Blog do GR-RI

por José Antonio publicado 10/09/2014 09h33, última modificação 10/05/2017 14h10
Blog do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI), que reúne representantes de movimentos sociais e sindicais, partidos, fundações, pesquisadores e ONGs

A política externa que queremos

Mais do que lamentar os retrocessos da atual política externa - omissa e submissa - é momento de lutarmos pela política externa que queremos
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI) — publicado 11/05/2017 00h15, última modificação 10/05/2017 14h34
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Com retrocessos, momento é de uma síntese geracional para uma nova política externa: independente, altiva, ativa, latino-americana e do Sul.

Por Fernando Santomauro*

Em uma recente palestra a um grupo de pesquisadores da Universidade de Columbia em São Paulo, o ex-ministro Celso Amorim, símbolo da chamada Política Externa Ativa e Altiva, mencionou como a breve experiência da política externa Independente de San Tiago Dantas foi marcante para inspirar a sua geração a pensar, formular e praticar suas iniciativas posteriores.

Além disso, para Amorim, algumas das ações conduzidas durante o governo Itamar Franco, como a criação da ALCSA (Área de Livre Comércio da América do Sul), depois também ganharam profundidade e outra dimensão em sua segunda oportunidade como chanceler, durante o governo Lula.

Tendo em conta essas observações, podemos perceber que a política externa de um país, como a vida, não é feita de um caminho linear, mas carrega influências anteriores e acúmulos de experiências que podem se concretizar em um futuro, desde que os símbolos e iniciativas marcantes não sejam apagados.

Nesse sentido, momentos como o de agora não podem ser reduzidos ao lamento pelo que acabou ou somente pelas críticas ao retrocesso. Assim como a luta dos que resistem não deve ser resumida a seminários, reuniões, listas e manifestos que circulam entre os mesmos públicos.

A riqueza dessa hora de entressafra deve se dar pela deglutição das razões que levaram à derrocada do sistema anterior e da valorização do que deveria continuar. Deve ser o momento de uma síntese geracional para uma nova política externa: independente, altiva, ativa, latino-Americana e do Sul.   

Mesmo sem o domínio político, essa geração Ativa e Altiva de internacionalistas, participantes e herdeiros da política externa de Amorim, deve se posicionar principalmente redefinindo e propondo uma alternativa ao mundo de Trump, Temer e Le Pen, com princípios claros, com contrapartes identificadas (nas sociedades civis e políticas de outros países), para ações práticas que possam ser rapidamente aplicadas.

Para a construção desta plataforma não é desejável, nem preciso, apoio oficial de nenhum governo, e muito menos de instituições do norte. Essa agenda deve ser construída a partir de relações já desenvolvidas e desejadas, e ligadas a problemas latino-americanos e dos povos oprimidos do Sul e não mais a escolas, pensamentos e referências de países tidos como desenvolvidos.

Deve falar da importância da biotecnologia e da defesa de povos originários, mais do que infraestrutura ou segurança. Deve priorizar a economia solidária, as pequenas, médias empresas e governos locais mais do que os grandes acordos comerciais ou estímulos multimilionários aos “campeões nacionais”.

Deve ter uma agenda para as mulheres, para a segurança social, para a saúde, para temas transnacionais Transgêneros - como a exploração sexual e o tráfico internacional de pessoas. Deve se preocupar mais com o estudo sério da biodiversidade do que com a reprodução de modos falidos de desenvolvimento.

É importante mencionar que as ações mais inovadoras da Política Externa Ativa e Altiva foram afins à uma visão e às propostas de uma análise feminista das relações internacionais: a preocupação com a segurança alimentar e com o fim da miséria; a cooperação técnica horizontal Sul-Sul como instrumento de articulação; e a priorização política tomada a partir de nossas raízes socioculturais africanas e latino-americanas. Foi Independente, não-violenta e mais humana. Essas foram a riqueza e a herança que devemos carregar.

Para organizar essa agenda, a nova geração de Ativas e Altivas deve se reunir autonomamente. Iniciativas já ventiladas, como a criação de um Conselho da Política Externa Brasileira (CONPEB), que reúna representantes da sociedade civil e acadêmicos brasileiros da área de relações internacionais, deve se mobilizar para ter autonomia financeira e personalidade jurídica, conselho representativo, e que assim possa organizar eventos e publicações, desenhar e propor políticas.

Enquanto o Itamaraty e a oficialidade nunca decide se nos permite o reconhecimento de um CONPEB, comemoremos essa falta de legitimidade cartorial e façamos o Conselho independente. E que sigamos com essa autonomia, seja qual for a linha do governo do momento.

Esse grupo também deve organizar uma estratégia de disputa de ideias, projetos e de espaço político dentro dos partidos (velhos e novos), e que se possível apresente candidatxs que defendam essas ideias já considerando as bem-vindas próximas eleições.

Temos pouco tempo para construirmos representantxs que possam se dedicar a projetos que estão parados há muito tempo no Congresso Nacional e Ministérios: a criação do Banco do Sul; a eleição direta para o Parlasul; a livre circulação de pessoas e uma institucionalização profunda do Mercosul com orçamentos apropriados; além de uma agenda que abra espaço para a participação cidadã na política pública das relações internacionais do Brasil. Temos que romper com o monopólio do Itamaraty nas nossas relações exteriores.

Independentemente da chance eleitoral, essas pautas devem deixar de ser acessórias nas agendas de nossos representantes e partidos políticos. Há interesse, relevância, público e possibilidade de mobilização rápida em cada grande cidade brasileira para temas internacionais com impacto direto na vida das pessoas.

Essa possível plataforma comum da Política Externa Brasileira deveria ser expressa por um grupo de candidatxs que se dediquem exclusivamente a ela, e que inovem também em suas campanhas eleitorais: gratuitas, com pleno diálogo com a sociedade civil internacionalista brasileira e com uma profusão de ideias e debates tanto nos espaços políticos tradicionais quanto nas redes sociais.

Além das grandes lutas trabalhista, da previdência, pelos nossos recursos naturais e energéticos, por serviços públicos de qualidade, pela justiça e pelas eleições diretas, ainda há uma importante plataforma a ser definida e defendida politicamente: a Política Externa Brasileira Independente, Altiva, Ativa, do e para o Sul.

Há uma geração internacionalista Ativa e Altiva desamparada e desorganizada, carente por saídas que sintetizem nossas melhores experiências anteriores e que siga com ações inovadoras. Um outro mundo sempre é possível, desde que haja sensibilidade, consciência, vontade e organização.


*Fernando Santomauro é membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI, doutor em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e autor do livro “A atuação política da Agência de Informação dos Estados Unidos no Brasil (1953-1964)”, Prêmio Capes de Tese 2016, nas áreas de Ciência Política e Relações Internacionais.

Ciência

A Marcha pela Ciência: nasce uma estrela

Nos EUA, emerge um ativismo de resistência que promete não ceder um milímetro contra ações que restrinjam e ou diminuam direitos fundamentais
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI) — publicado 04/05/2017 00h15, última modificação 04/05/2017 10h09
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O lema principal da Marcha foi “Science, not silence” (Ciência, não silêncio), o que diz muito sobre a insatisfação da comunidade científica dos EUA.

Por Gilberto M. A. Rodrigues*

A Marcha pela Ciência foi convocada nos Estados Unidos pouco depois da histórica Marcha das Mulheres, que em janeiro deste ano foi considerada a maior manifestação coletiva da história dos EUA. A ideia agora era semelhante: mobilizar o máximo de pessoas nos país para protestar contra as políticas regressivas do Presidente Donald Trump. Tal qual a Marcha das Mulheres, a da Ciência, em 22 de abril passado – Dia da Terra - , também teve impacto global, tornando-se um acontecimento celebrado pelo mundo.

Por que a ciência, um tema bem menos empolgante do que a luta pela igualdade de gênero, ganhou o território dos protestos maciços? A principal explicação, ou ao menos a mais visível, está no avanço do movimento anti-Trump nos EUA.

Três fatores contribuem para essa força anti-presidente: suas opiniões polêmicas durante a campanha e a polarização gerada a partir de declarações e condutas violadoras de direitos humanos; as condições em que o presidente venceu as eleições – com três milhões de votos a menos do que sua adversária Hillary Clinton e suspeitas de envolvimento de intervenção estrangeira na campanha; e sua gestão presidencial caótica, confusa e catastrófica para diversos setores – incluindo direitos humanos, meio ambiente e pesquisas científicas.

Isso explica o surgimento de um ativismo de resistência que promete não ceder um milímetro contra ações que restrinjam e ou diminuam direitos fundamentais. Um ativismo incentivado pela intelectualidade estadunidense – da qual Noam Chomski é o mais conhecido representante – que resgata profundas raízes da ação cívica e comunitária estadunidense, aliado ao novíssimo cyberativismo impulsionado pelas redes digitais. 

Mas o sucesso das marchas não se explica apenas pela aversão coletiva a Trump. A marcha pela ciência mostrou a força e difusão da ideia de que nossa qualidade de vida e nossa sobrevivência como espécie estão ameaçadas.

Uma ideia que é capaz de mobilizar milhões de pessoas para resistir a políticas negadoras da ciência, seja pela negação de evidências científicas (por exemplo, negar o aquecimento global causado por ações humanas), seja por cortes drásticos no orçamento da ciência feito por governos conservadores e políticas neoliberais que põem em risco toda uma gama de projetos científicos relacionados a meio ambiente, energias limpas, saúde etc.

