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Até a última vela

por Ana Ferraz — publicado 15/06/2012 12h31, última modificação 15/06/2012 12h31
Relegado a segundo plano pelas escolas, o samba tradicional resiste e se revigora na periferia paulistana
samba

Batucada de bambas. Na Casa de Cultura de Santo Amaro, a cantoria só termina quando a vela apaga. Foto: Isadora Pamplona

A noite gelada e garoenta não é convidativa. Às 9 horas em ponto, Paquera (derivação de pacuera, apelido de infância) inicia o ritual que há 12 anos cumpre todas as segundas-feiras. Aproxima-se da mesa e acende uma vela. É o sinal. Em minutos, o som que brota de cavaquinho, surdo, pandeiro e violão aquece a sala de pé-direito altíssimo e paredes brancas. Folheto com a letra em mãos, sambistas e espectadores entoam o hino, parceria entre Paquera e Edvaldo Galdino, a enaltecer o motivo que os une. É a convocação do Samba da Vela, cujo empenho em manter viva a tradição há muito ultrapassou as fronteiras de Santo Amaro, em São Paulo.
À medida que o público aumenta, mais cadeiras são colocadas em torno da mesa, num grande círculo em que todos podem ver todos. Entusiasmado, Chapinha, um dos fundadores da Comunidade Samba da Vela, se levanta e move os braços a reger o coro. Casais, jovens, velhos, diante do samba todos se igualam e são bem-vindos. Inclusive Alemão, alegria natural potencializada pelo álcool consumido antes de entrar no templo do samba, pois lá dentro é proibido. Desajeitado, desenha no chão uma coreografia de passos erráticos, bate palmas descompassadas, batuca no ar um instrumento imaginário e cumprimenta a todos de forma efusiva.
“O samba está mais vivo do que nunca em São Paulo. Temos cerca de 50 comunidades dedicadas a ele. Sou padrinho do Samba da Laje, Pagode da 27 e Samba do Cafofo, todos na periferia”, orgulha-se o compositor cearense Chapinha, apelido herdado do hábito de se dirigir a todo mundo com um “oi, meu chapa”. “Os movimentos são diferentes, o que é bom. Incentivamos composições na linha tradicional para que o samba não vire folclore. Esta é a verdadeira continuidade do gênero.” Pelas contas de Chapinha e Paquera, o Samba da Vela já revelou cerca de 150 compositores.
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