um alemão barbudo e ainda hoje muito incômodo quem disse, bem a propósito, que se a história se repete, a primeira vez é como tragédia e a segunda, como farsa. O ilusório e curto intermezzo democrático da Alemanha dos anos 20 que desembocou no nazismo – conhecido como República de Weimar – sugere, de todo modo, tantas semelhanças e, portanto, tantas advertências no que diz respeito ao Brasil golpista e arbitrário da parceria Michel-Moraes-Moro-Mendes que, seja o nosso momento histórico uma sinistra tragédia, ou uma mera farsa, é bom se precaver.

Dispense-se de cara, naturalmente, qualquer comparação entre a tradição artística do país de Bach, Beethoven, Goethe, Schiller e Thomas Mann e a indigência mental da pátria canarinho, abastecida pela má-fé e o farisaísmo da mídia, nação aparvalhada que, no calor da radicalização política insana, acabou por adotar como faróis da atividade intelectual pensadores do porte de Alexandre Frota, de Susana Vieira, de Romero Britto, de Luiz Felipe Pondé e do próprio presidente-poeta, o qual, no pedestal de suas mesóclises parnasianas, até as letras clássicas pretende usurpar. 

Mais cruel e dramático fica, portanto, revisitar o exemplo alemão do primeiro pós-Guerra, com a pergunta engasgada na garganta: como é que um dia pôde triunfar a barbárie naquela Alemanha com tamanho estofo civilizatório? Como foi possível acontecer bem naquele momento em que, tão logo foi derrotado nos campos de batalha o ranço prussiano e autocrático de um império capenga, desabrocharam mil flores de uma estufa cultural que fazia fervilhar, no palco, no cinema, na arquitetura, nas artes plásticas, na filosofia, na vida civil uma nova era? 

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Em Nuremberg, 1927, o ovo da serpente foi chocado por parte da mídia, pelo Judiciário e pelo rancor da derrota de 18 (Latinstock)

O interregno de Weimar, apesar de tudo, foi uma ilusão. Historiadores perspicazes preferem dizer que seu fim estava implícito desde o começo. A vitória dos sociais-democratas em janeiro de 1919, em meio à convulsão revolucionária que ameaçava se alastrar para além das fronteiras da recém-criada Rússia soviética, obrigou o precário gabinete Friedrich Ebert a transferir a prometida Assembleia Constituinte para uma cidade a 240 quilômetros da insegura e turbulenta Berlim. Burgo de grande tradição cultural, Weimar – Goethe e Schiller tinham morado lá – tinha tudo para servir de símbolo de uma Alemanha enfim liberal, embora, em premonição aziaga, os constituintes tivessem de recorrer à proteção armada dos Freikorps – milícia de voluntários construída a partir dos destroços do Exército do Kaiser e de desocupados raivosos.

Os Freikorps se revelariam um estorvo para o futuro intercurso republicano, mas o texto constitucional made in Weimar, rascunhado por Hugo Preuss, acadêmico de renome, liberal e judeu, sinalizava para um regime parlamentarista sincero e legítimo, com descentralização federativa e presidente forte, ao estilo francês. Foi promulgado a 6 de fevereiro no mesmo teatro onde Franz Liszt regera a estreia de Lohengrin, de Richard Wagner.

Os reformistas saudaram o avanço como se fosse uma revolução, mas naquele exato momento os revolucionários de fato estavam sendo trucidados. Socialistas moderados, no poder, versus espartaquistas, que ao poder aspiravam, na moldura soviética, com o apoio dos marinheiros insurretos de Kiel e de Hamburgo e de proletários de todo o país – a esquerda engalfinhava-se, enquanto a direita espreitava para dar o bote.