Em seus 100 dias, Trump tentou cumprir à risca suas promessas de campanha, incluindo as  anticientíficas. Por exemplo, nomeou para a Agência Federal de Proteção Ambiental (EPA) um conhecido negador do aquecimento global, cuja indicação foi aprovada pelo Senado, onde Trump tem maioria e que até agora não se furtou a recusar nenhum nome enviado pela Casa Branca.

Cabe sublinhar que, segundo lideranças científicas estadunidenses, o governo de Barack Obama foi um dos que mais investiu em ciência nas últimas décadas. O investimento em ciência é um legado de Obama que Trump também quer demolir e desqualificar.

Por isso, a ascendência da ciência como tema da marcha, essa ideia de que a ciência é a única salvação para o planeta, pode ser comparada a uma nova estrela que nasce no firmamento. Como se sabe – e como a ciência comprova – as estrelas nascem milhões de anos antes que possamos vê-las a olho nu. Algo semelhante acontece com a Marcha pela Ciência: o tema existe há tempo, mas agora tornou-se visível, a partir de uma pauta cívica (e midiática) anti-Trump e anti-regressão de direitos pelo mundo.

No Brasil, a Marcha pela Ciência focou sobretudo nos absurdos cortes do orçamento da ciência e tecnologia feitos pelo governo de Temer, posição que vem sendo denunciada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pelas universidades e institutos de pesquisa.

Para corroborar essa posição crítica, a Diretora Executiva da CEPAL, Alicia Bárcena, declarou num evento realizado em Santiago, no Chile, que a América Latina tem até 90% menos pesquisadores do que países desenvolvidos. Por si só, esse dado indica claramente a necessidade urgente de se ter mais verba para a ciência no Brasil e na América Latina – e não menos.

A Marcha

Significativamente mobilizador, o lema principal da Marcha foi “Science, not silence” (Ciência, não silêncio) e que diz muito sobre a insatisfação da comunidade científica estadunidense com o atual estado das coisas no governo Trump. Em Washington, DC, a experiência da Marcha começava no site https://satellites.marchforscience.com que registrava a participação prévia de quem quisesse e oferecia diversas sugestões sobre o que levar e o que não levar, como chegar, por onde se deslocar etc. E, além disso, incitava os participantes a levarem cartazes com palavras de ordem, com slogans, e com trajes que evocassem a ciência e o espírito científico.

O trajeto da Marcha em Washington, DC, se desenvolveu pela Constitution Avenue, saindo do Washington Monument (onde está o famoso obelisco) e se dirigindo até a frente do Capitólio. A Marcha é, nesse sentido, uma vitrine da expressão democrática, alimentada pela sociedade civil organizada. “Let’s make America think again” (Vamos fazer a América pensar novamente) foi um dos divertidos e criativos slogans que fazia um trocadilho com o mote de campanha de Trump, “Let’s make America great again” (Vamos fazer a América grande novamente). Outros cartazes que desfilaram na Marcha, incluíam “Mulheres na Ciência”, fazendo uma ponte entre duas Marchas...

A influente Associação Americana para o Avanço da Ciência/AAAS, equivalente à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência/SBPC, apoiou a Marcha, e esteve presente com seus membros. Após a experiência da Marcha, os participantes continuam recebendo e-mails com palavras de ordem e incentivo à mobilização permanente, com títulos como “Continue marchando”; “Nós marchamos. Agora nós agimos”; “Diga aos negadores da mudança climática que você vai defender a ciência”; “A ciência está em todos os lugares. Vamos recordar nossos líderes!”.

Nos 100 primeiros dias de governo de Donald Trump, o Washington Post divulgou os numeros do “mentirometro” criado para medir as falsidades ditas por Trump, desde sua posse. Foram 488 registros!

Por isso, as palavras de ordem não acabam aqui...e as marchas continuam.

 

*Gilberto M. A. Rodrigues é Research Fellow no Center for Latin American and Latino Studies (CLALS) da American University, em Washington; professor de Relações Internacionais da UFABC; e pesquisador do CNPq. Participou da Marcha pela Ciência, em Washington. Integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

Opinião

Avanços e desafios da nova Lei de Migração

A aprovação da lei foi o único avanço que tivemos na pauta dos Direitos Humanos desde que o presidente ilegítimo Michel Temer assumiu o Planalto.
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI) — publicado 27/04/2017 00h50, última modificação 25/04/2017 14h24
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)
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A nova Lei de Migração trata o imigrante como um sujeito de direitos, e não como estrangeiro.

Por Natália Araújo*

Um dos entulhos da ditadura militar brasileira está prestes a ir para a lata do lixo. No dia 18 de abril de 2017 o plenário do Senado aprovou o projeto que revoga o Estatuto do Estrangeiro e instaura a nova Lei de Migração.

A aprovação da lei foi o único avanço que tivemos na pauta dos Direitos Humanos desde que o presidente ilegítimo Michel Temer assumiu o Planalto. A mudança legislativa vem sendo pautada por setores da sociedade civil brasileira e por movimentos de imigrantes há pelo menos sete anos e foi fruto de uma ampla mobilização, que pressionou o poder Legislativo e contou com a importante atuação de organizações como a Conectas Direitos Humanos, CELS, ITTC, Missão Paz, SEFRAS e Cáritas Arquidiocesana de São Paulo.

O próximo passo do texto da nova lei é a sanção presidencial e Michel Temer pode vetar artigos. Ainda assim, a revogação do Estatuto do Estrangeiro já pode ser considerada um avanço em direção à proteção dos Direitos Humanos de imigrantes no Brasil.

Apesar de o texto não ser considerado ideal, a mudança já começa no título da lei. A palavra estrangeiro, em sua origem, significa estranho, que inspira repulsa e hostilidade. Assim era o tratamento dado aos imigrantes pelo Estatuto do Estrangeiro, de 1980, baseado no paradigma da segurança nacional, que considerava uma ameaça pessoas vindas de fora do país.

A nova Lei de Migração, por outro lado, trata o imigrante como um sujeito de direitos, e não como estrangeiro. Além disso, a legislação migratória finalmente adequa-se à Constituição Federal, que determina tratamento igualitário a brasileiros e às pessoas vindas de fora. Nesse sentido, a lei institui o repúdio à xenofobia, ao racismo e a outras formas de discriminação, além de garantir o acesso a políticas públicas.

Outro ponto que deve ser destacado é que a nova lei pauta-se pelo princípio da não criminalização da migração o que, na prática, significa garantir de acesso à assistência jurídica e ao devido processo legal.

Além disso, o imigrante terá direito irrestrito à reunião, desde que para fins pacíficos, e de associação, inclusive sindical. O Estatuto do Estrangeiro veta qualquer tipo de exercício de atividade política e garante o direito de associação somente para fins culturais, religiosos e desportivos.

O direito ao voto, porém, ainda não está garantido aos imigrantes, pois para isso é necessário modificar não apenas a legislação migratória atual, mas a Constituição Federal, que restringe o sufrágio a brasileiros natos e naturalizados e aos portugueses com, no mínimo, três anos de residência ininterrupta no Brasil. O direito ao voto é uma demanda histórica do movimento de imigrantes e existem campanhas permanentes com essa reivindicação, como a Campanha Aqui Vivo, Aqui Voto.

A nova lei institui a promoção da entrada regular e da regularização documental. Essas medidas constituem avanços, uma vez que é necessário oferecer condições concretas para que os imigrantes obtenham documentos, e não apenas exigir papéis de difícil obtenção. Ademais, será concedida residência a imigrantes que tenham entrado no território brasileiro antes de 6 de julho de 2016, independentemente de sua situação migratória.

Mesmo sob a vigência do Estatuto do Estrangeiro, o Estado brasileiro já promoveu, de forma pontual, anistias a imigrantes em situação irregular, mas o alcance dessas medidas foi baixo devido a dificuldades com processos burocráticos e ao fato de que muitas pessoas sequer sabiam da possibilidade de anistia. Então, quando a Lei de migração for aprovada, será necessário realizar um amplo trabalho para difundir essa informação.

Com a aprovação da nova lei, garante-se também a acolhida humanitária, que passa a ser um princípio da política migratória brasileira. Antes, esse tipo de acolhida se dava através da concessão do visto humanitário, criado pelo Ministério da Justiça e pelo Ministério de Relações Exteriores, em 2012, para receber haitianos que vinham para o Brasil fugindo das consequências do terremoto de 2010 e que, portanto, não se encaixavam no rol de situações que garantem o direito de refúgio. Em 2013, o visto humanitário foi estendido aos sírios, que, ao chegar no Brasil, podem entrar com pedido de refúgio.

É evidente que a sociedade civil obteve uma grande vitória com a aprovação da nova Lei de Migração, entretanto, precisaremos estar muito atentos, pois as reações contrárias já são evidentes.

No dia 26 de março, setores conservadores da sociedade realizaram uma manifestação a favor de pautas como a reforma da previdência e a reforma trabalhista; nessa manifestação também apareceram posicionamentos contra a Lei de Migração.

Além disso, nos dias que antecederam a votação do projeto no plenário, houve uma grande quantidade de votos contrários à aprovação da lei em uma consulta virtual realizada pelo Senado. Apesar de os números não serem vinculantes, senadores contrários citaram a enquete como parte de seus argumentos.

