Educação

Militância universitária e resistência

por Isabelle Meunier — publicado 10/06/2017 07h00, última modificação 09/06/2017 11h40
Comunidade universitária deve buscar sempre uma compreensão mais clara do seu papel na sociedade
Tânia Rego/Agência Brasil


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As incessantes mudanças nos cenários políticos e socioeconômicos exigem constantes reflexões no meio universitário, de forma a questionar velhas certezas e guiar novas atitudes. Cabe à comunidade universitária buscar sempre uma compreensão mais clara do seu papel na sociedade e, atualmente, mais ainda, frente às inúmeras ameaças a direitos conquistados.

Alguns desses direitos são conquistas sociais históricas e têm a ver com valores básicos de justiça social e democracia, valores que devem nortear a vida em sociedade. Outros estão intimamente relacionados à missão da Universidade e dizem respeito aos compromissos de natureza ética que a instituição assume com a educação integral, emancipatória, inclusiva e transformadora. A ideia de Universidade Pública, gratuita, de qualidade, laica e socialmente referenciada é mais do que uma divisa bem formulada pelo movimento docente: é uma linha interseção entre vários pontos de vistas e matizes ideológicos que convivem no ambiente acadêmico, pluralista como deve ser.

Esses valores devem ser defendidos, seja por nos considerarmos uma vanguarda pensante ou por percebermos nossa responsabilidade na resistência democrática. A defesa dos valores democráticos, dentro e fora da universidade, é algo que transcende paixões ou crenças, porque sem esses valores perdemos grande parte das nossas razões de existir. Séculos de luta pela educação como um valor universal e pelo desenvolvimento de homens e mulheres, como protagonistas da história, perdem sentido se aceitamos o trabalho docente como instrumento de educar para o medo, para a submissão, para o trabalho alienado e acrítico.

Educar, apenas, não tem significado se o ato não for qualificado em um contexto de valores bem definidos. Os desafios de sempre se apresentam, hoje, à universidade brasileira, amplificados por problemas econômicos, crise de representatividade política (e de legitimidade) e reincidentes afrontas à democracia e aos avanços sociais.

Diante disso, aumentam as responsabilidades de criar, produzir conhecimento, analisar a realidade e construir estratégias para mudá-la. Em situações de tensão, somos obrigados a refletir sobre nossas práticas como docentes, estudantes, técnicos e cidadãos, porque elas exigem de nós novas atitudes de enfrentamento. A importância dos múltiplos papéis da Universidade se avoluma e exige uma militância universitária que se dá em sala de aula, crítica e participativa, na pesquisa original, criativa e socialmente relevante, e na extensão que integra e democratiza o conhecimento. Mas também reverbera nas vivências diárias de estudantes, professores e técnicos, nas lutas pelo aperfeiçoamento de processos participativos de tomada de decisões na própria universidade, na mobilização pela garantia de direitos dos trabalhadores e na construção de novos espaços de interação e lutas, que se multiplicam em coletivos e fóruns.

As reações que surgem hoje são expressões da resistência, resultado do pensamento crítico que deve encontrar abrigo no local onde se propõe construir conhecimento. Ainda são muito poucas e frágeis, se confrontadas às perdas e ameaças. Mas existem e se ampliam frente aos desafios.