Número 796,

Cultura

Cinema

O dom superlativo de Wong Kar-Wai

por Orlando Margarido — publicado 18/04/2014 07h51
O Grande Mestre, novo filme do cineasta chinês de Taiwan, é um drama evocado pelas artes marciais

O Grande Mestre
Wong Kar-Wai

A estética é o primeiro dos recursos a dominar o espectador nos filmes de Wong Kar-Wai. Seus planos elaborados, para muitos de forma excessiva, o figurino, os cenários, a beleza dos atores, a mise-en-scène, tudo é idealizado para fazer cintilar os olhos. Síntese desse processo inicial são Felizes Juntos e Amor à Flor da Pele. Em seguida vem o amor, um romantismo fora de tempo, e por isso mesmo envolvente, a sensualidade estudada, e com tais sentimentos a impossibilidade trágica de concretizá-los. Felicidade e dor convivem para o chinês de Taiwan, que faz carreira em Hong Kong, e esses matizes nunca estiveram tão aflorados e impactantes como em O Grande Mestre, seu novo filme em cartaz.

O movimento, talvez inesperado a quem não tenha visto Cinzas do Tempo, é que Kar-Wai toma de um dos gêneros épicos mais caros ao cinema do Oriente para voltar aos seus temas. Um drama evocado pelas artes marciais pode sugerir um aborrecido déjà vu, mas o diretor guarnece-se para cumprir seu intento senão inovador, em muito apreciável. A começar pela escolha do protagonista, um lendário Ip Man, ou Yip Kai-man, mestre das lutas que teria sido o mentor de Bruce Lee. Sua figura, interpretada por Tony Leung, é retomada no contrapé dos inimigos, do painel histórico da China dos anos 30, nas desilusões de batalhas, também amorosas, nas quais se embaterá com as habilidades superlativas de força e beleza de uma jovem vingativa (Zhang Ziyi). Luta para a vida inteira, que Kar-Wai, imbuído de senhor do próprio tempo, ralenta quando deseja, como na inesquecível cena de abertura, levada na chuva, e do confronto na estação de trem.

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