Ao longo dessas lutas, esbarramos em diversos obstáculos e fomos vendo, na prática, que a imagem do brasileiro como um sujeito acolhedor não passa de um mito. Destaca-se também que a aprovação da nova Lei de Migração não é uma benesse do governo de Michel Temer, nem do Poder Legislativo.

Há muitos anos os movimentos de imigrantes e de brasileiros que atuam nessa pauta vêm colocando a urgência da revogação do Estatuto do Estrangeiro e a necessidade de criação de uma nova lei, que trate os imigrantes pela viés dos Direitos Humanos e não pela chave da ameaça à soberania e à segurança nacionais.

Os desafios que temos pela frente são imensos. O próprio fato de estarmos na contramão das tendências internacionais é um desses desafios. Enquanto diversos países estão aprovando medidas restritivas e securitizando suas fronteiras, no Brasil acabamos de aprovar uma lei que avança na garantia de Direitos Humanos aos imigrantes.

É importante ressaltar que uma legislação migratória restritiva não impede as pessoas de cruzarem as fronteiras e não determina quantas pessoas deixarão de entrar no território, mas quantas permanecerão em situação irregular.

Outro desafio que teremos que enfrentar é o fato de que vários artigos da nova lei devem ser regulamentados para se tornarem eficazes. Isso significa que, uma vez que a nova Lei de Migração entre em vigência, ainda teremos uma longa batalha para que as regulamentações sejam aprovadas.

Para que haja força social para fazer frente a todas essas questões, é essencial que a sociedade civil tenha conhecimento sobre a nova Lei de Migrações, o que exige de cada um de nós, defensores dos direitos dos imigrantes, um trabalho constante de conscientização e de combate à xenofobia.

*Natália Araújo é mestranda do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e pesquisa movimentos sociais inter e transnacionais. Desde 2011, faz parte do coletivo de extensão universitária Educar para o Mundo, que trabalha com educação popular em Direitos Humanos com imigrantes e refugiados na cidade de São Paulo. Convidada do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

 

Relações Internacionais

A política externa brasileira está à altura dos desafios da Era Trump?

Nosso passado recente nos oferece, ao mesmo tempo, esperanças e preocupações
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 20/04/2017 01h00, última modificação 17/04/2017 16h27
Chancelaria Argentina/Fotos Públicas
O ministro das relações exteriores, Aloysio Nunes Ferreira

A gestão Temer/Aloysio parece buscar avançar uma agenda comercial de forte matriz neoliberal

Por Rafael R. Ioris

A eleição de Donald Trump nos EUA redefiniu, em grande parte, o cenário internacional no qual teremos que agir durante os próximos anos; abrindo, por um lado, enormes desafios, assim como oportunidades para a ação.

Saberemos responder de forma corajosa e responsável aos novos dilemas globais em ascensão? Nosso passado recente nos oferece, ao mesmo tempo, esperanças e preocupações.

Lembremos que embora o ambiente doméstico tenha clivado as forças políticas brasileiras desde meados dos anos 1990 em duas grandes frentes alinhadas ao redor do PSDB e PT, na área da política externa podemos identificar uma linha de continuidade em muitos dos projetos implementados pelos presidentes dos respectivos partidos, FHC e Lula, maior do que muitos gostariam de acreditar.

E ainda que o primeiro tivesse uma visão mais conformista do processo de globalização do que o segundo, ambos os líderes aprofundaram o recurso da diplomacia presidencial, deram atenção especial para o contexto sul-americano, reforçaram a demanda por reformas e democratização das agências internacionais de coordenação global, e continuaram a agir por meios multilaterais para promover os interesses nacionais.

Apesar dessas semelhanças, que em certo grau refletiam uma maior maturidade da cultural política nacional, é inquestionável que com Lula, esses e muitos outros projetos, especialmente de natureza econômica, assumiram patamares sem precedentes, vindo a colocar o país de maneira histórica na liderança dos rumos mundiais na primeira década do século XXI.

O Brasil assumiu então um papel central junto aos BRICS, assim como uma liderança ímpar entre os países em desenvolvimento, especialmente no G-20, onde agiu decisivamente nas discussões sobre alternativas mais inclusivas para os rumos futuros da globalização.

E ainda que muitos tenham tentado projetar na política externa lulista um viés de radicalismo ideológico, certamente não existente, a ampliação de parceiros comerciais ao redor do mundo (sem romper com aliados tradicionais, haja vista, por exemplo, a produtiva relação estabelecida por Lula com George W. Bush), o aprofundamento de projetos múltiplos de cooperação e a amplificação da agenda por formas mais democráticas de coordenação da governança global ajudaram a garantir um lugar de extraordinária relevância para o Brasil no sistema mundial.

Lula e George W. Bush
Política externa da Era Lula ampliou parceiros comerciais, mas sem romper com aliados tradicionais. Na foto, Lula com o ex-presidente dos EUA, George W. Bush

A despeito de todas essas conquistas, o governo Dilma infelizmente não mais considerou a política externa como um meio central de promoção dos interesses de um país em ascensão.

Ainda assim, se comparado com os rumos atuais vindo da Casa de Rio Branco, onde há cerca de um ano o PSDB assumiu o controle, em aliança com o governo interino de Michel Temer, Dilma pelo menos não buscou (como agora está sendo encaminhado) reverter os rumos de uma política externa de viés desenvolvimentista para retomar um foco de alinhamento estreito com as grandes potências, os EUA em particular.

Da mesma forma, a gestão Temer/Aloysio parece buscar avançar uma agenda comercial de forte matriz neoliberal, paradoxalmente quando os ventos mundiais se mostram cada vez menos propícios para tal curso de ação, devendo, portanto, ser vista como anacrônica e equivocada.

Lembremos que sob Trump, os EUA passam cada vez mais, e de uma maneira radical, para os parâmetros de superpotência desde a Segunda Guerra, a se fechar e mostrar mais claramente seu lado unilateralista.

Como contraponto, alguns têm apontado que talvez a China pudesse assumir um papel de maior relevância na América Latina. Dado o cada vez maior peso do dragão chinês no crescimento econômico regional, é plausível que a tendência dos últimos 15 anos continue.

Contudo, seria prematuro presumir que um engajamento mais amplo entre Brasil e China possa, no curto prazo, substituir de maneira efetiva o tradicional papel dos EUA. Da mesma forma, a profunda crise que atravessa a União Europeia não parece ser o cenário ideal para um aprofundamento com o bloco, a despeito das recentes sinalizações do atual chanceler nesse sentido.

Dentro do conturbado cenário mundial atual, onde presenciamos a erosão da ordem multilateral criada no pós-guerra, em que área a política externa brasileira poderia encontrar mais espaço para ação? Na minha visão, na América Latina senão, pelo menos, na América do Sul.

Lembremos que foi exatamente nessa última que o Brasil conseguiu desempenhar um papel central na manutenção do equilíbrio regional, especialmente no que se refere a situação de crise continuada na Venezuela.

Essa atuação chegou mesmo a ser vista como necessária e útil pelo próprio EUA, em diferentes ocasiões, inclusive durante o belicoso governo de George W. Bush.

Contudo, para ser, de fato, profícua e duradoura, para além da agenda comercial, seria necessário também que tivéssemos uma maior aproximação em áreas estratégicas, políticas e mesmo sociais.

Temas iniciais que poderiam servir como eixos para esse tipo de alinhamento incluiriam a deterioração da segurança regional, especialmente no que se refere ao controle do narcotráfico, tráfico de armas e migração transfronteiriça.

E ainda que a inércia nacionalista da região sempre esteja presente, a urgência destas e outras questões talvez possa inspirar um maior diálogo e mesmo a elaboração de novos e maiores projetos em comum, seja na América do Sul, ou mesmo na região com um todo.

Contudo, levando-se em consideração o viés mercadista e anti-regional demonstrado pelos atuais dirigentes do Itamaraty e Planalto, é difícil ter a visão otimista de que estaremos à altura do que seria necessário para uma atuação como líderes regionais.

Isso é lamentável, em particular dado o crescente desprezo e agressividade dos EUA no hemisfério ao longo dos últimos anos – como, por exemplo, em sua reiterada chancela ou apoio tácito ao ressurgimento, muitas vezes ilegal, da direita e extrema direita na região, seja em Honduras, no Paraguai, ou mesmo no Brasil.

Agravando ainda mais as limitações (estas, sim, de viés ideológico), dos atuais dirigentes da nossa diplomacia, lembremos a profunda crise da ordem liberal pela qual o mundo inteiro está atravessando.

É possível que estejamos presenciando hoje um momento de mudança paradigmática rumo a algo diferente da ordem liberal pós-segunda guerra, onde os EUA expressariam, na visão de alguns, os estertores de seu iminente declínio.

Seja esse o cenário, o Brasil e América Latina deveriam buscar estar diretamente envolvidos na reorientação das normas e instituições globais – papel que a orientação pró-sistêmica do atual governo não o qualifica como sendo capaz de exercer.

De maneira alternativa, se estivermos atravessando uma espécie de ajuste, ainda incerto, dessa mesma ordem, nossa capacidade de influência, em um momento de recrudescimento da retórica liberal, estaria diminuída mas seria ainda assim, ou talvez por isso mesmo, essencial.

O mundo vive hoje um momento de grandes desafios que requerem, portanto, alto grau de criatividade e ousadia de seus dirigentes, nacionais e globais.

A forma como responderemos, por meio de nossa política externa, à alta turbulência dos dias atuais ajudará a definir os rumos e o caráter do nosso projeto de nação. Espero que possamos estar à altura da tarefa que nos cabe.

