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O outro lado

por Felipe Marra Mendonça publicado 26/04/2011 10h03, última modificação 26/04/2011 10h03
Os chineses podem se associar ao Facebook em rede social para controlar dissidentes

O mês de abril mexeu com a internet na China. No dia 11, sites chineses sustentavam que o Baidu, principal buscador do país, tinha chegado a um acordo com o Facebook para a criação de uma rede social. O lançamento da rede ainda deve demorar, visto que joint ventures precisam da aprovação expressa do governo central chinês, e a nova empresa precisa ter, em seus quadros, executivos escolhidos pelo Facebook e pelo Baidu.

O interesse da empresa chinesa por uma associação com a rede social americana tem fácil explicação. O número de usuários chineses do Facebook dobrou desde que Mark Zuckerberg, fundador da rede social, visitou a China em dezembro do ano passado.

Ao mesmo tempo, a criação de uma rede social chinesa parece ser útil para o governo e o seu controle sobre os dissidentes políticos internos. Uma semana antes das especulações acerca do casamento entre o Facebook e o Baidu, no dia 7, cerca de 250 mil usuários chineses do Facebook simplesmente desapareceram dos cadastros do site. Segundo o China Digital Times, a queda de -usuários não foi gradual. Mais de 40% dos chineses cadastrados no site simplesmente sumiram da noite para o dia.

O desaparecimento de usuários não é mera coincidência e tem ligação com a mais severa onda de repressão de liberdades iniciada pelo governo central chinês em mais de uma década. Mais de cem ativistas desapareceram ou foram presos pelas autoridades. Outros estão impedidos de deixar suas casas. Um deles, o artista Ai Weiwei, foi detido em Pequim, enquanto embarcava para Hong Kong, sob a alegação de “crimes econômicos”. O artista, com uma exposição em curso em Londres, é um dos principais críticos do governo comunista, mesmo depois de ter sido escolhido para ser um dos arquitetos do Estádio Olímpico de Pequim.

Além deles, os censores do governo também passaram a filtrar o que é colocado na internet pelos cidadãos chineses. Os mais de 460 milhões de usuários têm encontrado restrições ao que podem escrever em blogs, salas de bate-papo e redes sociais. Uma busca pelo termo “ai weiwei” ou “revolução” no Sina Weibo (t.sina.com.cn), site chinês semelhante ao Twitter, gera a seguinte mensagem: “De acordo com as leis regentes, regulamentos e políticas, os resultados da busca não foram mostrados”.

A censura mais acirrada é uma mudança importante na posição do governo chinês ante a internet. A rede era antes vista como uma espécie de válvula de escape para as frustrações da população. As críticas eram permitidas, mesmo que com alguns limites impostos. Agora, as autoridades chinesas parecem temer o papel da internet e querer impedir qualquer tipo de insurreição popular modelada nas atuais revoluções no Oriente Médio e Norte da África, que chegaram a derrubar os regimes da Tunísia e do Egito e que amea-çam as ditaduras presentes no Iêmen e na Líbia. A criação de uma rede social interna com o selo de qualidade do Facebook pode se tornar mais um instrumento na repressão virtual do governo, mas é outra barreira que os usuários chineses aprenderão a ultrapassar com o tempo. A Grande Muralha -virtual não é páreo para eles, felizmente.