Número 822,

Economia

Economia

Como cooptar o setor privado

por Delfim Netto publicado 21/10/2014 05h31
É preciso reanimar o "espírito animal" do empresariado e sua confiança

A discussão sobre o processo sucessório foi o reencontro de tucanos e petistas com a desagradável verdade negada ao longo dos 20 anos em que ambos fizeram oposição. Distorceram, no calor natural da disputa política, a posição do adversário comum com os mesmos exageros e mistificações que agora lançam entre si. Sintetizaram a ideia do governo que combatiam num bordão eficaz “primeiro é preciso produzir para depois distribuir”. Antes de mais nada era (como é) uma tolice só possível num país do “socialismo real”, onde em lugar de “manteiga pode-se produzir canhões”, porque se separa o consumo do investimento.

Tratava-se de uma mentira (igual a muitas que ainda hoje ambos continuam a pregar no eleitor desprevenido). A proposição (válida ontem, hoje ou amanhã) é a verdade física elementar de que “não se pode distribuir o que ainda não foi produzido a não ser ganhando ou tomando emprestado do mundo”. Isso foi aprendido no governo FHC e agora é sentido na sua plenitude no governo Dilma, com a inversão do “vento de cauda” de 2003-2010, que se transformou em “vento de frente” a partir de 2011.

É preciso reconhecer que: 1º. Existe uma cointegração entre a taxa de crescimento do PIB do Brasil com o PIB mundial e que uma variação da economia mundial de 1% estimula, em condições normais de pressão e temperatura, uma variação, no mesmo sentido, parecida com 0,3% na economia brasileira. Não estamos, entretanto, em condições normais. A previsão para 2015 não é nada brilhante. O FMI estima um aumento do PIB mundial da ordem de 3,8%, de 5% no volume de exportação e que cresceremos 1,4%, em 2015, com um déficit em contas correntes de 3,6% do PIB.

2º. Em razão da revolução demográfica, não contaremos com um aumento maior que 1% a 1,2% da força de trabalho nos próximos anos. A tabela esclarece o aumento do emprego de 2000-2013. Absorvemos o nosso “exército de reserva”, o que foi muito bom e fator importante para a inclusão social e para a melhora da distribuição de renda. O problema é o fato de ter sido incorporada, principalmente, mão de obra pouco qualificada e, por isso, com baixa produtividade, mas houve uma redução do emprego da mão de obra mais qualificada, que ganha mais de dois salários mínimos. Talvez essa seja uma explicação “natural” para o paradoxo (redução da taxa de crescimento do PIB sem aumento da taxa de desemprego), mas sugere que acelerar o crescimento do PIB não será, certamente, um problema trivial.

3º. Diante desses fatos, a única forma possível é aumentar a produtividade da mão de obra empregada: a) intensificando a sua qualificação e b) fornecendo-lhe capital mais sofisticado. Isso implica cooptar o setor privado para dar ênfase à educação técnica no próprio ambiente de trabalho, devolver-lhe o “espírito animal” com a expectativa gerada pela ampliação das concessões de infraestrutura e criar as condições para o funcionamento eficiente dos mercados.

Não se trata de “obedecê-los” ou “desregulá-los”, apenas “entender” como funcionam. Para crescer a uma taxa de 4% ao ano, precisamos investir em torno de 23% do PIB, utilizando qualquer coisa como 21,5% de poupança interna e 1,5% no PIB de poupança externa. A taxa de poupança interna bruta no segundo trimestre de 2014 foi de apenas 14,1% do PIB. Isso mostra o “Himalaia” que temos à frente e que não foi criado no governo Dilma.

A sociedade brasileira merece de cada candidato uma clara explicação de como pretende restabelecer o dinamismo da economia brasileira sem sacrificar os avanços sociais.

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