* Rafael Ioris é professor de História e Política Latino-americana da Universidade de Denver e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

Eleições

A França insubmissa e uma nova esperança

Candidatura anti-neoliberal de Jean-Luc Mélenchon cresce e chega na reta final do pleito presidencial com chances reais de ir para o 2º turno.
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI) — publicado 19/04/2017 08h00, última modificação 19/04/2017 02h58
Jean-Luc Mélenchon

Jean-Luc Mélenchon: nova esperança a mobilizar quem luta por igualdade

Por Josué Medeiros*

Vem da França insubmissa uma nova esperança a mobilizar quem luta por igualdade e liberdade em uma conjuntura internacional tão adversa para a democracia: a candidatura anti-neoliberal de Jean-Luc Mélenchon, do movimento France Insoumise (França Insubmissa) cresce vertiginosamente e chega na reta final do pleito presidencial naquele país com chances reais de ir para o 2º turno.

O primeiro turno ocorrerá no próximo domingo, dia 23 de abril de 2017, e apresenta um quadro complexo cujos sentidos ultrapassam em muito o território francês: quem liderou a corrida desde a pré-campanha foi a candidata da extrema-direita Marine Le Pen, com um patamar consistente de cerca de 25% das intenções de voto. Entretanto, ela vem apresentando um nítido viés de baixa na última semana, aparecendo com 22/23%, o que coloca em xeque a sua presença no segundo turno, e isso só pode ser explicado pelo crescimento de Mélenchon.

Em 2011 Marine Le Pen assumiu a presidência do partido fascista Front National (FN), quando iniciou um projeto de modernizar a direita radical francesa, se afastando da postura antissemita e homofóbica que marcou a trajetória Jean-Marie Le Pen, fundador da FN e pai da atual líder. Marine foi capaz de canalizar a revolta de parte da população francesa que teve uma significativa piora de vida com a crise econômica e com a política de austeridade da União Europeia.

Ela organiza essa revolta para um projeto xenófobo e conservador, no qual o nexo central reside na questão da imigração, que passa a ser responsabilizada não só pela pobreza, mas também pela degradação moral do que seriam os “verdadeiros” valores franceses. A vitória de Le Pen serviria para confirmar uma trágica situação internacional de avanço do conservadorismo e da xenofobia, somando-se a eventos tais como a eleição de Trump nos EUA, a ruptura britânica com a União Europeia e o crescente fechamento democrático em países como Rússia e Turquia.

Durante todo o processo eleitoral quem se apresentou em condições de vencer a líder fascista foram duas candidaturas inseridas dentro do paradigma neoliberal e do sistema político dominante. Pela direita tradicional quem concorre é François Fillon, —primeiro-ministro entre 2007 e 2012, que propõe ao país uma plataforma conservadora nos costumes e de destruição dos direitos trabalhistas como fórmula para retomar o crescimento.

Fillon começou o pleito com muita força, disputando em pé de igualdade com Le Pen, porém suas pretensões sofreram um abalo poderoso quando, em finais de janeiro, explodiram denúncias de corrupção contra ele e sua mulher, o que o fez estagnar em torno de 20%, porcentagem insuficiente para chegar ao segundo turno.

O outro forte concorrente é Emmanuel Macron, ex-ministro da Economia (entre 2014 e 2016) do atual presidente socialista François Hollande, que termina o seu governo desmoralizado devido a uma gestão de continuidade das políticas neoliberais. Macron, que rompeu com o Partido Socialista (PS) e fundou seu próprio movimento – En Marche, defende que a polarização entre esquerda e direita precisa ser superada em prol de uma “política moderna”.

Esta vem a ser, na plataforma do jovem candidato de 39 anos que pela primeira vez em sua vida disputa uma eleição, um mix de forte liberalização da economia, incluindo o desmonte de leis trabalhistas que ele já começou a fazer enquanto foi ministro, com progressismo nos costumes e temas dos direitos civis e, principalmente, na defesa dos ideais republicanos que são caros à memória coletiva da cidadania francesa.

Macron vem apresentando um crescimento constante, partindo do patamar de 15% das expectativas de voto em janeiro para um teto de 25% ao final de março. No mês de abril, contudo, começou a apresentar leve queda nas sondagens, e ele também chega na reta final oscilando entre 22% e 23%, empatado na liderança com Le Pen.

É na explicação da redução/estagnação dos favoritos que a nova esperança aparece. Mélenchon dobrou seu patamar de votos desde o começo de 2017, protagonizando uma arrancada no momento derradeiro das eleições e se tornando o protagonista político da disputa. Em janeiro, Mélenchon situava-se perto dos 15% dos votos, porém sua posição recebeu um duro golpe quando, nesse mesmo mês, as bases do PS surpreenderam e escolheram como candidato Benoît Hamon, um quadro crítico do neoliberalismo de Hollande e com uma plataforma renovadora que inclui a defesa de uma renda básica cidadã.

De partida, Hamon saltou de mais ou menos 5% para cerca de 15% (chegou a bater o teto de 18% em uma pesquisa de 29 de janeiro realizada pelo instituto Ifop-Fiducial), enquanto Mélenchon baixou para um piso de 10%. As esquerdas francesas viveram um tenso processo de debates e pressões para uma unidade – em torno de Hamon - que garantisse sua presença no 2º turno. Mélenchon, insubmisso, recusou a unidade em nome da coerência e da legitimidade que carrega desde 2008, quando iniciou a organização de um movimento alternativo ao socialismo moderado e adaptado ao neoliberalismo.

O resultado, ao menos até aqui, não podia ser melhor para Mélenchon. Ele conseguiu, na prática, produzir a unidade das esquerdas. Hamon viu seus índices de voto despencarem para cerca de 7% entre fevereiro e abril na mesma proporção em que o líder da França Insubmissa chegou a 20% na última semana de campanha, consolidando-se como grande fenômeno eleitoral da disputa presidencial.

De acordo com pesquisa feita entre os dias 13 e 15 de abril pelo instituto Le Terrain/Scan-research, Mélenchon já está em segundo lugar, passando de 19% que ele apresentava em sondagem divulgada no dia 31 de março para 22%, à frente de Le Pen, que caiu de 24,5% para 21,5% nesse mesmo período, enquanto Macron lidera com 24%, apresentando redução de 0,5% em face da pesquisa anterior.

O mais importante é que o candidato insubmisso amparou seu crescimento em uma grande mobilização social anti-neoliberal. Seu nome representa um movimento coletivo no qual as eleições não são um fim em si mesmo e sim, como afirma Gramsci, um processo no qual o voto é o resultado final de uma dinâmica mais ampla de disputas entre projetos políticos. Nesse sentido, Mélenchon – que por diversas vezes declarou se inspirar na esquerda latino-americana – teve sucesso em organizar um discurso coerente com uma ação que sempre combateu o arranjo neoliberal da União Europeia.

Sua plataforma fortalece os laços já presentes na cultura política francesa entre os valores da república e os direitos sociais. Seu desempenho primoroso nos debates eleitorais a partir dessas bases foi capaz de golpear a intolerância fascista de Le Pen pois ele também apresenta uma plataforma radical e, ao mesmo tempo, denuncia o neoliberalismo progressista de Macron, demonstrando que o programa do movimento En Marche é precisamente o que está destruindo a República francesa e que abre espaço para a ascensão do fascismo.

Uma possível vitória de Mélenchon terá um significado global para as esquerdas e para as lutas democráticas. Seu principal sentido estratégico será o de reposicionar as esquerdas no poder em um país central, com muito mais capacidade de organizar um projeto alternativo ao paradigma neoliberal do que, por exemplo, o Syriza possui governando a Grécia.

Ademais, trata-se de um retorno da França ao protagonismo dos processos políticos transformadores em escala internacional, lugar que ela ocupou desde o final do século XVIII – Gramsci dizia que toda a história do ocidente é uma consequência da revolução francesa, passando por todo o século XIX, quando Marx acompanhou in loco a primavera dos povos de 1848, iniciada em Paris, além da Comuna que governou a capital francesa por três meses em 1871. Essa centralidade revolucionária francesa reapareceu no século XX com o Maio de 1968, síntese de revolta estudantil e greve operária cujos ventos se espalharam pelo mundo afora e pode ressurgir agora, no século XXI, nos 100 anos da Revolução Russa, com uma nova esperança insubmissa que teima em apostar que outro mundo é possível.

*Josué Medeiros é professor de Ciência Política e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

Venezuela

Almagro-Aloysio: pacto espúrio para desestabilizar a Venezuela

Itamaraty oferece a Almagro palanque pró eleições na Venezuela. No mundo da pós-verdade, palavras ressonaram como se estivesse no berço da democracia.
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI) — publicado 18/04/2017 16h37, última modificação 18/04/2017 17h45
Agência Brasil
aloysio-nunes

Aloysio Nunes oferece Itamaraty para fala da OEA por eleições urgentes na Venezuela.

A visita do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, ao Brasil na última segunda-feira 10 acrescenta um capítulo tragicômico na sua trajetória pessoal e na tristemente célebre história de intervenções da OEA para “garantir a democracia” na região.

Depois de o Brasil desembolsar U$18 milhões para a OEA e tentar garantir assim a eleição de Flávia Piovesan para um cargo na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o palácio do Itamaraty ofereceu a Almagro um palanque para demandar eleições urgentes na Venezuela, para “redemocratizar” o país e que este volte a ter um “governo legítimo” eleito pelo seu povo...