O governo, acusando os espartaquistas de serem agentes russos, lavou as mãos enquanto as milícias e o que o sobrara das tropas regulares promoviam a matança. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, líderes da insurreição, foram assassinados à queima-roupa, depois de presos e torturados, ambos no mesmo dia, 15 de janeiro, em Berlim, enquanto os socialistas de Ebert tentavam em Weimar conferir um ar de normalidade à transição. O assassinato do primeiro-ministro da Baviera, Karl Eisner, insuflaria os comunistas a proclamar uma “República Soviética” na província, esmagada com ferocidade no início de maio. Na subsequente paz de cemitérios, já dava para perceber, como fez o conde Harry Kessler, que “tudo ficará como dantes”.

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Realismo. Otto Dix tematizou as violências do cotidiano (Latinstock)

“Fundar um país na cidade de Goethe não garantia um país à imagem de Goethe. Nem mesmo garantia sua sobrevivência”, resume a historiador Peter Gay (em A Cultura de Weimar). “A República nasceu derrotada, viveu em tumulto e desde o início havia muitos que viam sua labuta com suprema indiferença ou com aquela alegria malsã pelo sofrimento dos outros, para a qual a Alemanha havia cunhado o termo evocativo de schadenfreude. Mesmo assim, a escolha de Weimar não foi nem quixotesca nem arbitrária; durante certo período a República teve uma chance real.”

O burburinho cultural parecia refletir essa esperança de uma suave convivência democrática numa nação pouco afeita a ela, se bem que Lotte H. Eisner, em seu clássico A Tela Demoníaca (que foca no cinema expressionista dos anos 20), sugira o inverso: “Na Alemanha, o caos e o desespero parecem frequentemente mais propícios à criação”. 

Assim como o Brasil de sempre, a Alemanha dos anos 20 saboreava na democracia um verdadeiro Estado de exceção. Weimar durou 12 anos, quase tanto quanto o desconfortável lapso do PT no Brasil da casa-grande. Os contrapesos que poderiam compensar a reiterada vocação autocrática herdada daquela Prússia imperial não funcionaram. A culpa não era vagamente da história, mas dos homens que a forjaram – ou que diante dos desvarios da conjuntura se omitiram vergonhosamente.

O Exército estava em frangalhos, desmoralizado pela derrota na guerra e humilhado pelo leonino Tratado de Versalhes – que cobrava bilionárias indenizações de guerra e impedia a Alemanha de se rearmar. No entanto, a ameaça do bolchevismo, que batia à porta, improvisou brigadas arruaceiras, bancadas pela burguesia financeira e pela Fiesp de lá, movidas apenas e tão somente pelo desejo de expurgar a esquerda do mapa político (no Brasil, um comunismo fictício sempre foi e continua sendo usado como espantalho para assustar os saraus burgueses ante o avanço das conquistas populares). Os nazistas concluíram com requinte o projeto. Também este filme – o da truculência financiada para extinguir à força o pensamento dissidente – a gente conhece.

À falta do Exército regular, o Judiciário arvorou-se como guardião do status quo. Magistrados de polainas e bigodes retorcidos agiam a bordo de uma parcialidade digna da Lava Jato. Acomodados no aconchego do establishment, os burocratas aplaudiam. O eixo do mal estava formado. Os agentes da lei jamais se interessaram em apurar, por exemplo, o assassinato dos líderes da esquerda revolucionária (o corpo de Rosa Luxemburgo, atirado no Canal Landwehr, só apareceu, inchado e irreconhecível, quatro meses depois).

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Goebbels tentou cooptar o Lang de Os Nibelungos. O cineasta rapou o cofre e sumiu (Latinstock)

Tratamento diferenciado obteve aquele celerado de nacionalidade austríaca que, em protesto contra um governo acusado de ser dócil demais com os vencedores de 1918, reuniu um punhado de ativistas para tentar um caricato putsch numa cervejaria de Munique, na noite de 9 de novembro de 1923. O golpe falhou e o ex-cabo Adolf Hitler foi acusado de alta traição. No entanto, seu julgamento transformou-se numa pantomima digna daquelas que nosso Supremo Tribunal encena hoje. Condenado à pena mínima de cinco anos, Hitler ficou apenas oito meses detido. Graças à farsa judicial, o golpista que era só uma piada reapareceu na condição de importante figura da cena política.

