Número 823,

Internacional

Vaticano

A perestroika da Igreja

por Carlos Bernabucci — publicado 02/11/2014 09h40
Francisco imaginava as resistências conservadoras, mas avançou bastante no caminho da renovação

De Roma

As conclusões do Sínodo Extraordinário sobre a Família, convocado em Roma pelo papa Francisco e realizado de 5 a 19 de outubro, têm a aparência de um decepcionante compromisso, mas, por muitas razões, não poderiam ter sido mais surpreendentes. Depois de um entusiasmo precoce do mundo progressista ao ouvir inéditas aberturas dos padres sinodais em questões como divórcio, gays ou casais de fato, a reação furibunda dos tradicionalistas murchou bem cedo qualquer euforia e produziu efeitos contundentes, barrando de fato evoluções imediatas nesses campos e chegando até a perturbar a habitual serenidade do papa.

Só agora o pano desceu sobre o pequeno conclave, está claro o motivo pelo qual enfrentar as delicadas questões da família haverá de ser realizado em duas etapas aparentemente repetitivas, com um ano de distância entre esta e a próxima: os acordados organizadores jesuítas sabiam, antes de começar a empreitada, que um Sínodo único não seria suficiente para assentar um amplo consenso em torno do papa e que o tempo era aliado fundamental para o fortalecimento do espírito inovador no corpo de uma Igreja prevalentemente conservadora.

A direção dos trabalhos sinodais foi politicamente maquiavélica, no melhor sentido, e os métodos escolhidos, muito audaciosos. O papa manteve controle direto e absoluto sobre a organização do evento, nomeando secretário-geral um cardeal absolutamente fiel, Lorenzo Baldisseri, com assistência do bispo e teólogo Bruno Forte, no papel de secretário especial, uma espécie de “eminência parda” do Sínodo. E seguidor dos ensinamentos do falecido cardeal jesuíta Carlo Maria Martini, abertamente a favor da evolução da Igreja na moral sexual e, por conseguinte, hostilizado por João Paulo II e Bento XVI.

No Sínodo Extraordinário, é o papa quem, pessoalmente, convida um número selecionado de bispos e fiéis, participantes sem direito a voto. A escolha de Francisco respeitou os equilíbrios existentes na Igreja Católica e, consequentemente, a composição do Sínodo foi prevalentemente conservadora (não poderia ter sido diferente, visto que a grande maioria dos bispos e cardeais foi nomeada pelos dois papas anteriores). Ao abrir os trabalhos, o pontífice deu dois recados claros aos participantes: debater sem esquemas dogmáticos, ao dar ouvidos aos problemas reais da humanidade, e expressar-se de maneira transparente e franca.

A surpresa foi constatar que esse apelo à liberdade de expressão foi imediatamente desrespeitado, com a proibição de divulgar as intervenções dos oradores, ao contrário do que aconteceu em Sínodos anteriores. A justificativa foi que, uma vez pronunciado, um discurso não pertence mais a quem o pronunciou para tornar-se patrimônio coletivo. Quem informou a imprensa, cotidianamente, foi o chefe da comunicação vaticana, padre Federico Lombardi. Ele sintetizou as intervenções sem nunca citar os autores e, na tentativa de pilotar a informação, contribuiu de fato para criar um desdobramento entre o Sínodo real e o Sínodo virtual. Assim, a mídia enfatizou, em um primeiro momento, as declarações inovadoras mais alinhadas ao espírito do tempo para depois ser o canal enfático dos protestos dos setores dogmáticos, que, desrespeitando o controle do alto, replicaram publicamente da maneira mais áspera.

O poderoso cardeal alemão Gerhard Müller, prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé, lamentou essa censura desde a primeira hora e a quebrou, ao mesmo tempo, afirmando polemicamente para os jornalistas: “Eu não participo dessa cúpula”.

O desafio mais audacioso aos setores tradicionalistas chegou na metade do caminho, no dia 13, quando foi apresentada ao público uma síntese da discussão da primeira semana, chamada em latim de Relatio Post Disceptationem. A autoria de tal “Relatório pós-debate” deve ser atribuída sem dúvida alguma aos homens mais próximos do papa. No dia seguinte, a imprensa mundial publicou comentários de teólogos e filósofos entusiasmados à enésima potência com a rápida transformação da Igreja Romana, capaz, sob a iniciativa de Francisco, de “autênticas surpresas”, com “afirmações inimagináveis até ontem em documentos oficiais da Santa Sé”. Foi particularmente apreciado o método: não mais dogmático, mas pastoral, ao escutar as necessidades e fragilidades das famílias do nosso tempo, para acompanhá-las através da evolução da doutrina.

A primeira afirmação surpreendente da Relatio foi sobre o posicionamento do Sínodo em  relação às diferentes formas de união afetiva, onde se convida a “valorizar a realidade positiva dos casamentos civis e, feitas as devidas diferenças,  das uniões de fato”. Os tons de cruzada antigos sobre a unicidade do casamento religioso pareceram desaparecer para sempre e “os valores não negociáveis” de ratzingueriana memória foram substituídos por aberturas misericordiosas aos limites dos seres humanos.