No mundo da pós-verdade, as palavras do secretário-geral da OEA ressonaram na sala de imprensa do Itamaraty como se estivesse falando no berço da democracia grega. Para Temer-Aloysio, foi um sucesso da diplomacia. Para a América Latina, um pacto a mais contra a autonomia, a democracia e a estabilidade da região.

No nosso entendimento, o atual conflito político da Venezuela insere-se no quadro maior de uma grande ofensiva conservadora e autoritária contra os governos progressistas da América do Sul que lograram resgatar dezenas de milhões de pessoas da miséria e da exclusão. Tal ofensiva visa restaurar as fracassadas políticas neoliberais que, em passado recente, aumentaram a desigualdade social, precarizaram os mercados de trabalho, diminuíram a participação dos salários no PIB e comprometeram, em diversos níveis, a soberania dos Estados da região.

Tal ofensiva vale-se de métodos dissimulados e sofisticados de desestabilização política, que acabam redundando em golpes de Estado “brancos”, com aparência de legalidade e de normalidade institucional. O caso acontecido no Brasil é exemplo bem-acabado dessa nova engenharia política. Essa ofensiva neoliberal pretende também incindir diretamente sobre os processos de integração regional, particularmente sobre o Mercosul.

Neste caso, o objetivo principal é acabar com a união aduaneira do bloco, convertendo-o em mera área de livre comércio, uma espécie “Alcasul”, sob a influência direta dos EUA. Com isso, o bloco perderia a sua dimensão estratégica, seu incipiente caráter social e suas instituições supranacionais, inclusive seu Parlamento, se tornariam vazias de propósito e significado.

Assim como o Brasil do período recente, as políticas sociais na República Bolivariana da Venezuela foram eficazes na redução das desigualdades, no combate à pobreza, na eliminação do analfabetismo, na expansão de serviços públicos para os mais carentes e na defesa da soberania da Venezuela e da integração regional.

Assim como no Brasil, a crise ocasionada pela queda acentuada dos preços internacionais das commodities e do petróleo, somada ao processo de desestabilização política das elites interromperam o “ciclo de igualdades” produzindo, desde então, uma aguda deterioração dos problemas sociais e econômicos.

Erros das lideranças para lidar com a pressão econômica e política em um país ou outro não apagam o mérito dessas conquistas nem justificam as atitudes de alguns governos da região que estão apostando, no caso da nação irmã, na derrubada do seu governo democraticamente eleito.

O Brasil, atualmente governado por políticos imersos no maior escândalo de corrupção da história do país como Temer/Serra/Aloysio, não tem como liderar investidas diplomáticas destinadas ao isolamento da Venezuela. A decisão de suspender esse país do Mercosul com base em suposto descumprimento do Protocolo de Acesso soa como tentativa de derrubar o governo do presidente Maduro.

No contexto da crítica situação econômica e social atual da Venezuela, uma atuação internacional que incendeia ainda mais o conflito só pode prejudicar a procura por soluções para a vida de todos/as venezuelanos/as.

 Ao invés de botar lenha na fogueira, é preciso apoiar a retomada urgente do diálogo, a exemplo do plano acertado em outubro de 2016 entre o governo da Venezuela e representantes políticos da oposição (organizada na Mesa de Unidade Democrática/MUD), propiciado pela facilitação internacional feita pelos ex-presidentes Rodriguez Zapatero (Espanha), Leonel Fernández (República Dominicana) e Martín Torrijos (Panamá), um representante do Papa Francisco e o secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), o ex-presidente da Colômbia, Ernesto Samper.

Entre os principais pontos acordados, estavam medidas concretas para melhorar as condições de vida das cidadãs e cidadãos:

• Achar fórmulas que permitam enfrentar o problema do abastecimento, impulsionar medidas contra a inflação e atender as necessidades financeiras do país;

• Adotar decisões que garantam o equilíbrio e respeito entre os poderes públicos no marco das suas competências constitucionais;

• Fortalecer a institucionalidade eleitoral e acordar um calendário eleitoral no marco da Constituição;

• Acordar medidas para a luta contra a violência e a insegurança pública.

Nesse sentido, condenamos a decisão do Conselho Permanente da OEA de usar os instrumentos diplomáticos previstos na Carta Democrática Interamericana para “recuperar a institucionalidade democrática na Venezuela”, bem como a decisão dos chanceleres do Mercosul de iniciar os procedimentos previstos no Protocolo de Ushuaia. Sua utilização, neste momento delicado, deverá agravar o conflito interno da Venezuela, ao apontar para seu isolamento político-diplomático.

Fazemos um apelo para que os governos do bloco evitem atitudes drásticas que possam ferir a soberania da Venezuela e agravar os dissensos internos, em obediência ao princípio da não-intervenção. E expressamos a convicção de que o povo venezuelano saberá encontrar, por meios próprios, a solução para os conflitos, a qual deverá passar, necessariamente, pelo respeito de sua soberania e a afirmação e renovação da fonte última do poder numa democracia: o seu voto.

Os abaixo-assinantes são membros do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI:

  1. Adhemar Mineiro
  2. André Bojikian Calixtre
  3. Antonio Lisboa
  4. Ariovaldo de Camargo
  5. Artur Henrique da Silva Santos
  6. Carlos Enrique Ruiz Ferreira
  7. Carolina Albuquerque
  8. Cristina Pecequilo
  9. Daniel Angelim
  10. Diego Azzi
  11. Diogo Bueno de Lima
  12. Fábio Balestro Floriano
  13. Fátima Mello
  14. Fernando Pacheco
  15. Fernando Santomauro
  16. Gilberto Maringoni
  17. Giorgio Romano
  18. Gonzalo Berrón
  19. Graciela Rodriguez
  20. Iara Pietricovsky
  21. Igor Fuser
  22. Ingrid Sarti
  23. Iole Ilíada
  24. Iván González
  25. Jean Tible
  26. João Felício
  27. Jocelio Drummond
  28. Josué Medeiros
  29. Kjeld Jakobsen
  30. Lucilene Binsfeld
  31. Marcelo Zero
  32. Marcos Costa Lima
  33. Maria Abramo Caldeira Brant
  34. Milton Rondó Filho
  35. Monica Valente
  36. Nalu Faria
  37. Nathalie Beghin
  38. Pedro Bocca
  39. Rafael Ioris
  40. Renata Boulos
  41. Renato Vieira Martins
  42. Ricardo Alemão Abreu
  43. Rubens Diniz
  44. Sérgio Godoy
  45. Sergio Haddad
  46. Tatiana Berringer
  47. Tatiana Oliveira
  48. Terra Friedrich Budini
  49. Valter Pomar

 

Análise

A política migratória de Trump

Hostilidade a estrangeiros nos EUA pode ter reflexos importantes para a América Latina e o Brasil. Evento debate o assunto
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 23/03/2017 00h43, última modificação 22/03/2017 16h12
John Moore / Getty Images / AFP
Imigrantes

Agentes norte-americanos prendem dois imigrantes sem documentos em McAllen, no Texas, fronteira dos EUA com o México, em 15 de março

Por Kjeld Jakobsen

O presidente dos EUA, Donald Trump, preparou um novo decreto presidencial para barrar o ingresso nos Estados Unidos de imigrantes de seis países de maioria muçulmana. Sua primeira iniciativa apresentada em janeiro, impedindo que cidadãos de sete países (Iraque, Síria, Irã, Iêmen, Somália, Sudão e Líbia) pudessem ingressar no país por 120 dias foi barrada pela justiça estadunidense.

O novo decreto, com validade de 90 dias, emitido em 6 de março, isentou o Iraque e quem tivesse recebido um green card ou um visto até esta data. Apesar destas suavizações, é tão inconstitucional, ilegal e imoral quanto o anterior. Resta ver se os pesos e contrapesos da institucionalidade dos Estados Unidos funcionarão novamente. 

O presidente também decretou o início da construção do muro na fronteira com o México e uma série de outras medidas administrativas começaram a ser implementadas para dificultar a obtenção de vistos para os Estados Unidos e para ingressar no país, como a contratação de 5 mil novos agentes de fronteira e 10 mil inspetores de aduana e imigração, os temidos “migras”.

O muro, por exemplo, além de impedir o ingresso ilegal nos EUA, também visa impedir o contato físico dos imigrantes com os agentes de imigração para solicitar asilo, pois pela legislação estadunidense, se o solicitante tiver fundamentos mínimos para pedir refúgio, não poderá ser deportado enquanto não houver uma decisão judicial a respeito.

Outra medida em estudo é separar mães dos filhos quando famílias inteiras são detidas nas fronteiras e aguardam para serem deportadas. O objetivo é criar insegurança sobre o que poderá acontecer com as crianças para desestimular as mães a fazer novas tentativas de ingresso sem autorização. 

Trump transformou o tema migratório em programa de governo, pois foi sua pregação xenófoba e supostamente defensora dos empregos para os trabalhadores dos EUA durante a campanha eleitoral que lhe deu a vitória ao atrair os votos de trabalhadores brancos em estados industriais como Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin, que tradicionalmente votavam nos candidatos democratas, mas agora, com medo do desemprego, deram os votos ao republicano. Eles serão novamente um elemento importante pelo mesmo motivo quando Trump reivindicar a reeleição em 2020. 