A humilhação pelo diktat de Versalhes – que os alemães atribuíam basicamente a uma desforra dos franceses, derrotados pelas tropas do Kaiser em 1870 – fermentou e azedou, em conjuração tóxica com a hiperinflação do pós-Guerra e com o desemprego crônico (só na capital 250 mil desempregados vagavam pelas ruas, mendigando o que fosse), e, embora a economia tenha, graças ao socorro externo, recuperado alguma estabilidade em meados dos anos 20, até a nova traulitada da crise de 29, estava aí servida a dieta cotidiana que foi extraindo da opinião pública seus demônios mais despóticos.

Para tanto acabaria por dar sua contribuição – adivinhem! – a imprensa, ainda que não haja comparação possível entre a toada monocórdia de nossa mídia oligárquica, feroz adversária da liberdade, e os veículos alemães da época, de tendência plural, onde podia florescer, por exemplo, a verve crítica de George Grosz (“Meus desenhos expressam desespero, ódio e desilusão”) e onde militava a favor dos famintos e dos deserdados o traço contundente de uma Käthe Kollwitz e de um Otto Dix.

A virada autoritária da mídia impressa deu-se quando entrou em cena um magnata da indústria, Alfred Hugenberg, enriquecido durante a inflação. Precursor da família Marinho, Hugenberg decidiu controlar a indústria de opinião. Foi cevando um monopólio. Não se acanhou em flertar com aquele que era até então um pária da alta política – e com as sinistras teorias raciais dele. Conferiu alegremente aos nazistas uma respeitabilidade que eles não tinham. Deu no que deu.

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No palco. O desejo revolucionário ganhou voz e som na Ópera dos Três Vinténs, de Bretch e Weill ( Latinstock)

Estupidez, desfaçatez e covardia davam o diapasão à política de Weimar, enquanto a Alemanha sacudia-se, nos cabarés burlescos, ao som frenético da transgressão sem pausa. Um estrangeiro como o inglês Christopher Isherwood haveria de ver, na decadência, altivez. Mas a dissipação alcoolizada e libidinosa retratada por Isherwood em seu Adeus a Berlim já presumia, na urgência do presente, um mal-estar com o futuro.

Aquela Alemanha que chocava o ovo da serpente era também a Alemanha da Escola de Frankfurt – fundado em 1923, como “Instituto de Pesquisa Social”, agregaria mestres do reformismo  marxista tais como Herbert Marcuse, Theodor Adorno, Walter Benjamin, Max Horkheimer, Franz Neumann, Paul Lazarsfeld, Leo Löwenthal e Erich Fromm  – e de Bauhaus – a academia de arte, design e arquitetura criada sob a égide de Walter Gropius, em 1919, significativamente em Weimar, antes de se mudar para Dasau, em 1925, onde um ambiente experimental, descontraído e vigoroso (e que Gropius pretendia, em vão, ser “apolítico”) atraiu talentos como Paul Klee, Wassily Kandinsky, Lyonel Feininger, Herbert Bayer, Marcel Breuer.

Era igualmente a Alemanha do teatro de Bertolt Brecht musicado por Kurt Weill e da literatura dos irmãos Mann, Thomas e Heinrich (há quem veja no sanatório de A Montanha Mágica, avassaladora obra-prima de Thomas Mann, “um simulacro da civilização europeia, podre, exausto com a paz, pronto para a dança da morte, abertamente próspero e serenamente corrupto”. À mesma época, a psicanálise extravasou de sua Viena natal e aclimatou-se de tal forma além fronteira norte que parecia tão alemã quanto o chucrute e a bratwurst. Eram alemães alguns dos mais inspirados discípulos de Sigmund Freud: Karl Abraham, Wilhelm Reich, Erich Fromm. Nos redutos da intelligentsia, Albert Einstein roçava cotovelos com o escritor Stefan Zweig, o acadêmico Max Weber, o maestro Bruno Walter e os compositores Alban Berg e Paul Hindemith. 

