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Um ditador para salvar o Brasil?

A personificação da política produz males que precisamos superar
por Rosana Pinheiro-Machado publicado 10/02/2016 17h02, última modificação 10/02/2016 17h55
Gabriela Korossy / Câmara dos Deputados
Jair Messias Bolsonaro

Bolsonaro ocupa um vácuo deixado pela crise moral, econômica e política

Entrei no carro e, como habitual, o taxista começou a reclamar do Brasil até soltar a máxima: “o que o Brasil precisa é importar um ditador japonês para colocar a casa em ordem”. Ele não foi o primeiro, nem o segundo, taxista a me falar que o Brasil precisa é de um homem de pulso firme no poder.

O propósito da minha coluna não é, do alto de minha suprema sabedoria e soberba, chamar taxista de coxinha, autoritário ou ignorante. O que eu gostaria de problematizar aqui é que a visão do taxista, talvez justamente por pertencer a um dos segmentos mais vulneráveis da classe trabalhadora, é apenas uma versão extrema de algo naturalizado em sociedade – a crença que a solução dos problemas virá da mão de um líder.

Esse tipo de pensamento se manifesta, com diferentes nuanças, em diversos setores da sociedade, que vão do senso comum às mais sofisticadas análises políticas.

De um lado, há aqueles que depositam suas esperanças numa volta triunfante de Lula para consertar o PT, ou entre círculos mais intelectualizados do partido, que veem a figura de Fernando Haddad como “O” novo líder. Do outro, estão os integrantes da nova direita, que odeiam a política partidária, não se identificam nem com o PSDB nem com o PMDB, mas idolatram a figura de Jair Bolsonaro como herói salvador. Ainda há aqueles que ficam discutindo se Ciro Gomes ou Marina Silva emplacariam.

É fato que o Brasil carece de líderes, mas isso é necessariamente ruim?

Sobre ombros do povo

É muito comum ouvir que o problema do PT é a falta de líderes, quando uma geração inteira foi denunciada em seguidos escândalos de corrupção. Nesta concepção, é preciso buscar novas inspirações. De sua base, espalham-se fotos populistas de Lula sendo erguido pelas massas. Quase uma ressurreição.

Eu entendo que isso possa funcionar como fonte de inspiração para a militância, mas estamos bastante cientes que os problemas enfrentados pelo partido estão longe de ser responsabilidade de Dilma Rousseff. Eles são fruto de uma história de institucionalização, burocratização e coalizão pela governabilidade.

Da parte de alguns analistas políticos e intelectuais orgânicos do PT, é muito comum ouvir que a renovação virá por Haddad, já que se trata de um dos poucos políticos da nova geração que têm carisma, aparência simpática e jovial, o que se alia a uma gestão progressista. Ou seja, tudo o que compõe o repertório da busca desesperada por um novo líder.

Do lado do PSDB, o cenário não é nem um pouco mais animador. As disputas de carisma entre os principais nomes do partido soam deprimentes. Aécio Neves bem que tentou, mas não funcionou. Volta-se a disputa pelas mesmas figuras carimbadas que nunca emplacaram na disputa presidencial.

Mas é de um partido que quase ninguém lembra, o PP, que emerge a figura de Jair Bolsonaro. Ele foi recebido por uma multidão como herói salvador da nação, sendo carregado nos ombros em Recife e em Porto Alegre (nesta última também levou purpurina na cabeça, mas este é outro assunto...).

Há quem diga que Bolsonaro é um animador de internet, uma figura caricata e não representa risco nenhum nas eleições de 2018. Ainda que eu concorde com a questão presidencial, não seria tão otimista em relação a ele. Subestimar o seu papel é um erro primário.

Há muito tempo que o comportamento violento de internet tem se traduzido em violência nas ruas (especialmente no que diz respeito à diversidade política e identitária). Da mesma forma, não se pode ignorar o imenso vazio que a figura dele preenche. Bolsonaro atua por meio de um discurso simples e inflamado (mas falacioso) que ocupa um vácuo deixado pela crise moral, econômica e política. É fácil atribuir os problemas do Brasil a um inimigo comum: a ameaça comunista, a “ditadura gay”, e assim por diante.

 

É claro que, hoje, se me perguntarem se Bolsonaro é um risco real para 2018, eu também seria cética. Mas, sinceramente, acho que não é esta a questão correta a ser feita. O que importa é justamente o seu papel de animador de torcida, que ontem estava adormecida e hoje sai às ruas com orgulho de defender bandeiras conservadoras.

O que importa é justamente a identificação que ele vai aderindo Brasil afora em uma população que detém muito pouco capital educacional e está profundamente carente de líderes e soluções dos seus problemas.

Além da personificação

Vivemos em um sistema presidencialista, que consequentemente necessita de líderes que inspirem gerações e construam a identidade partidária. Líderes inspiram sonhos. E não há nenhum problema nisso. Ademais, dirão alguns, a falta de liderança é uma utopia.

O Brasil hoje é uma sociedade polarizada e carente de todas as ordens. Lideranças tendem a ser altamente personificadas e o resultado do culto à personalidade – à direita e à esquerda – não têm sido nada positivo ao longo da humanidade.

Da mesma forma, não vejo, dentro do sistema político brasileiro, como uma liderança poderia renovar um sistema visceralmente apodrecido em seus pequenos e grandes poderes. Também não consigo entender como a guerra (um tanto obsessiva e infantil, é verdade) de memes da internet entre Lula x FHC (triplex ou apartamento em Paris; gravata borboleta ou sem camisa; operário ou sociólogo) possa acrescentar no debate político. Política é processo. Processo requer debate. Debate requer entendimento e solidariedade.

Deixando o herói salvador um pouco de lado, é preciso se perguntar: quem de nós analisa agenda partidária e programa de governo?

O exercício democrático, contudo, vai muito além da política partidária. Nesse sentido, vale a pena olhar para as novas gerações dos movimentos sociais e aprender com eles um pouco. Os valores da horizontalidade e democracia direta podem soar utópicos para alguns, mas tentar colocá-lo em prática já me parece um exercício que engrandecesse o nossos fazer político.

Fundamentalmente, é preciso fortalecer a nós mesmos enquanto seres coletivos e cidadãos de direitos em uma população tão individualista como a brasileira, movida por interesses burgueses majoritariamente mesquinhos e autoritários. Nesse modelo de sociedade, faz sentido terceirizar o fazer político para a figura de um líder. 

Um outro modelo de sociedade é possível. É nosso papel coletivo reivindicar o melhoramento das instituições democráticas, fortalecendo a base coletiva dos movimentos sociais, das associações comunitárias e dos partidos políticos. Não há como ter esperança de que nossos direitos, que são violados diariamente, irão ser implementados de cima para baixo. Não serão. Lá para cima a farra é grande. A solução de nossos problemas está, sempre esteve, e sempre estará, em nossas próprias mãos, no nível comunitário e coletivo. Paremos de olhar para cima e, por favor, voltemos a olhar para o lado.