Na campanha eleitoral, os principais alvos foram os potenciais imigrantes muçulmanos e os mexicanos. Os primeiros, pela suposta ameaça à segurança dos EUA, embora de 2006 até hoje, 650 mil cidadãos sírios, iranianos, iemenitas, somalis, sudaneses e líbios vieram aos Estados Unidos e não há notícias do envolvimento de qualquer um deles com atos terroristas ou similares. Os mexicanos foram visados por supostamente disputar os postos de trabalho com os estadunidenses. 

Sem falar que os Estados Unidos, a maior potência mundial, foi erigida com base na migração europeia, africana e chinesa, a realidade atual de sua imigração não justifica os temores xenofóbicos. A retórica de Trump somente serve para enganar os ignorantes e preconceituosos conforme comprovam os dados a seguir.

Aliás, 62% da população estadunidense são contra a construção do muro na fronteira com o México e 35% é a favor. É bom lembrar, porém, que alguns sindicatos se entusiasmaram com o anúncio que o presidente estaria pressionando empresas como a Ford a não abrir novas unidades no México e mantê-las nos Estados Unidos, assim como sua decisão de construir um oleoduto até o Canadá, que havia sido cancelado por Obama em função de controvérsias ambientais. 

Vejamos os dados da imigração levantados pelo Pew Research Center. O total de imigrantes indocumentados nos Estados Unidos declinou de 12,2 milhões em 2007 para 11,1 milhões de 2009 em diante, equivalente a 3,5% da população do país e dos quais 5,8 milhões eram de origem mexicana (52%) contra 5,3 milhões de outras origens.

Destes 11,1 milhões, cerca de 8 milhões trabalham, o que equivale a aproximadamente 5% das pessoas nos EUA que trabalham ou que procuram emprego. Percentuais pouco significativos, portanto.

A imigração mexicana aos Estados Unidos tem declinado, enquanto a de outras origens tem crescido. O número de mexicanos representava 54% dos imigrantes indocumentados em 2007 e caiu para 52% em 2009. Quase 60% deles vivem em seis estados apenas: Califórnia, Texas, Florida, Nova York, New Jersey e Illinois e dois terços, aproximadamente, vivem nos EUA há mais de dez anos, enquanto apenas 7% chegaram há menos de cinco anos, contra 22% de outras origens.

Dos imigrantes mexicanos, 26%, trabalham na agricultura, 15% na construção civil e os demais, principalmente, em diferentes setores de serviços sem representar ameaças de fato ao emprego dos estadunidenses.

Do total de imigrantes nos EUA, 63% são mexicanos, 10% porto-riquenhos, 3,8% com origem em El Salvador, 3,7% cubanos, 3% dominicanos, 2,3% guatemaltecos e 14,2% de várias outras origens, inclusive, brasileiros.

A imigração latino-americana e caribenha em direção aos Estados Unidos deve-se principalmente a conflitos armados como as guerras civis dos anos 1970 e 1980 na América Central, crises econômicas e desastres naturais como os furacões típicos da região do Golfo do México e do Caribe.

No caso de certos países, como El Salvador, Honduras e Guatemala, a imigração transformou-se em fonte importante de divisas. Por exemplo, os salvadorenhos que vivem nos EUA representam um em cada cinco habitantes do país e remeteram cerca de 4,3 bilhões de dólares para casa em 2015, quase 3% mais do que no ano anterior e equivalente a 17% do PIB de El Salvador. 

Um novo fenômeno que está preocupando a área de direitos humanos é a quantidade de crianças e adolescentes desacompanhadas – por convenção, menores de 20 anos – que tentam imigrar para os EUA.

Por exemplo, nos primeiros seis meses do ano fiscal de 2016, foram detidas 32.117 famílias acompanhadas de crianças na fronteira dos EUA, bem como 27.754 crianças desacompanhadas das quais 9.383 eram guatemaltecas, 7.914 eram salvadorenhas e 4.224 eram hondurenhas. Pode-se imaginar os riscos aos quais se submeteram para atravessar a Guatemala e o México, sem falar das dificuldades para atravessar a própria fronteira e o problema do retorno após as deportações.

A política de Trump tem gerado tensão e temor entre os 11,1 milhões de imigrantes indocumentados nos EUA, em particular, a 3,7 milhões deles que têm filhos nascidos nesse país e, portanto, cidadãos estadunidenses que não podem ser expulsos, mas que poderão ser separados dos pais, se estes forem deportados, e entregues a instituições ou pais adotivos gerando dramas adicionais. 

Outro problema é o que significaria o retorno do ponto de vista econômico, social e político, bem como o impacto sobre os mercados de trabalho nos países de origem de todos os imigrantes indocumentados da América Central, do Caribe e, mesmo para países como o Brasil, que atualmente possui uma taxa de desemprego superior a 12%.

A imigração, mesmo que irregular, ao longo de todos estes anos foi um desafogo para a economia e a demografia de países como El Salvador, Honduras, Guatemala, República Dominicana e Cuba. O súbito retorno destes imigrantes geraria uma crise de múltiplas dimensões difícil de solucionar no curto e médio prazo na atual conjuntura mundial de profunda crise. 

As questões migratórias fazem parte dos desafios apresentados por um cenário global em transformação, no qual a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos é um claro divisor de águas paras as relações internacionais de modo geral e, também, para a América Latina, em particular.

Neste sentido, o seminário ‘Impactos da Eleição de Trump para a América Latina e o Brasil’, que contará com transmissão ao vivo pela internet no próximo dia 29/3, propõe refletir sobre estas e outras questões cruciais para a compreensão do contexto que atravessamos e suas possíveis soluções desde um ponto de vista progressista. 

*Kjeld Jakobsen é consultor em cooperação e relações internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

Relações Internacionais

O que as eleições no Equador podem ensinar sobre a América Latina?

O contexto equatoriano pode ser um laboratório excelente para pensar a evolução do continente latino-americano
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 16/03/2017 04h00, última modificação 13/03/2017 15h37
Eduardo Santillán/Presidência da República/Fotos Publicas
O presidente Rafael Correa vota no primeiro turno das eleições no Equador

O sucessor de Rafael Correa será conhecido após o segundo turno, marcado para 2 de abril. Na foto, Correa vota na escola San Francisco de Quito

Por Tullo Vigevani

Muito já foi escrito sobre as eleições equatorianas, realizadas em primeiro turno em 19 de fevereiro. Conheceremos o próximo presidente do Equador no segundo turno, marcado para o dia 2 de abril.

Vinculado ao atual presidente Rafael Correa, Lenin Moreno, do Alianza PAIS (AP), obteve 39,36% no primeiro turno. Já a chapa conservadora de Guillermo Lasso, do CREO-SUMA, alcançou 28,09%.

Para além das análises conjunturais, é importante discutir alguns aspectos que se relacionam com o período que vive a América Latina e o mundo. Pode-se ler o contexto atual equatoriano como um laboratório excelente para pensar a evolução regional latino-americana.

As eleições equatorianas, ainda que tensas, realizaram-se numa situação de razoável equilíbrio, não havendo questionamentos sérios sobre a lisura do processo, e, sobretudo, não transcorreram em ambiente de crise institucional.

O presidente Rafael Correa deixa o governo com o reconhecimento de que o país vive de forma democrática, não houve risco significativo de manipulação de resultados de nenhum dos lados, e, embora haja acusações de mau uso da máquina administrativa, inclusive de corrupção, elas não atingem o presidente de forma direta.

No entanto, parecem alcançar, ao menos indiretamente, o atual vice- presidente e candidato novamente ao mesmo cargo, Glas Espinel, e outros funcionários.

Rafael Correa sai do cargo sem os índices de popularidade com que havia sido reeleito em 2013, quase 60% dos votos, mas com forte aprovação. Seu candidato a sucessor alcançou quase 40%.

Outro ponto importante é que a eleição presidencial no Equador dá continuidade a uma rotina de eleições democráticas que não parece ter sido rompida na América do Sul.

O caso do Paraguai e o questionamento da legitimidade da situação do Brasil não se referem especificamente à rotina eleitoral. O presidente Correa foi muito questionado em relação à Lei de Comunicação, aprovada pelo Parlamento em junho de 2013, mas nada sugere que as alterações tenham influenciado na votação.

Ao mesmo tempo, os resultados colocam questões importantes para o futuro da região.

Apesar de todo o empenho das forças conservadoras, o governo de Alianza Pais, depois de 10 anos, mantém o apoio de 40% da população. O índice, no entanto, diminuiu nos últimos quatro anos.

Muitas análises coincidem em interpretar a diminuição do entusiasmo como consequência da crise das matérias-primas, que incidiu já a partir de 2013: em especial, a diminuição do preço do petróleo, fator de grande relevância para o orçamento.

Essa visão vem sendo reiterada para explicar parte das crises que atingem a governabilidade da região. Correa rompeu o ciclo de instabilidade que prevaleceu desde a década de 1990, atingindo sete presidentes, todos de partidos diferentes.

De 2000 a 2007, sucederam-se Jamil Mahuad, Gustavo Noboa, Lucio Edwin Gutiérrez Borbúa e Alfredo Palacio. O governo, a partir de 2007, viabilizou sua estabilidade pela existência de novas condições econômicas e pela capacidade de construir uma base de apoio heterogênea, mas capaz de garantir a governabilidade.

A eleição de 2017 indica que um governo desenvolvimentista-distributivista contribuiu à consolidação das instituições, ainda que em contextos tensos.