Na noite em que Einstein desfrutou na Filarmônica de Berlim dos solos inspirados de um violinista de 13 anos chamado Yehudi Menuhin, aquele que buscava na ciência a síntese do universo chegou a ele por um inesperado caminho. “Você me provou, Yehudi”– disse Einstein – “que existe um Deus no firmamento.”  

Os anos 20 davam a impressão de firmar para a Alemanha o compromisso com a razão, o intelecto e a criatividade, mas no bas-fond da psique alemã ainda se encrespavam as ondas de um nacionalismo triunfal, alimentado pelo discurso do romantismo germânico e pelos mitos de heróis avoengos. Não por acaso, um dos filmes favoritos do futuro Führer era Os Nibelungos, de Fritz Lang, saga guerreira lançada em 1924 e que, depois do assalto ao poder pelos nazistas, acabaria valendo ao cineasta o embaraçoso convite de dirigir a estatal de cinema. Na versão edulcorada do mitômano Lang, o ministro da Informação, Joseph Goebbels, chamou-o ao gabinete para transmitir o recado de Hitler. Lang pediu 24 horas para pensar, rapou as economias no banco e partiu no primeiro trem para Paris. Seja como for, estava desencadeado o êxodo dos melhores cérebros do país. 

Nada foi tão nitidamente metafórico quanto o cinema expressionista alemão dos anos 20. Nas sombras espectrais, nas figuras sinistras que se esgueiravam nas frestas do chiaroscuro, na noite permanente, no décor que, contrariando as regras da perspectiva, recortava planos multifacetados, vertiginosos, escorregadios, como se os objetos também guardassem uma alma diabólica, o expressionismo impôs uma estética que parecia gritar o perigo que haveria de vir. O prenúncio da tragédia vem desde o pioneiro O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiener (de 1919), de onde aflora, na visão de um crítico, “a Alemanha gótica, sinistra, demoníaca, cruel”– para tudo se acabar, em emblemática premonição, num asilo de loucos. 

O Dr. Mabuse, o Jogador (de Fritz Lang), M, o Vampiro de Düsseldorf (também de Lang), Nosferatu (de Friedrich Murnau) aventuravam-se pelo território fictício do mal absoluto, “com os sopros glaciais do além” (como definiu Siegfried Kracauer, no clássico De Caligari a Hitler), espaço a ser, logo, logo, na dura e crua realidade, preenchido pelos fanáticos do apocalipse nazi. Cientistas malévolos, experimentos monstruosos, criaturas mesmerizadas desfilam nas telas sombrias do expressionismo como que parodiando o fervilhante laboratório político e social dos anos Weimar. 

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Metafísica. Mann expôs um mundo doente. Einstein buscou a síntese e viu Deus no violino (Latinstock)

Na eleição parlamentar de 1930, o partido nacional-socialista teve 6,5 milhões de votos e 107 de seus deputados tomaram assento no Reichstag. Na de 1932, os nazistas perderam 2 milhões de votos e 34 cadeiras. Mas a República, em sucessivos solavancos, só conseguia se prender ao tênue fio de honorabilidade do presidente ancião, o marechal Hindenburg.

E foi ele quem, resignado, cedeu aos conselheiros supostamente pragmáticos e fez de Adolf Hitler o chanceler da Alemanha. Também lá os covardes e os hipócritas alegaram “a legalidade” do processo, sabendo-se de antemão que a primeira coisa que Hitler haveria de fazer no poder seria golpear essa “legalidade” por cujas frestas chegara ao poder. O projeto nazista sempre foi a ditadura e a barbárie. A ilegalidade via “legalidade”: o Brasil de 2016 tem precedente.