Número 923,

Internacional

Economia

O nacionalismo de direita e a era da desglobalização

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 21/10/2016 14h59
Em uma época de crescimento estagnado, o populismo reacionário torna-se tentador e perigoso
Mike Nelson/ AFP
Direita no mundo

O "não" da direita à globalização na Europa de 2016 (Londres) é o avesso...

As repetições do clichê “a globalização é irreversível”, mantra dos anos 1990, podem ser encontradas aos milhares com uma rápida pesquisa pelo Google. Mesmo seus críticos reunidos no Fórum Social Mundial recusavam ser tachados de “antiglobalização” e disseram buscar uma “mundialização alternativa”. Hoje, porém, o termo “desglobalização” ganha cada vez mais espaço, não como consequência temporária de um acidente de percurso como a crise de 2008, mas como uma força assertiva e talvez de longo prazo.

O Brexit de junho fez soar o sinal de alarme, mas a tendência é geral, como mostra a rejeição de ambos os principais candidatos presidenciais dos Estados Unidos ao Tratado Transpacífico, a ascensão da xenofobia e dos populismos reacionários na União Europeia e do nacionalismo na Rússia, Japão, Turquia e Filipinas.

A própria China, cuja abertura estimulou o crescimento mundial por muito tempo, entrou em novo ciclo, começa a voltar-se de novo para dentro, prioriza o consumo e o investimento interno e valoriza o legado do maoísmo. 

O volume do comércio internacional foi equivalente a 25% do produto mundial bruto nos anos 1960, 32% nos anos 1970, 38% nos anos 1980, 43% nos anos 1990, 55% nos anos 2000 e 60% na primeira década de 2010. Mas em 2016, o comércio internacional deve crescer menos que a economia mundial (1,7% ante 2,2%) sem nenhum evento catastrófico que o justifique.

Nas últimas décadas, isso só havia acontecido duas vezes, em 1982 como consequência do choque dos juros de Paul Volcker, e em 2001 com o estouro da bolha especulativa das pontocom e os atentados do 11 de Setembro.  

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... da luta por uma mundialização alternativa dos anos 1990 (Seattle)

Segundo a Organização Mundial do Comércio, a desaceleração deve-se em 75% à queda do investimento internacional (por exemplo, menos capital ocidental em indústrias chinesas) e no restante ao crescimento do protecionismo. As tarifas sobre o comércio internacional haviam caído continuamente de 1985 a 2008, mas após a crise financeira se estabilizaram e nos últimos dois anos, sobretaxas e outras barreiras comerciais voltaram a aumentar. O fenômeno é anterior aos eventos políticos deste ano, que, provavelmente, o reforçarão.

A questão de fundo é a percepção de que, apesar dos smartphones, robôs e veículos autônomos, do Uber e do Airbnb, a produtividade das economias mais avançadas cresce muito pouco ou nada, o desemprego aumenta, a população envelhece e uma estagnação secular se consolida.

Se os países pobres ainda têm espaço para aumentar sua produtividade pela absorção de tecnologias industriais existentes, são percebidos como uma concorrência desleal. Se vivem a guerra ou o caos e expelem migrantes, são vistos como uma ameaça ainda maior.

Para que tenha plausibilidade, a fé inabalável dos economistas liberais na teoria das vantagens comparativas e o amor dos gurus da administração e da autoajuda pela ideologia do “jogo do ganha-ganha” dependem de uma percepção, se não de abundância concreta, ao menos de expectativas de crescimento a longo prazo.

Se esta falta, a economia é percebida como um jogo de soma zero e cada um tenta salvar o seu padrão de vida à custa dos demais. Como até os analistas de mercado financeiro descobrem depois de sobreviverem a um ou dois ciclos, com o mercado em alta, todo mundo é gênio, mas quando cai, vale a lei da selva. 

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Não dá para falar de crescimento ilimitado com a biosfera no limite (Ria Novost/ AFP)

O próprio capitalismo depende de uma perspectiva de crescimento. Na Idade Média, a estagnação secular era a norma e os juros eram mera usura. Como explicava Tomás de Aquino, ao contrário de um rebanho ou de uma terra arrendada, o dinheiro não dava frutos.

Isso mudou um tanto de figura quando o capitalismo deixou de ser um fenômeno marginal mais ou menos tolerado para moldar a economia, a política e o pensamento. Teoria crítica à parte, do ponto de vista do capitalista o dinheiro parece frutificar e a perspectiva de crescimento justifica todo o sistema, a começar pelas taxas de juro. 

Dos séculos XVII ao XIX, não se divisavam limites ao crescimento, pois a nova sociedade se expandia pela conquista de um mundo ainda na maior parte pré-capitalista. Só no fim do século XX, quando eram completadas a partilha da África e a submissão da China, a questão começou a ser posta. “Penso nas estrelas que vemos à noite, esses vastos mundos que jamais poderemos atingir. Eu anexaria os planetas se pudesse. Entristece-me vê-los tão claramente e ao mesmo tempo tão distantes”, lamentava o colonialista Cecil Rhodes em 1895.

