Pós-Temer

Diretas Já: Há alternativa?

por Rildo Borges Duarte* — publicado 28/05/2017 07h00, última modificação 30/05/2017 12h25
Só a devolução do direito de escolha aos eleitores pode impedir a perpetuação da “democracia sem povo”
Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Nos anos 80 do século passado, a "dama de ferro" Margareth Thatcher criou o slogan "There is no alternative" (Não há alternativa) - TINA, no acrônimo do inglês - para convencer os ingleses de que que não havia outra saída a não ser seguir a lógica do mercado, do neoliberalismo e de seu receituário.

O Consenso de Washington na década seguinte aplicou ao mundo este slogan, absorvido prontamente no Brasil pelos governos que se seguiram ao longo dos anos 90. De certa maneira, até o que parecia uma alternativa a este consenso, com um partido de bases populares a ocupar o poder pela primeira vez na história do País, nas primeiras décadas do século XXI, se mostrou uma ilusão, perdida em meio à Carta aos Brasileiros e à conciliação entre a distribuição de renda e a lógica do mercado e do rentismo.

O acúmulo dessas contradições, que impossibilitaram qualquer perspectiva de reformas de base para a solução dos problemas estruturais do País, e o desejo das elites tradicionais e seu herdeiros em tomar de volta o posto de única alternativa possível de projeto de nacional (arcaico em suas relações sociais e colonizado economicamente) desencadearam o caos econômico, político e institucional dos últimos três anos.

Chegamos ao cúmulo de vislumbrar, em menos de um ano, a deposição de dois presidentes. Uma, eleita em votação popular, deposta em um golpe jurídico-parlamentar. O outro, alçado ao poder em meio às conspirações e jogos de poder dos golpistas (das quais participou ativamente), está quase desposto, "demitido" por aqueles que não veem nele condições para manter as promessas de realizar os planos inscritos no famigerado "Ponte para o Futuro".

E o que se aponta agora? De um lado, a mídia, os golpistas, o empresariado, os economistas ligados ao setor financeiro e demais idealizadores do "pacote de maldades", resgatam o slogan de Thatcher e afirmam não haver alternativa. Deve-se seguir os ritos constitucionais e, em caso de renúncia ou impeachment, proceder com eleições indiretas. Isso, segundo eles, "evitaria dúvidas sobre riscos ao investidores e promoveria rapidamente a retomada da recuperação econômica".

A TINA do atual contexto é, citando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma "transição controlada", tendo como presidente interino escolhido pelo Congresso figuras "palatáveis" ao mercado como Henrique Meirelles ou Nelson Jobim, talvez Tasso Jereissati. Do outro lado, os movimentos sociais, intelectuais, sindicatos, movimentos estudantis, entre outros, que desde o início se colocaram contra o golpe, apresentam uma saída a alegada "falta de alternativas". Talvez, essa sim, a única capaz de devolver a estabilidade democrática ao País. Gritam Diretas Já. Indicam que só a partir da devolução para o povo do direito de escolha poderemos realmente vislumbrar um governo que tenha um mínimo de estabilidade e representatividade para tentar colocar o Brasil de volta nos eixos.

Estamos em mais um ponto de inflexão da nossa história. Construir alternativas populares é fundamental para não termos, mais uma vez, repetida a sina denunciada há algum tempo por Raymundo Faoro. Qual seja: permanecermos reféns da única alternativa imposta pelos donos do poder, de sermos e permanecermos uma "democracia sem povo". 

* “Sócio” desde 2011

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