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Categoria Quadrinho é incluída no Prêmio Jabuti

por Caroline Oliveira publicado 22/05/2017 12h55, última modificação 22/05/2017 14h28
Depois de quase 60 anos de criação do prêmio, organizadores decidiram incluir o gênero como categoria exclusiva

O 59º Prêmio Jabuti, cujas inscrições começaram na quinta-feira, 18, incluirão as histórias em quadrinho em uma categoria exclusiva, após quase 60 anos desde a criação do prêmio. Antes da mudança, os quadrinistas Wagner Willian, Ramon Vitral e Érico Assis criaram um abaixo-assinado na plataforma Change.org pedindo a inclusão das HQs na premiação, que foi enviado à Câmara Brasileira do Livro (CBL). A solicitação recebeu mais de 2 mil assinaturas e contou com o apoio de quadrinistas como Laerte Coutinho, Marcelo D’Salete e Rafael Coutinho.

Até o ano passado, o gênero entrava em outras categorias, como didático, paradidático, adaptação ou ilustração, mas só agora se torna exclusivo. Os critérios utilizados serão histórias originais ou adaptadas, ilustradas através de desenhos sequenciais, cor, mensagem e imagem.

As histórias em quadrinho existem há mais de 100 anos, quando o ilustrador Angelo Agostini desenhava sátiras políticas para a revista O Tico-Tico. Mas há tempos que os quadrinhos expandiram sua presença nos livros e nos meios digitais. No Brasil, os trabalhos de quadrinistas são equiparáveis a grandes vanguardistas publicados mundialmente. Na cena atual brasileira, Ramon Vitral entende que é impossível o júri englobar o universo das HQs, marcado pela diversidade e versatilidade dos autores.

Fora do Brasil, existem vários prêmios que reconhecem as HQs como categoria exclusiva, como o Prêmio Pulitzer, uma das maiores premiações do mundo e que agraciou na década de 90 a HQ Maus, de Art Spiegelman. A inclusão reforça o valor da HQ como “importante elemento de identidade cultural e manifestação artística”, entende a quadrinista Beliza Buzollo, que retrata o mundo lésbico em seus quadrinhos.

Trecho de 'Cachalote', de Rafael Coutinho
O cartunista Rafael Coutinho, filho da Laerte Coutinho, também cartunista, entende que a inclusão é resultado de uma demanda histórica. Vem com um acúmulo de produção condizente com nível de reconhecimento do Prêmio Jabuti dado pela comunidade literária. Ainda assim, para Coutinho, as HQs independem da premiação. “O quadrinho não deve nada à literatura. Com ou sem prêmio tem uma força intrínseca que só cresce”.  Ele espera que o reconhecimento da Câmara Brasileira do Livro possa gerar leis de incentivo para a categoria, uma vez que “passa um ótimo sinal para gestores que têm em suas mãos esse tipo de acontecimento”.


“A inclusão no Prêmio Jabuti é apenas um reconhecimento dessa força”, afirma Otávio da Costa, que lida com quadrinhos há mais de 50 anos. A quadrinista e jornalista Heloísa D'Angelo, entende que o mercado pode melhorar com o Prêmio Jabuti, mas também não é algo que definirá o futuro das HQs.  O mercado editorial acompanha esta força das HQs. É um espaço que está em ebulição no Brasil, principalmente por conta das publicações de trabalhos independentes em diversas plataformas. Uma delas é o Social Comics, o Netflix das HQs, que remunera os artistas de acordo com a quantidade de páginas lidas das obras.

 

Quatro Marias - Helô D'Ângelo
Trecho de 'Quatro Marias', de Helô D'Ângelo

 

Mulheres
O Festival de Angoulême, o prêmio europeu mais importante dos quadrinhos, até há dois anos não tinha nenhuma mulher quadrinista em suas premiações. A justificativa de um dos organizadores foi a de que não existem mulheres realizando esse trabalho. No ano seguinte, o Prêmio Eisner, o Oscar das HQs, bateu o recorde de mulheres vencedoras. “Dizer que não existe mulher quadrinista é uma mentira”, afirmou Heloísa D’Ângelo mostrando como o meio das HQs ainda é muito machista e excludente. “Eu espero que o Prêmio Jabuti olhe para a enorme produção feminina. Nós existimos, mas o mercado não tem espaço pra gente”, termina.

Há uma quantidade grande de mulheres que vêm conquistando esse espaço com narrativas de alta qualidade, como Thaiz Leão Gouveia, Sirlanney Nogueira, Gabriela Masson, Bianca Pinheiro e Laura Athayde. “Não há mais como ignorar a presença das mulheres na produção de quadrinhos”, diz Beliza Buzollo esperando que o prêmio a força das mulheres nas histórias em quadrinho.

As histórias em quadrinho misturam cinema e literatura. “Porque consideramos os quadrinhos um meio bobo, quando não vemos dessa maneira nem o cinema e nem a literatura?”, questiona Heloísa. A máxima “uma imagem vale mais do que mil palavras” é o terreno fértil da HQ, que pode ser poesia, jornalismo, metalinguagem e outras possibilidades.