Ódio de classe

Médicos e monstros

por Douglas Martins de Souza* — publicado 11/02/2017 00h01, última modificação 10/02/2017 14h47
As manifestações de intolerância durante a internação e o velório de Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, revelam nossa degeneração social
Reprodução
Gabriela Munhoz e Richam Faissal Elliakis

Elliakis e Gabriela Munhoz: um investigado, a outra punida


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A médica Gabriela Munhoz foi demitida do hospital Sírio Libanês e o médico Richam Faissal Ellakkis responderá a uma sindicância instaurada no Conselho Regional de Medicina. O casal de médicos que protagonizou a publicação criminosa da tomografia de Marisa Letícia Lula da Silva às vésperas da morte simboliza a degeneração social em curso, efeito colateral da manipulação utilizada como expediente midiático de mobilização em favor do golpe neoliberal de Estado.

Não se deve esquecer que o crime de violação de sigilo contou também com a participação do jornalista Cláudio Tognolli, professor da Escola de Comunicação e Artes na Universidade de São Paulo, defensor de furto de prontuários médicos em nome da informação, desde que o paciente seja adversário.

Não se deve esquecer ainda que Sergio Moro também violou a lei de interceptação de dados ao franquear à mídia documentos processuais sob sua guarda que deveriam ser inutilizados.

Juntemos as peças. Gabriela Munhoz, Richam Faissal, Cláudio Tognolli e Sergio Moro são todos infratores. Mas a tendência é serem celebrados por serem infratores funcionais. A ordem social imposta precisa desse tipo agindo impunimente. São necessários na mídia, nos hospitais e nos fóruns para naturalizar o extermínio da solidariedade, aliás, estigmatizada como coisa de fracos.

A energia social a ser valorizada não é a da compaixão, mas da violência covarde contra os excluídos que, pela régua neoliberal, encontram-se nessa condição porque querem. A simbiose médico-monstro está em cada um de nós. Estaremos dispostos a cuidar ou matar nossos semelhantes conforme nos posicionemos no ambiente social que adoece vertiginosamente.

 No contexto que estimula monstruosidades sociais, fazer prevalecer nosso lado “médico” entre as enfermidades de caráter mais repugnantes depende, sobretudo, de coragem e determinação. O fascismo, sabemos, progride por contágio e a septicemia surge quando nos tornamos suscetíveis ao apelo de que, para funcionar, a sociedade não precisa de mais médicos e sim de mais monstros.

 

* “Sócio” desde setembro de 2011