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Shopping de luxo?

por Willian Vieira — publicado 13/07/2012 18h42, última modificação 06/06/2015 18h24
Com grifes como Prada e Chanel, personal shopper e joias de até meio milhão de reais, o JK se diz “plural”
JK

Bunker vip. Com seguranças em todo o canto a proibir fotos, o shopping protege os clientes, como a senhora que descobriu ter acesso ao lounge "One" e matou a sede causada pela linguiça com água de graça. Fotos: Olga Vlahou

Parece uma visita a Guantánamo, a prisão americana encravada em Cuba, na qual os acusados aguardam o destino no limbo jurídico da ilha. O design, verdade, é mais clean, a arquitetura, minimalista, menos concreto e mais vidro preenchem o espaço do cubo branco entre torres empresariais recém-erguido no Itaim Bibi, zona sul de São Paulo. No lugar de coqueiros, arecas, palmeiras raquíticas que são a crème de la crème do paisagismo, e orquídeas-brancas, entre joalherias, fornerias, champanherias projetadas sobre as entranhas geladas do shopping JK Iguatemi. Mas o sigilo é o mesmo da prisão. Não, não pode fotografar os clientes AAA, nem abordálos ou olhá-los por muito tempo, sob pena de incorrer numa pouquíssimo elegante falta de decoro. Tampouco se deve enquadrar a fachada das lojas de grife, falar com qualquer funcionário, perguntar qualquer coisa a quem quer que seja além da assessora de imprensa, que chega (quase) pontualmente para limitar as impressões a um mínimo múltiplo comum.

No JK, às 11 da manhã há mais seguranças que clientes. Às 2 da tarde, os números se invertem. Mas a eficaz comunicação entre eles multiplica sua presença, diretamente proporcional ao valor das mercadorias, que tende a baixar conforme se vai do térreo ao terraço. Para os que se engraçarem, uma olhadela nos homens com pistolas na coxa e um carro escrito “segurança” em letras garrafais talvez aclare as ideias. “Eles estão comigo”, diz Duda, a assessora, enquanto caminha apressada pelos corredores de ângulos retíssimos do térreo, onde se concentram as lojas caras, como Dolce & Gabbana, Prada e Chanel, além de joa­lherias. A interpelação se repetiria 11 vezes. “Eles estão comigo. Comigo. Comigo.”

Um segurança explica a razão. “Estão todos morrendo de medo dessa série de roubos a shoppings. Aqui tem muita joia, coisa boa de madame. É outro tipo de gente, entendeu?” Uma gente que compra o casaco de lã de carneiro ou estampa de oncinha da Dolce & Gabbana (feitos na Itália, é claro) por 17 mil reais, “para usar na Europa, pois são pessoas que fazem esse trajeto com frequência”, explica a vendedora, os pezinhos descrevendo um plié. Para combinar, um anel de 59,4 mil reais, pulseiras cravejadas com diamantes de 144 mil, ou mesmo um colar de pedras por meio milhão de reais ficam à mostra nas vitrines.

Inaugurado há três semanas como o mais novo shopping da cidade onde 54 deles criam uma espécie de conturbação do consumo, o empreendimento da WTorre precisava se distinguir dos demais. Logo a expressão “primeira loja da marca no Brasil” passou a pipocar nas colunas de moda da mídia: a primeira loja da Prada, a primeira loja da Dolce, da Chanel, da Sephora. Que a maioria dos grandes nomes trazidos para atrair a atenção para a exclusividade do negócio seguisse fechada após quase um mês de funcionamento pareceu não ser um problema para o shopping. Entende-se. Carlos Jereissati, o dono, e seus lojistas estão satisfeitos com a simples abertura pela metade, após mais de dois meses de impasse a sangrar os cofres de todos. A Justiça havia entendido que o empreendimento não cumprira as exigências para reduzir o impacto do trânsito, fruto dos milhares de carros a serem cuspidos nas ruas da região pelos cerca de 20 mil frequentadores diários do shopping. Habite-se e autorização de funcionamento da CET só foram liberados dias antes. Então foi com bolo e espumante improvisados que as lojas abertas fizeram seu début, para não menos de 70 mil visitantes só no primeiro fim de semana. Paulistano gosta mesmo de shopping.

“Esta é uma vista realmente paulistana”, arrisca a assessora, quando a escada rolante joga os visitantes no terraço com sofás, arecas e o Rio Pinheiros a desenhar o horizonte com seus arranha-céus e a preencher o espaço com o cheiro inconfundível, como um anacrônico Tâmisa. Ali também jaz o fantasmagórico prédio da antiga Daslu, erguido como um monumento ao consumismo local. Claro, há uma loja, e das grandes, no térreo. Mas a Daslu ficou démodé. Já o empório de vinhos high tech de Ciro Lilla evola futuro. Na Mistral, as paredes curvadas cravejadas de garrafas dividem espaço com telões: basta tocar na garrafa que as informações sobre o vinho surgem do além. Numa mesa ao fundo, o cliente põe a garrafa sobre a tela: um código de barras traz as informações sobre a safra, a uva, o sabor. Com certa cortesia, consegue-se até saber sobre o vinho mais raro da casa, um Petrus safra 2000, de 13 mil reais.

Oficialmente, o shopping é “plural”. As lojas âncoras são Zara, Top Shop, Livraria da Vila. Há Ponto Frio, Havaianas e “até mesmo” lotérica. “Já viu shopping de luxo ter Havaianas?”, diz outro assessor. Mas os lojistas parecem não crer na onda do “mix plural”. Na Havaianas, um par de sandálias pode custar 13 reais ou 437, se incrustado de cristais Svarovsky e trabalhado em fios de ouro. No Ponto Frio, tevês de plasma com telas gigantescas formam um paredão de pontos de luz, por até 9,5 mil reais a unidade. A ideia parece ser expor na entrada o que há de mais caro, não as pechinchas. Mulheres com roupas extravagantes, peles, casacos e bolsas “máxi” dão com a cara nas portas fechadas das grifes e suspiram. Outras, menos endinheiradas, fascinadas por moda, irritam-se. “Estou odiando este shopping. Tudo que é bom está fechado”, critica a blogueira de moda Jessica Flores, do Borboletas na Carteira.

Mas a joia da coroa fica escondida. É o Espaço One, área exclusiva para sócios cadastrados. Para tal, é preciso juntar pontos (em compras). O cartão dá direito a um personal shopper, espécie de conselheiro de compras privado, carregadores de sacolas e o direito a fugir do burburinho na sala climatizada. Ali, duas mulheres, mãe e filha, descobrem ser vips. “Eu tenho cartão do outro Iguatemi”, diz, vitoriosa, a mulher de blusa de oncinha. Elas passeiam, torcem o nariz e rumam para a saída. Mas a mãe dá meia-volta. Pega uma garrafa de água com o logo do JK e põe na bolsa. “Comi pão de linguiça. Daqui a pouco vai dar uma sede do cão.” Talvez não seja mesmo de luxo.

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