Resenha

O espectro da total dominação

por Mario Sergio de Melo* — publicado 13/02/2017 00h50, última modificação 16/02/2017 17h32
O mais recente livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira é fundamental para quem pretende entender os atuais interesses geopolíticos
Valter Campanato/Agência Brasil
Moniz Bandeira

Moniz Bandeira: analista acurado


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"O espectro da total dominação" é o subtítulo do livro "A desordem mundial" (Editora Civilização Brasileira, 2016), de autoria do cientista político brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira, que em 2015 foi indicado pela União Brasileira de Escritores para o Prêmio Nobel de Literatura.

O livro não pode deixar de ser lido por aqueles que tenham a intenção de procurar situar-se dentre os interesses que movem este nosso conflituoso momento atual no planeta, a “desordem mundial” mencionada pelo autor.

Na verdade, ao fim do livro, embasado em vasta documentação que inclui arquivos oficiais, depoimentos, notícias, livros, artigos científicos, mensagens eletrônicas e outros, tem-se a convicção de que a teoria da conspiração não é só uma teoria, e que a desordem não é algo fora de controle.

Tudo o que vemos de conflituoso no mundo convergiria para um propósito único muito bem planejado e estruturado: nas palavras do autor, “o espectro da total dominação”. O livro relata os interesses por trás das guerras que têm se sucedido desde a queda do Muro de Berlim em 1989 (Afeganistão, ex-Iugoslávia, Iraque, Líbia e a “primavera árabe”, Ucrânia, Síria, Israel e Palestina...) e o suposto fim da guerra fria, com a dissolução da União Soviética.

Não só os interesses, mas as estratégias utilizadas por esses interesses, que parecem bastante complexas, mas são muito bem articuladas por atores obstinados no seu propósito: a hegemonia do poder mundial. A qual poder estar a se referir? O militar? O econômico? O do controle dos recursos energéticos e das matérias-primas estratégicas? O da ferrenha defesa do dólar como moeda de troca mundial? O do controle dos meios de comunicação? O poder do consenso ideológico construído por todos esses outros poderes? No entender do cientista político, o agente principal que procura consolidar e estender seu poder até os rincões mais remotos e tradicionais do mundo é personificado pelas corporações que, de Wall Street, controlam o selvagem sistema capitalista que está a assolar as terras e os povos do planeta.

E este agente, embora enraizado na maior cidade da mais poderosa potência do mundo atual, tem suas ramificações disseminadas em todos os centros de poder menores espalhados pela Terra. Não há lugar em que indivíduos e instituições não estejam a serviço dos interesses alienígenas do grande propósito da total dominação. E tais serviçais são treinados e apoiados para parecer que sua submissão a anseios egoístas, tais como posse e poder pessoal, sejam confundidos pelo povo ignaro com liderança alternativa a regimes locais contaminados pela corrupção e totalitarismos.

Os serviçais espoliadores são tidos como libertadores. O livro mostra que tem sido assim ao longo da história recente: estruturas corruptas e ditaduras primeiro são cultivadas no seio de países que sejam alvo de interesses, depois, quando ameaçam fugir do controle de seus criadores, têm de ser drasticamente eliminadas, às vezes ao custo da total destruição de um mínimo de autoridade e infraestrutura local, e da identidade, cultura e história de povos milenares.

Vive-se uma época de barbárie, cometem-se crimes em nome do combate ao terrorismo muito piores, e numa proporção enormemente maior, que os crimes daqueles que podem ser considerados de fato extremados terroristas. O livro, publicado em julho de 2016, não chega a analisar os sinais contundentes da guinada mundial para posicionamentos conservadores mais radicais, como o Brexit na Comunidade Europeia, a eleição de um presidente neoliberal na Argentina, o impedimento da presidenta democraticamente eleita no Brasil, a eleição de Trump nos EUA...

Também não analisa como esta guinada afeta a América Latina como um todo, na qual a Venezuela é, ainda mais que o Brasil, o exemplo mais contundente do que pode acontecer a um país detentor de recursos energéticos estratégicos cujo governo eleito não se curva aos interesses dos agentes da desordem mundial vigente.

Pudera o livro de Moniz Bandeira ser lido e compreendido por todos aqueles no mundo para quem liberdade e identidade (igual a soberania), justiça social e responsabilidade sejam valores acima das nefastas ambições pessoais de posse e poder.

Desta compreensão depende a possibilidade dos povos não serem rebanhos tangidos por consensos construídos por poderosos meios de comunicação a serviço da total dominação. Povos arrebanhados só fazem sustentar os golpes e os oportunistas de plantão que submetem e destroem nações. E vida longa a Moniz Bandeira. Que sua inquestionável capacidade de acessar e integrar fontes documentais ainda nos brinde com um volume destinado à América Latina e ao Brasil.

 * Professor do Departamento de Geociências da UEPG e “sócio” desde novembro de 2015