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Sete tristes troncos, diplomacia e um protesto

por Felipe Milanez publicado 22/08/2016 04h58, última modificação 29/08/2016 18h15
No Kuarup, complexo ritual de homenagens aos mortos, o adeus ao líder Pirakuman do Alto Xingu
Felipe Milanez
alto xingu

Protesto contra governo interino seria recado de que indígenas buscam protagonismo em sua história

Sete troncos decorados no centro da aldeia lembram as sete mortes no último ano. O do centro presta homenagem ao líder Pirakuman, que faleceu durante o Kuarup na aldeia Ipatse, do povo Kuikuro, em 21 de agosto de 2015. Os espíritos dos mortos estão ali nesses troncos e fazem durante o dia e a noite de homenagem a sua despedida dos vivos antes de subirem a um outro plano, o que acontece logo após as chamas das fogueiras acesas atrás de cada um seja apagada.

Kuarup é o celebre rito funerário dos povos do Alto Xingu, apresentado na literatura brasileira por Antonio Callado, de grande impacto mediático e político e intensidade espiritual. 

O falecido Pirakuman (escrevo o seu nome para facilitar a compreensão mas o faço por técnica jornalística e pedindo licença aos familiares, uma vez que o nome dos mortos não deve ser pronunciado) foi um grande líder Yawalapiti, irmão mais novo de Aritana, ambos filhos de Kanato, e a primeira geração Yawalapiti que nasceu depois que o povo começou a se reconstruir após quase ser extinto.

Pira, como era carinhosamente conhecido, cresceu também com jovens lideres de outros povos junto de Orlando Villas-Bôas, em um projeto do velho sertanista de treinar meninos para enfrentar o mundo dos brancos, dominando português, as burocracias do Estado, e conhecendo a política do capitalismo envolvente.

Pira tornou-se um grande embaixador, tanto no Alto Xingu junto às outras etnias do Parque Indígena do Xingu, quanto nas instâncias políticas em Brasília e mundo afora, em diferentes frentes de solidariedade internacional. Estiveram em sua homenagem, na aldeia Yawalapiti, embaixatrizes e embaixadores da Noruega, da Bélgica, do Canadá e da União Europeia.

O Kuarup foi organizado pelas famílias dos mortos, e em razão das redes de casamentos que ocorrem no Xingu, a homenagem esse ano aconteceu na aldeia dos Yawalapiti mas também foi organizado pelos Kamaiurá e os Mehinaku. Foi muito bonito ver como povos de línguas diferentes, com diferentes formas de poder e chefia, interagiam e se articulavam para construir uma grande e linda festa.

Pelo lado de Pirakuman, os “donos” da festa eram seus filhos e filhas, Kanato, Ana Terra, Watatakalu e Kaíke, junto também do irmão Aritana. O famoso pajé Kamaiurá Sapaim, velhinho e poderoso, era o dono da homenagem a seu irmão, e teve o apoio do cacique Kotok. Havia outros cinco homenageados.

Vieram muitos “não-indígenas”, visitantes de primeira viagem, turistas, amigos e amigas, o presidente interino da Funai, Arthur Nobre Mendes, que veio de ônibus de Brasília e depois em carro da instituição (talvez a primeira vez na história que um presidente da Funai não tenha utilizado o caro transporte aéreo), o casal de médicos extraordinários do Xingu, Douglas Rodrigues e Sofia Mendonça, o grande líder indígena Álvaro Tukano, que dirige o Memorial dos Povos Indígenas em Brasília e articulou com a Secretaria de Cultura do Distrito Federal a vinda das representações diplomáticas).

“Pirakuman era um grande diplomata, um grande líder político, e por isso essa homenagem reúne tanta gente especial nessa variedade de pessoas em um lindo Kuarup”, disse Álvaro.