Segundo Decio Machado, ao longo do governo de Rafael Correa, os fatores econômicos favoráveis permitiram mudanças. No Equador, a pobreza se reduziu a 12%, multiplicando-se os ingressos do Estado, de modo que o piso salarial passou de 160 dólares em 2006 a 340 dólares em 2013. Ao mesmo tempo, o Estado pôde investir 13,5 bilhões de dólares em saúde, construiu hospitais e implantou outros equipamentos sociais, beneficiando sobretudo os mais pobres.

O presidente do Equador Rafael Correa e Lenin Moreno
Vinculado ao atual presidente, Lenin Moreno obteve 39,36% no primeiro turno. Já a chapa conservadora de Guillermo Lasso, do CREO-SUMA, alcançou 28,09%.

Ao mesmo tempo, é fundamental entender as razões pelas quais governos que favoreceram a melhora das condições de partes importantes da população pobre, mas sem atacar as condições de acumulação dos mais ricos, como Rafael Correa afirmou em mais ocasiões, tiveram parcialmente reduzida a sua popularidade.

No caso do Equador não intervieram fatores extraordinários, formalmente extra-políticos, daí o interesse especial desta experiência. Os resultados de 19 de fevereiro mostram que mesmo havendo algum declínio, o prestígio da experiência desenvolvimentista-distributivista continua importante e persiste com competitividade eleitoral.

Citamos como fato relevante a mudança do quadro econômico em termos de preços de matérias-primas. Segundo Santiago Ortiz Crespo, contribuiu para aumentar os problemas o terremoto de abril de 2016.

A resposta do governo foi importante, um plano de construção de 1.500 casas ao mês para dar moradia aos afetados, ou a entrega de recursos para a reabilitação das casas. Mas os efeitos do desastre somaram-se à continuidade da baixa do preço do petróleo.

No caso do Equador, uma questão que tem grande significado é a dolarização da economia. Decidida no governo Jamil Mahuad em 2000, no contexto de superinflação, não foi alterada depois, nem mesmo no governo Correa.

Tal cenário limita os instrumentos à disposição para enfrentar as crises e a valorização do dólar contribuiu para a debilitação da economia. A consequência foi a forte restrição da capacidade de investimento do Estado.

Na interpretação de alguns críticos ‘de esquerda’, como Carlos Pastor, da experiência da ‘Revolução Cidadã’, os dez anos transcorridos não romperam as estruturas tradicionais do país.

Os grandes grupos econômicos mantiveram o seu poder, a criação da Superintendência de Controle do Poder de Mercado não teve capacidade para alterar a estrutura monopolista.

O grave problema do acesso à água tampouco pôde encontrar soluções efetivamente distributivas, sendo um dos fatos que enfraqueceram a Alianza PAIS junto a populações indígenas.

A força dos setores conservadores, ainda que divididos, mostrou-se pela votação alcançada por Guillermo Lasso e pela sua competidora na mesma área sócio-política, Cynthia Viteri, com 16,32%.

A considerada baixa votação de Paco Moncayo, 6,71%, com posições social-democratas, sugere que a capacidade de atração do bloco que governou o país por 10 anos continua forte.

Aspecto não ressaltado nas interpretações dos resultados de 19 de fevereiro é a persistente e secular diferença entre a costa, onde está Guayaquil, e a ‘sierra’, onde se situa Quito.

Em Guayaquil forças conservadoras têm mostrado forte enraizamento, o que é evidenciado pelo fato de Jaime Nebot Saadi, grande liderança conservadora próxima aos banqueiros equatorianos e aos proprietários de terras de produção bananeira, ter sido reeleito prefeito por cinco vezes, a última em 2014.

Já a modernidade trazida pelo governo Correa concentrou-se mais na área de Quito.

Uma última consideração a ser feita é a respeito do papel das lideranças políticas. Num mundo altamente conectado, elas mantêm sua importância. A avaliação positiva obtida por Correa o transformou num líder carismático.

As eleições de 2017 são as primeiras que se realizam sem sua presença. Esse é um fato importante e servirá para medir a estabilidade das instituições no longo período.

Na Assembleia Nacional eleita, Alianza PAIS detém 55% das cadeiras, clara maioria, mas já não tão ampla no período 2013-2017. A votação para o parlamento consolida a ideia de que o partido de Correa detém enraizamento e apoio.

Manuela Celi Moscoso sublinha um problema: a existência de uma liderança política forte e carismática tem papel importante. Nas eleições do Equador não surge de forma clara um projeto nacional, mesmo na candidatura Lenin Moreno.

As ideias de desenvolvimento aparecem sob forma de defesa do papel do Estado, sem adequada ponderação dos fatores. A polarização prevalece sobre as propostas.

* Tullo Vigevani é professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP), pesquisador do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos dos Estados Unidos (INCT-INEU). Faz parte do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

Opinião

O 8 de março de 2017 na história

Ao retomar sua melhor tradição, o feminismo consegue agregar as pautas de todos os setores oprimidos e marginalizados
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 08/03/2017 00h16, última modificação 07/03/2017 15h56
Marcello Casal Jr / Agência Brasil
Mulheres negras

Marcha das Mulheres Negras de 2015: todas as opressões podem ser combatidas por meio do feminismo

Por Tatiana Oliveira

O que é trabalho? Nesse dia de lutas pela possibilidade de existir mulher e ser feminino, provocadas a integrar uma greve internacional geral das mulheres, a pergunta ecoa fundo e o trabalho – ao menos como conceito – está por toda parte. Está por aí, mas não é pacífico... 

Como aponta toda a tradição de um feminismo anarco-socio-comunista a noção hegemônica de trabalho, o trabalho como atividade que gera valor monetário, talvez seja uma das que mais contribua, à direita ou à esquerda, para a invisibilidade social das mulheres e dos femininos, dificultando a afirmação plena da nossa cidadania, bem como a sustentação da nossa condição de sujeitas, da política aos nossos corpos. 

Por isso, em todo o mundo e por décadas, quando as feministas tratam do trabalho no contexto de “sociedades salariais”, a primeira coisa que fazemos é anunciar, para dissolver, a dicotomia entre a produção de coisas e a reprodução de indivíduos. 

Produção e reprodução são aspectos indivisíveis do processo de acumulação. Quando dizemos que o trabalho é irredutível à sua definição como trabalho que gera valor monetário sendo, assim, assalariado, chamamos a atenção para a apropriação não remunerada que o capitalismo faz do trabalho doméstico e de cuidados realizado historicamente pelas mulheres. 

Como no capitalismo só se reconhece aquilo por quê se paga, diz um filósofo italiano, o trabalho não remunerado das mulheres, embora produza valor – porque, entre outras coisas, garante a sobrevivência e reproduz a mão de obra –, evapora no ar, cai no esquecimento. E é apenas do esquecimento desse trabalho e das mulheres que podem emergir propostas tão surreais quanto a de equalização das idades de aposentadoria entre os sexos – e motiva o ato das mulheres neste ano. 

Na Argentina, as mulheres iniciaram, em 2015, uma série de manifestações e um movimento grevista contra o feminicídio, a violência de gênero e a discriminação contra a mulher no trabalho. O movimento Ni Una Menos viralizou rapidamente e recebeu adesões em vários países. 

A junção das lutas feministas a uma narrativa de greve internacional só ganhou fôlego, no entanto, depois das mobilizações massivas de mulheres nos EUA durante a posse do presidente Donald Trump – talvez o maior ícone do neoconservadorismo neoliberal que enfrentamos hoje. 

A mensagem é clara: Se as mulheres param, o mundo para.

A negligência do mercado em relação à esfera da reprodução não a torna menos funcional ao capitalismo, apenas contribui para esvaziar o sentido da dignidade humana relacionado aos femininos. Da mesma forma, a desqualificação do trabalho das mulheres no mundo público não afeta a sua utilidade para a acumulação. 

No século XXI, somos as mais pobres dentre os pobres do mundo: Ocupamos os piores empregos, recebemos os piores salários, nossos rendimentos são inferiores aos dos homens mesmo quando desempenhamos funções equivalentes. Enfrentamos múltiplas jornadas de trabalho, estamos absolutamente sobrecarregadas. 

Como se sabe, esse grande chamado à greve internacional de mulheres foi protagonizado por intelectuais de enorme projeção, particularmente, Angela Davis e Nancy Fraser. Evocar o imaginário da greve tem, no manifesto divulgado pelas ativistas estadunidenses, o objetivo de reaproximar, como argumentam, o feminismo das lutas de trabalhadoras/es.

Mas o que seria, hoje, esse feminismo próximo das lutas das trabalhadoras em oposição a um “falso feminismo”, empreendedor, neoliberal, como o define Fraser em distintos momentos?

Para pensar sobre esta pergunta, vale explorar um fenômeno do mundo do trabalho que, surpreendentemente, embora não exatamente na forma de um elogio, tem as mulheres como referência: a chamada “feminização do trabalho”. 

Já se disse que a tal feminização diz respeito à presença sempre crescente das mulheres no mercado de trabalho desde a década de 1950. 

Também se vinculou o fenômeno a uma nova composição do trabalho relacionada ao modo de produção e acumulação pós-fordista, à polivalência e à expansão do setor de serviços, que exigiria um perfil mais “feminino” para o trabalho: criatividade, networking, delicadeza, capricho, sensibilidade para o detalhe... 