Teóricos marxistas radicais, como Rosa Luxemburgo e Vladimir Lenin, viram no fim das conquistas coloniais o prenúncio da estagnação do crescimento e do fim do capitalismo, depois do qual seria “socialismo ou barbárie”. Precipitaram-se, mas à sombra da Primeira Guerra Mundial e das crises dos anos 1920 e 1930, tais teses soavam plausíveis. 

Foi preciso o choque da Segunda Guerra Mundial e o desafio soviético para lançar um novo ciclo de crescimento, baseado menos no crescimento físico do capital industrial e mais no aumento intensivo de produtividade e consumo, graças à aplicação sistemática da ciência à produção, ao crescimento demográfico e à inclusão dos trabalhadores no consumo de lazer e bens duráveis, transformando-os em “classe média” do ponto de vista do marketing. A miragem do crescimento ilimitado tornou-se um dogma tão sólido quanto o do Juízo Final na Idade Média e com as missões Apollo, até a aspiração de anexar os planetas pareceu menos absurda. 

O colapso da União Soviética, a conversão parcial da China à economia de mercado e as privatizações dos anos 1990 reforçaram a ilusão e reabriram ao capital os poucos espaços que lhe haviam sido negados e encorajou as elites a rasgar os pactos sociais dos anos dourados.

As inovações da informática inspiraram a fé em um crescimento não só infinito, como cada vez mais rápido. Seus apóstolos mais fervorosos profetizaram um crescimento de dez vezes no valor das ações até 2020 (“Dow 100.000”), a quarta revolução industrial e a “singularidade”, um salto inconcebível no desenvolvimento, a partir dos anos 2030 ou 2040.

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Nos anos 1940, o cenário do pós-Guerra permitiu um novo ciclo e o sonho da prosperidade sem fim. O quadro agora é outro (DPA/ Fotoarena)

Em vez disso, a virada do milênio trouxe a austeridade e a asfixia do consumo e do investimento. Com expansão, o aumento do lucro e da concentração de renda que resulta da globalização não implicaria empobrecimento absoluto dos trabalhadores, mas com crescimento baixo, significa desemprego e salários mais baixos. O “populismo”, o que em liberalês é sinônimo de qualquer tese alternativa ao liberalismo, torna-se inescapável.  E na falta de uma esquerda radical consistente, só resta o populismo de direita.

Com a crise financeira, as nações ricas atolaram-se no mesmo pântano de estagnação crônica no qual o Japão está preso desde fins dos anos 1980. Ainda mais importante, a deterioração ambiental, a mudança climática e a extinção em massa atingiram patamares nos quais não podem mais ser ignorados.

Mesmo que os entraves sociais e financeiros sejam superados, haverá o limite da biosfera. Sonhos como a substituição total dos combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia e a reciclagem total de matérias-primas são necessários não para o crescimento, mas para a construção de um caminho para a sobrevivência para além de mais uma ou duas gerações. É preciso correr para ficar no mesmo lugar. 

O mundo econômico não é plano, mas é finito e a beirada não está longe. Pode (ou deveria) haver espaço para países pobres alcançar a qualidade de vida das nações mais afortunadas, mas não para o crescimento ilimitado. Nessas condições, as expectativas que sustentam a lógica do capitalismo liberal perdem a credibilidade.

Como justificar a própria existência dos juros e os cálculos de valor presente sem expectativa de crescimento? Hoje, o fato de a maioria dos países ricos ter juro básico real (e até nominal) nulo ou negativo com inflação baixa é visto como uma anomalia temporária, mas talvez seja apenas o novo normal. Anormal é esperar que, nessas condições, a economia e a política continuem a funcionar como antes. 

Um mundo sem crescimento é um mundo no qual se torna senso comum que só é possível progredir (se não apenas sobreviver) à custa de outros. Podem-se esperar pressões crescentes pela proteção de produtos, empregos e empresas locais e para bloquear o movimento de imigrantes.

Sem a contribuição desses, torna-se ainda mais difícil sustentar o que resta de Estado social, principalmente em nações em vias de envelhecimento. Conflitos internacionais se tornarão cada vez mais intensos e difíceis de moderar. A luta de classes torna-se mais explícita e, eventualmente, servirá de pretexto a regimes mais autoritários.

Os EUA, que nos anos 1940 tinham interesse em liquidar o fascismo e desbloquear o crescimento mundial para enfrentar o comunismo, agora são apenas uma potência a mais a tentar garantir o seu pirão primeiro. E mesmo que não fosse, também não tem resposta à questão ecológica. 

Já vimos este filme antes, mas desta vez a cavalaria está do outro lado e não adianta pedir socorro aos índios, pois nem eles sabem como sobreviver em um mundo como este que estamos criando. A tirada de Slavoj Zizek em 2011, “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, deixa de se referir à ficção e ganha conotações cada vez mais sinistras. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 924 de CartaCapital, com o título "A era da desglobalização". Assine CartaCapital.