Durante as festividades, foi inaugurado o projeto Encontro de Saberes, uma parceria da Universidade de Brasília com o povo Yawalapiti, financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Depois da tristeza da despedida, a luta e a diplomacia para animar e ajudar a encarar a vida (Foto: Felipe Milanez)
Coordenado por José Jorge de Carvalho, a iniciativa pioneira promove o conhecimento em constante diálogo, em espelho, com os conhecimentos tradicionais e científicos, uma ecologia de epistemologias que pode inspirar um novo posicionamento das universidades no Brasil e um novo relacionamento com a diversidade cultural e epistêmica que vive e sobrevive sob muita pressão no país. Pirakuman já havia, a convite de Carvalho, dado aulas na UNB como um mestre de saberes.

Rito de homenagem

O Kuarup é um ritual complexo, muito triste, com muito choro e homenagens aos mortos, em um intenso diálogo de despedida com os espíritos. A dança na aldeia é embalada pelos mágicos sons das flautas uruá e cantores em dupla, com chocalhos. Ao longo de toda a noite são intercalados os cantos dos cantores com o choro dos familiares junto aos troncos, iluminados pelas fogueiras que ajudam a esquentar a noite fria.

A noite era clara, com lua crescente quase cheia, que iluminava a aldeia junto a um refletor disposto sobre o teto da casa de Pirakuman. Por volta das 3 da manhã um denso nevoeiro invadiu a aldeia e impediu que se enxergasse, mesmo com a lanterna, um metro à frente sequer.

O som dos cantos e dos choros, no breu da névoa e com a força de tantos espíritos presentes, criou uma sensação intensa e mágica. Nesse momento, decidi me recolher, assim como o amigo “doutor Dô” (o médico Douglas Rodrigues) e Álvaro Tukano.  O som seguia ecoando pela neblina.

A imagem que se segue e vou tentar descrever está perfeitamente desenhada na minha memória, mas é difícil de traduzir: assim que o dia começou a clarear, com o sol escondido atrás das cortinas das fumaças das queimadas, e com a neblina fria ainda na aldeia, cruzei o pátio para me banhar e vi que a única fogueira ainda acesa era a que fazia homenagem a Pirakuman.

Sentado ao lado do tronco estava seu irmão Aritana. O grande cacique agora se despedia de seu irmão mais novo. Estava em silêncio, em um tipo de comunicação não verbal e, de longe, enquanto a aldeia começava a se agitar, fiquei observando e admirando essa relação tão profunda e tão bonita da espiritualidade xinguana.

Carregar troncos é parte da cerimônia de despedida no Alto Xingu (Foto: Feliz Milanez)

Pensei se Aritana dialogava com seu irmão sobre o que o pai Kanato lhes ensinou ou se agora Kanato e Pirakuman estavam juntos, o árduo trabalho que tiveram para construir a aldeia e reconstruir o povo Yawalapiti, as vitórias nas lutas de huka-huka, o mundo que mudou tanto com a chegada das grandes fazendas a partir da invasão organizada pela ditadura nos anos 1970, e pensei em muitas outras coisas que um jovem branco como eu pode imaginar, mas que dificilmente seriam as que estariam naquele diálogo espiritual dos dois irmãos.

Parei de pensar e apenas admirei quando Aritana pediu para uma mulher despejar sobre a fogueira uma água envolta em ervas, e pediu para um homem cavar um buraco para enterrar as cinzas da fogueira. Imagino que tenha sido nesse momento que o espírito de Pirakuman subiu.

Do luto à luta

Depois de muita tristeza, o dia amanhece agitado para a competição de huka-huka, a luta tradicional do Alto Xingu. Afukaka, cacique do povo Kuikuro, explicou que é assim: tristeza, muita tristeza até não aguentar mais, e depois a luta e a diplomacia para animar e ajudar a pensar no futuro e encarar a vida.

E nessa competição da luta quem brilhou foi o jovem Roque Kamaiurá, um gigante musculoso que venceu todas as lutas nessa temporada e caminha para ser o grande campeão, tal como foi seu avô Takuman, e como eram Aritana e Afukaka quando jovens.