A segunda esfera de questões que chamou muito a atenção da opinião pública mundial foi a das famílias “feridas”, ou seja, os casos de separação, divórcio, segundas núpcias ou convivências. É notório que coube ao papa Francisco abrir esse capítulo. Ao voltar do Brasil para Roma, em 2013, ele referiu-se à tradição ortodoxa que admite a possibilidade de um segundo casamento e sublinhou a necessidade de uma reflexão no âmbito da pastoral católica do casamento.  Nos meses seguintes, a polêmica fermentou, sobretudo em torno de uma questão aparentemente menor: a possibilidade de conceder a Eucaristia aos divorciados casados novamente no civil. Por trás desse debate, na realidade, esconde-se a possibilidade de admitir o divórcio na religião católica. Conceder a comunhão aos divorciados equivaleria, em substância, a desconsiderar o sagrado vínculo do matrimônio.

A Relatio não escondeu as divisões existentes no Sínodo, mas abriu decididamente o caminho para uma evolução da tradição, com estas palavras: “Seria necessário que o eventual acesso aos Sacramentos fosse precedido por um caminho de penitência, sob a responsabilidade do bispo diocesano, e com claro compromisso a favor dos filhos”. De todo modo, a inovação de linguagem e conteúdo mais significativa deu-se na parte em que a Relatio aborda a questão do homossexualismo. O cardeal Péter Erdö, arcebispo de Budapeste e relator-geral do Sínodo, sintetizou a orientação surgida no debate, afirmando: “As pessoas homossexuais têm qualidades a oferecer à comunidade cristã. Estamos prontos para acolher essas pessoas, oferecendo garantias de um espaço fraterno em nossas comunidades?”

Tantas aberturas – ou, de outro ponto de vista, a interpretação forçada da discussão sinodal por parte dos redatores do documento – não podiam ser acolhidas pelos setores conservadores de modo mais intransigente. No dia seguinte, o cardeal sul-africano Wilfrid Napier, em entrevista coletiva, denunciou a prevaricação operada com a desequilibrada redação da Relatio e apontou o dedo, em particular, para os “escandalosos” parágrafos sobre homossexualidade. A Igreja, ele afirmou, foi colocada em um beco sem saída: “O recado partiu: isto afirma o Sínodo, esta é a posição da Igreja. Nesta altura, qualquer correção será ineficaz. Temos só que limitar os danos”.

No mesmo dia, surgiu a notícia, não desmentida pelas fontes oficiais, de que um grupo de conservadores teria tentado envolver o papa emérito Ratzinger, na reação contra Francisco. Tentativa de subversão, e ainda é pouco, que abortou desde o nascimento pela recusa do antecessor de Francisco, sintomática, porém, da brutalidade do enfrentamento.

Em seguida, a Relatio foi literalmente massacrada na maioria dos subgrupos do Sínodo, com relações muito ásperas e a apresentação de 470 emendas ao texto. Em vão, o secretário Baldisseri tentou evitar a publicação desses comentários. O protesto explodiu na quinta-feira 16, e o papa, com expressão sombria, viu-se obrigado a integrar o grupo encarregado de redigir o relatório final justamente com dois tradicionalistas como o arcebispo australiano Denis Hart e o explosivo cardeal sul-africano Wilfrid Napier, o qual, entretanto, acertou na análise do Sínodo: mesmo sem conclusões definidas, os resultados que Francisco e seus aliados prefiguravam foram, em boa medida, alcançados.

Como previsto, depois desses acontecimentos, o relatório final votado no sábado 18 resultou bem mais aguado que o anterior, mas sem decepcionar demais os renovadores. Como comentou um cardeal anônimo, “foram dados dois passos para a frente e um para trás”. Dos 62 parágrafos  do documento, 59 foram aprovados quase por unanimidade, e os 3 mais controversos, sobre as questões acima, não obtiveram a maioria de dois terços, mas registraram um bloco consistente de dissidentes, seja nas fileiras dos conservadores, seja – em menor escala – entre os renovadores insatisfeitos com os compromissos alcançados.

O papa decretou a publicação de todo esse material e implicitamente afirmou, de modo definitivo, que também na Igreja Católica se abre a fase da perestroika. Aos olhos mundanos, o Sínodo apareceu como uma assembleia popular qualquer, um Parlamento com maiorias e minorias que se enfrentam sem medo de golpes baixos. Em seu discurso, na conclusão dos trabalhos, Francisco foi bem severo com certas  posturas de fechamento e rigidez e lembrou sobretudo a tarefa de “serviço, que é própria da Igreja”.  Para quem tivesse esquecido, lembrou também que o direito canônico lhe confere poderes absolutos sobre a doutrina e a atividade pastoral.

Será um ano de aceso debate na Igreja Católica depois desse Sínodo, mas nada será como antes. A dinâmica reformadora foi introduzida no circuito midiático mundial e isso vale bem mais do que as porcentagens nas votações sinodais. Mesmo assim, as resistências serão muito ásperas e o resultado, incerto. No fim desse percurso, provavelmente já em 2015, Francisco tomará posição urbi et orbi sobre as questões da “família”. Na Praça São Pedro, no domingo 19 de outubro, para reafirmar sua atitude, ele lembrou que “Deus não tem medo das novidades”.