Democracia

Brasil "sem partido"

por João Victor Bomfim Chaves* — publicado 12/03/2017 00h01, última modificação 09/03/2017 18h49
O recrudescimento do autoritarismo é fruto, em grande medida, da rejeição aos políticos
Antônio Cruz/Agência Brasil
Protestos pró-impeachment

Fomento ao ódio à política


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Em meio à conturbada nomeação de Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal, o retrocesso institucional experimentado em terras tupiniquins caminha a passos largos. Ainda que se possa ter ressalvas a determinados aspectos da atuação de Teori Zavascki na Corte Suprema, é quase unânime a percepção de que o substituto não está à altura do substituído.

Até 2026, Moraes terá voz em alguns dos temas atuais e vindouros mais relevantes para a sociedade brasileira. O anacronismo expresso por meio de seus atos como ministro e secretário reforçam o fundado temor da sociedade pelo futuro.

O personagem se tornou mais conhecido da população em geral em virtude de sua passagem pelo Ministério da Justiça e, posteriormente, pelas acusações que recaíram sobre sua conduta após a indicação à Suprema Corte.

A forte reação da opinião pública à sua nomeação é apenas um dos muitos elementos que reforçam a rejeição à classe política. Nesse sentido, movimentos políticos autointitulados “apartidários” capitalizam politicamente e engrossam o coro dessa rejeição.

Alguns nomes foram lançados candidatos nas eleições de 2016 por partidos de direita, ainda que autodenominados “apartidários”. É curioso que o discurso político encampado por esses movimentos, ainda que não corresponda a suas práticas, tenha encontrado eco em determinados setores da sociedade, mais uma vez ludibriados pelo discurso simplório e sedutor.

Ainda que de teor claramente inconstitucional, propostas como o “escola sem partido” ganharam o apoio de incautos e figuras mal intencionadas. O projeto remete a atos de perseguição política a docentes promovidos pela ditadura, e que contribuiu para o sucateamento do ensino público como legado que perdura até os dias atuais.

Mundo afora, ditaduras de todos os matizes ideológicos extinguiram partidos políticos que, apesar de todos os problemas, eram o alicerce do Estado democrático de Direito. No Brasil, a ditadura consentiu com a existência do MDB para tentar assegurar algum verniz de legitimidade ao regime.

Portanto, na intenção de demonstrar que o autoritarismo não era tão significativo, os militares consentiram com a existência de... um partido político. O simbolismo estimula a compreensão dos perigos do autoritarismo e do Brasil “sem partido” defendido por fascistas e desinformados.

Não existe, em democracia nenhuma, candidato perfeito. Os partidos políticos são relevantes também para compreendermos quais forças estão ao lado do candidato de nossa preferência e contra quais ele disputa. Bandeiras partidárias, compromissos de campanha e os apoios de grupos organizados fazem parte de campanhas políticas e das democracias mundo afora. O receio e a descrença são componentes que nos empurram para o “Brasil sem partido” sonhado e defendido pelo MBL.

 * “Sócio” desde 2015

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