Logo cedo fui ao acampamento dos kuikuro dar um abraço nos amigos e desejar boa luta. Ali eles se pintavam, e alguns jovens intelectuais decidiram pintar em seus corpos um protesto contra o governo Temer. Como nesse Kuarup estavam representantes do mundo todo e pessoas da imprensa, queriam que todos soubessem que eles são contra o governo que derrubou Dilma Rousseff em um golpe.

Não que fossem a favor de Dilma também. Mas para esses jovens Kuikuro, eu interpreto, esse também seria um recado de que hoje o mundo mudou, e eles estão em luta por autonomia para serem protagonistas de sua história.

Lá estavam presentes também o filho do sertanista Orlando Villas-Bôas, Noel, filiado ao PSDB paulista e que articulava uma indicação para a presidência da Funai. Ele esteve andando pela região junto do neto do sertanista Chico Meireles, que vive pendurado em um cargo na Funai há mais de uma década, e do filho do cineasta Glauber Rocha, em uma “expedição hereditária” paga com recursos públicos para arregimentar apoio para indicação de Noel.

Conseguiram com o velho cacique Raoni, mas tiveram as portas fechadas com os Kisedje (Suyá) e os Ikpeng (Txicão). Viram os Xavantes explicar aos três que, hoje em dia, qualquer consulta entre eles é coisa séria e que estão fora de politicagem, pedindo para que se retirassem da aldeia.

Protesto

Jamaluí é um dos jovens Kuikuro que pintou em seu corpo um gigante “Fora Temer”. Esse desenho da palavra na pele marca a revolta contra a violência do golpe político e serve como um grito por autonomia e dignidade dos povos indígenas.

Ainda no acampamento, ele me disse que já que havia muitos brancos (gente da imprensa) ali, então queria que essa mensagem de revolta circulasse o mundo. “Já que tem tanto branco no Kuarup, quero que saibam o que a gente pensa, que sou contra esse governo golpista”.

Jamaluí está escrevendo, com ajuda do antropólogo Carlos Fausto, uma fascinante biografia do seu avô Nahum. A garra e a dedicação que ele tem direcionado à pesquisa é impressionante: rodou de moto até o povo Bakairi 500 km para entrevistar uma velha senhora que conviveu com o avô, revirou arquivos do Museu do Índio, e espera uma bolsa da Capes.

Nahum foi a pessoa fundamental para a construção política do Alto Xingu para os Kuikuro, o primeiro a falar português e quem conseguiu articular politicamente os povos e servir de intérprete para Orlando Villas-Bôas.

Nesse sentido, se fosse para que alguma herança “genética indigenista” (o que quer que isso seja) fosse requisito para cargo na Funai, melhor então que um neto de Nahum, como Jamaluí ou seu brilhante irmão Mutuá, assumissem a presidência da Funai.

Os Yawalapiti devem passar por momentos difíceis nos próximos meses e anos (Foto: Felipe Milanez)

“Mas a gente sabe que não é assim”, disse Mutuá, que é professor. “Política se aprende e é duro, eu mesmo estudei muito”, falou o mestre em linguística pelo Museu Nacional na UFRJ, que hoje disputa uma vaga de vereador em Gaúcha do Norte, em Mato Grosso.

Pena que os brancos descendentes de grandes sertanistas ainda pensem que a luta junto dos povos indígenas vem pelo sangue, e não pelas ideias. Deveriam aprender, como seus antepassados, a ouvir os índios.

A reconstrução

Os Yawalapiti devem passar por momentos difíceis nos próximos meses e anos. Como a viúva de Pirakuman, Iamoni, é do povo Mehinaku, eles estão montando outra aldeia por uma decisão tomada pelas lideranças do povo de que ela deveria sair. Kanato, Watatakalu, Ana Terra e Kaíke conseguiram herdar a maior herança de seu pai: o aprendizado da luta e da diplomacia.

Não pelo sangue, como acham alguns brancos que querem se aproveitar da mentalidade colonialista que persiste no Brasil, mas pelos ensinamentos, conversas, convívio, cantos, danças. É por isso, pela política e a diplomacia que eu também aprendi com Pira , que ao final do Kuarup é hora de olhar para a frente e encarar a vida com força e luta.

