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Sociedade

Crônica

Terceiro mundo

por Menalton Braff publicado 07/05/2012 11h13, última modificação 07/05/2012 11h13
Os gatos, como os japoneses, não espalham lixos ao seu redor. Por que os brasileiros não?

Uns tempos atrás, depois de um susto, entendi por que somos chamados de terceiro-mundistas.

Peguei a estrada, como fazia diariamente, e vinha sossegado, sem vontade nenhuma de provar que sou rápido no volante. Pelo retrovisor, percebi que um automóvel se aproximava em alta velocidade, mas já estava acostumado com isso e me mantive na pista da direita para não atrapalhar o tráfego.

Às vezes também tenho pressa e detesto quando alguém faz de tudo para que eu chegue atrasado a meu destino. Meu falecido pai repetia com aquela seriedade com que deitava suas verdades para fora: não se faz aos outros o que não se quer que os outros nos façam. Por falar nisso, os pais de hoje não transmitem mais preceitos morais? Caramba, e onde é que os adolescentes vão aprender seus valores? Aliás, uma sociedade começa a entrar em decadência quando uma simples palavra como “moral” é considerada ridícula pela maioria das pessoas. Vocês se lembram do Império Romano?

Mas voltando a nosso assunto. Assim que fui ultrapassado pelo candidato a Fittipaldi (ninguém mais se lembra dele, portanto pode-se substituir seu nome pelo do Felipe Massa, pode ser? Obrigado), alguém jogou uma lata vazia de cerveja pela janela do bólido que passou a meu lado, quase me arrastando pelo deslocamento do ar, coisa assim de furacão, um tenebroso fenômeno da natureza. Uma lata de cerveja, sem dúvida nenhuma. A velocidade significava uma urgência qualquer? Mais fácil acreditar que era, a velocidade, estimulada pelo álcool. Enfim, a vida de algumas pessoas não vale nada mesmo.

Depois do susto (a latinha chegou a bater no para-brisa do meu carro) veio a luz. Fenômeno que também pode ser chamado de epifania, pelo menos depois do James Joyce. Bem, nós temos o hábito de jogar nosso lixo onde estivermos: no estádio, no salão, no teatro, no parque, na rua. Não escolhemos lugar onde deixar as marcas de nossa passagem. Eu já tive um gato, quando criança. É invejável a delicadeza com que sua patinha dianteira arrasta a terra para cobrir a cova onde esconde seu excremento. Você, leitor eventual e talvez único, entende agora o que pretendo dizer com inveja aos animais?

Lembro-me de uma dessas copas de futebol que acontecem por aí, se não estou enganado, de quatro em quatro anos. A televisão mostrou um grupo de japoneses que torcia, gritava, aplaudia, ou seja, torcia. Eles acabaram aderindo ao esporte das multidões, e isso não faz muito tempo, não. Terminado o jogo, cada um pegou seu saquinho de lixo, que trazia pendurado à cintura, juntou a sujeira que fizera, e, ao irem-se embora, o lugar ocupado estava tão limpo como antes do jogo. E isso me provoca uma reflexão: nem só os gatos, por seu asseio, merecem nossa inveja. E então pensei: se eles, os japoneses, podem, por que não podemos também?

Meu amigo Adamastor, o catastrófico, me diz que não podemos porque a maioria do povo gosta mesmo é do lixo. Tenho minhas dúvidas.

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