Sem discordar da maior presença das mulheres no mercado de trabalho ou das transformações contemporâneas na estrutura do trabalho, nem entrar no mérito de como se dá essa inserção ou mesmo da construção identitária dos argumentos anteriores, quero discutir a feminização como repertório da precarização das relações de trabalho. 

As formas de produção no capitalismo contemporâneo se teriam feminizado ao investir sobre a vida na sua totalidade, englobando da força (ou do corpo) às subjetividades, desfazendo as distâncias entre o trabalho e o não-trabalho, relativizando a fronteira entre a experiência produtiva no mundo público e as relações afetivas da esfera do privado, comprimindo nosso tempo, desfazendo redes de proteção, responsabilizando indivíduos socialmente conectados pela sua própria sorte. 

Ao contrário do que pretendiam as feministas, a sobreposição do que antes era identificado como um limite, tal qual na ideia de divisão sexual do trabalho, entre a produção e a reprodução, hoje move o capitalismo, sem, no entanto, abrir a possibilidade de um diálogo amplo sobre a necessária repactuação do trabalho reprodutivo. Daí que a crise global atual nos mercados capitalistas seja também uma aguda crise dos cuidados. 

Somos obrigadas/os a trabalhar cada vez mais, por cada vez menos. Reduz-se o tempo para o cuidado, a batalha pela renda torna-se imperativa. O feminismo empreendedor vem, de alguma forma, no rastro dessas transformações, o que não anula o diagnóstico de captura de uma pauta progressista pelo capitalismo. Seja como for, há aí um empoderamento que, cheio de contradições, permite reivindicar maior presença feminina nos espaços. 

O ponto aqui é “enxergar o copo meio cheio”, ver o que há de potente e transformador nos pontos sem nó deixados pela produção biopolítica neoliberal. Há, então, que se avaliar qual saída, qual contraconduta, qual experimento poético-estético é possível oferecer em seu lugar. É a greve?

Um dos grandes desafios da organização social hoje é atualizar o sentido e a prática da greve, inclusive, ousando transformá-la em outra coisa, considerando que vivemos um momento distinto daquele que ensejou as lutas por este direito. O modelo das ocupações parece interessante porque elas têm se mostrado instrumentos eficazes para ampla mobilização e sensibilização. 

A luta feminista acumula experiência na construção de convergências internacionais, intergeracionais e de lutas, isto é, tem certa abertura para agregar às pautas específicas das mulheres demandas de todos os setores oprimidos e marginalizados. Esse 8 de março chega, nesse sentido, como retomada da melhor tradição do feminismo. Mas para seguirmos adiante será preciso antropofagizar nossas velhas práticas, mudar a vida para mudar o mundo.

Tatiana Oliveira é cientista política, militante feminista e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

Relações Internacionais

Aloysio Nunes: uma política externa omissa e submissa

Escolhido como substituto de José Serra no Itamaraty, o senador tucano é o indivíduo que mais representa a gestão do governo Temer
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 06/03/2017 10h20, última modificação 06/03/2017 11h14
Lula Marques/AGPT
O ministro das relações exteriores, Aloysio Nunes Ferreira

Aloysio Nunes Ferreira: cada golpe tem o chanceler que merece

Por Diogo Bueno e Josué Medeiros*

A nomeação de Aloysio Nunes (PSDB-SP) para o Ministério das Relações Exteriores, em substituição ao tucano José Serra, faz lembrar uma certeira frase do Barão de Itararé: "De onde menos se espera é que não sai nada mesmo". 

Com o novo chanceler, podemos ter certeza de que que a trágica política externa do governo golpista terá continuidade garantida sob a direção do também senador do PSDB.

Em comum, Serra e Aloysio têm trajetória política no estado de São Paulo. Ambos foram eleitos várias vezes para o legislativo estadual e federal e para o executivo. Serra foi prefeito e governador e Aloysio foi vice-governador durante o massacre do Carandiru, em 1992, quando 111 presos foram executados pela polícia militar. 

Ademais, eles têm no currículo um passado de participação em movimentos esquerdistas – Serra é ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e Aloysio foi guerrilheiro e motorista de Carlos Marighella – e um presente de ação entreguista e autoritária, que vai na contramão daquilo que eles faziam na juventude.

E os dois também se mostraram exímios analistas da política internacional, colecionando declarações de desprezo e de desqualificação ao então candidato republicano Donald Trump, hoje presidente dos Estados Unidos.

Ao aceitar o cargo, Aloysio Nunes gravou um vídeo que nos permite analisar bem sua capacidade para o papel de chefe da política externa golpista.

Na mensagem, três tópicos chamam atenção e merecem ser destacados: em primeiro lugar, o novo ministro afirma que o Brasil começa a sair de uma profunda crise econômica.

Aloysio parece desconhecer os dados produzidos pelo governo do qual faz parte, pois o IBGE anunciou em janeiro que vivemos no país uma situação de desemprego recorde, com 13 milhões de pessoas sem trabalhar, número que foi superior às piores previsões das agências econômicas internacionais que os tucanos tanto prezam.

Nesse tema da crise econômica, o chanceler terá que se bater também com os organismos internacionais das Nações Unidas. Por exemplo, o relatório do PNUD de dezembro de 2016 alertando para o aumento da pobreza no país, ou ainda com as instituições que regem o sistema econômico internacional, tal como consta em documento do Banco Mundial divulgado em fevereiro de 2017 no qual essa idônea instituição do neoliberalismo estima que entre 2,5 milhões e 3,6 milhões de pessoas deverão retornar para a miséria no Brasil até o final desse ano.

Além disso, o titular do Itamaraty afirma que o Brasil tem um papel relevante a cumprir na agenda internacional porque é um país grande. Sim, é isso mesmo. O nosso tamanho é o principal predicado aventado pelo ministro na sua doutrina da política externa. Esperemos novos documentos que conceitualizem o que é “ser um país grande” como elemento de protagonismo internacional.

Por fim, em momento de altíssima inspiração republicana (sic), Aloysio agradece aos amigos que o ajudaram na sua vitoriosa carreira política e diz que não vai decepcioná-los.

Nisso, caro Ministro, tenha certeza que nós acreditamos.

Sabemos muito bem que aqueles que o ajudaram são os que mais se beneficiam da agenda neoliberal implementada pelo governo de Michel Temer. Sabemos que entre eles estão os interesses estrangeiros que querem acabar com a soberania nacional e transferir nossas riquezas para engordar os lucros das grandes corporações.

Como cada golpe tem o chanceler que merece, Aloysio Nunes tem todas as prerrogativas para o cargo de Ministro das Relações Exteriores.

O novo chanceler segue uma linha coerente com o atual governo, na qual, para ocupar a pasta, precisa ser investigado, ser réu ou constar em alguma lista de delator.

E nesta matéria pode-se afirmar que Nunes cumpre exemplarmente os requisitos. Desde 2015, o Supremo Tribunal Federal autorizou, no âmbito da operação Lava-Jato, a abertura de investigações sobre o então senador, suspeito de receber propinas de empreiteiras na sua campanha para o senado em 2010. Tal fato, no entanto, está longe de ser exceção no Brasil pós-golpe, afinal o ministério de Temer tem quase uma dezena de investigados pelo STF.

Como se não bastasse, e na contramão de uma das principais tradições históricas da diplomacia brasileira, Aloysio Nunes leva também para o Itamaraty a marca de um político autoritário e violento que se orgulha de combater “o politicamente correto”, tal como ele mesmo declarou em entrevista quando foi nomeado candidato a vice-presidente em 2014 na chapa derrotada do PSDB e como atestam os constantes xingamentos e agressões a jornalistas.

Nunes também levará para o Itamaraty a presença de Eduardo Saboia, na chefia de gabinete, cujo principal feito na carreira foi interferir na política interna da Bolívia ajudando um senador condenado pela justiça a fugir do país. 

A nomeação de Aloysio tem o mérito de confirmar que o governo golpista não é só dominado pelo PMDB. A cada dia que passa o domínio do PSDB é maior, abrangendo a área econômica, a nomeação de novo ministro do STF e a direção das relações exteriores.

Os tucanos não aprenderam a ganhar eleição mas sabem muito bem quais são as áreas estratégicas que precisam assumir.

Em suma, podemos cravar com alto grau de acerto que a Aloysio seguirá o curso de seu antecessor e aprofundará a destruição da política externa brasileira ativa e altiva que impulsionou o Brasil no cenário internacional nesse começo de século XXI. A contrapartida é clara, implementar um projeto que mais se assemelha a uma política externa omissa e submissa.

Se lembramos que Aloysio esteve na Venezuela para denunciar a “ditadura bolivariana” e que ele foi aos EUA durante o processo de impeachment negociar o apoio oficial estadunidense – missão na qual falhou – podemos ter certeza que nosso país acumulará mais perdas no cenário internacional.

Entre elas, o fim do protagonismo no Sul Global, do ativismo nos Brics, da concertação com os vizinhos latino-americanos e, finalmente, de aproximação a um continente que desponta, a África.

Neste sentido a escolha foi certeira. Aloysio Nunes é o indivíduo que mais representa a gestão de Michel Temer, o homem perfeito para o desgoverno completo, no qual ele, como chanceler, terá somente uma tarefa: desfazer tudo o que foi feito anteriormente com o intuito de acabar com a soberania nacional do Brasil e nos posicionar de modo subalterno na globalização neoliberal ora em crise.

* Diogo Bueno é analista internacional e Josué Medeiros é professor de Ciência Política. Ambos são integrantes do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.