Desejo toda força para o povo Yawalapiti, Aritana e a família de Pirakuman, para seguirem firme junto dos povos indígenas do Xingu e do Brasil e enfrentarem de forma altiva o período tão sombrio que se anuncia contra seus direitos, territórios, vidas e espiritualidades. 

***

Resposta de Henrique Cavalleiro

Senhor Felipe Milanez,

Sempre o considerei um bom jornalista, verdadeiramente comprometido com os povos indígenas, desde os tempos em que nos conhecemos. Eu trabalhava no PPTAL e você na Comunicação Social da Funai (Revista Brasil Indígena).  

Lembro de que quando saí da Funai, em 2013, por graves divergências com a então gestão do órgão, você me prestou solidariedade...e sempre fui grato. E quando nos encontramos há uma semana no Kuarup dos Yawalapiti, conversamos amistosamente, você me falou sobre seu trabalho na Universidade de Coimbra sobre "descolonização" e a possibilidade de uma parceria com as ações da Funai ligadas aos processos educativos comunitários, justamente fora do modelo colonial de ensino escolar ofertado aos índios por Estados e Municípios. 

Mas eis que agora fui surpreendido com sua matéria na CartaCapital, sobre o Kuarup, na qual você me acusa de ter feito parte de uma "expedição hereditária", custeada com dinheiro público, fazendo campanha, junto com Hugo Meireles, para que Noel Villas Boas seja presidente da Funai. Aliás, quando quiser me criticar novamente (da forma falsa como fez agora), fique à vontade mas não use mais o nome de meu pai. Ele era cineasta e não indigenista. E morreu há mais de trinta anos. 

Você afirmou ainda que nós fomos retirados da Terra Indígena Pimentel Barbosa pelos índios Xavante pois estávamos fazendo campanha política. 

Tive que ler a matéria duas vezes para ter certeza de que você realmente escreveu aquilo. Para não duvidar de seu caráter, prefiro pensar que você foi acometido de algum delírio tropical que o fez perder a noção da realidade e viajar na maionese. 

Vamos por partes:

- Eu e todos os servidores da Funai que fizeram parte da equipe (inclusive Noel, como colaborador) estávamos lá atendendo à solicitação dos índios e à determinação do presidente do órgão, o mesmo que você elogia na matéria, para ajudar a controlar o comportamento dos turistas e demais visitantes presentes. 

- Enquanto você curtia o Kuarup, nós estávamos às voltas com fotógrafos desrespeitosos que invadiam a privacidade dos índios, gringos abusados (aliás com mentalidade "colonizadora") e outros problemas que ocorriam no entorno do ritual.

- Quanto a ter sido expulsos da aldeia Pimentel Barbosa, de onde você tirou tal informação totalmente falsa? O que ocorreu foi justamente o oposto, os caciques nos receberam com grande respeito e amizade. Ajudo na implementação de um projeto lá desde 2010. Te desafio a provar que os caciques Tsupitó e Jurandir nos destrataram de alguma forma.

- Por fim, quem indicou ao governo o nome do Noel Villas Boas para a presidência da Funai foi o cacique Raoni, a liderança indígena mais renomada do país, conhecido internacionalmente. Raoni seria então cúmplice do governo golpista? Francamente, que leitura primária e tosca é essa? E que poder você me atribui para articular candidaturas à presidência da Funai? Faço sim sugestões como servidor do estado brasileiro e indigenista. E continuarei fazendo, sempre que for solicitado, independente do jogo de poder medíocre, contraditório e hipócrita do atual cenário político nacional.

Enfim, não acredito que sua vaidade te permita reconhecer o grave erro que cometeu, mas se quiser pedir desculpas públicas, sou até capaz de aceitá-las. Quero crer que você tem salvação. 

Att
Henrique Cavalleiro
Geógrafo e Indigenista

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Nota da redação:

O colunista lamenta os ataques pessoais feitos por Henrique Cavalleiro e mantém todas as informações publicadas no texto.

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