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Se beber, não engravide

por Redação Carta Capital — publicado 12/11/2012 09h17, última modificação 12/11/2012 09h17
Em uma pequena cidade dos EUA, mulheres compram testes de gravidez no bar
testepost

Segundo o criador, o objetivo é evitar a Síndrome Alcóolica Fetal. Os testes custam apenas 3 dólares e basta passar um cartão de crédito

por Denise Mota

Quem nunca trocou uma caipirinha por uma inofensiva limonada diante da mais ínfima possibilidade de estar grávida que atire o primeiro cubo de gelo. Para atender as mulheres nesse segundo crucial, que pode transformar um simples happy hour em horas ou dias de preocupação, e também para oferecer um serviço essencial da forma mais discreta possível, um bar em Minnesota instalou uma máquina que vende testes de gravidez.

Na parede do banheiro feminino, o aparelho, que funciona no Pub 500, no centro da cidade de Mankato, especializado em fish & chips e com 80 exemplares de cervejas de vários cantos do mundo, é o primeiro a ser oferecido em um bar dos -Estados -Unidos e do mundo, segundo seu idealizador. O teste é vendido por 3 dólares e a máquina funciona pelo simples contato da tarja magnética de um cartão de crédito.

A comodidade e, especialmente, o sigilo oferecidos pelo dispositivo, que vende um entre os dez produtos farmacêuticos mais roubados nos estabelecimentos comerciais norte-americanos, de acordo com uma pesquisa divulgada há três meses pela Federação Nacional do Varejo, são os dois fatores mais festejados pela comunidade feminina local. Para Jody Allen Crowe, o inventor, há uma razão a mais: o teste pode evitar a Síndrome Alcoólica Fetal.

Aos 56 anos, Crowe, educador especializado em Administração Escolar, é o fundador da Healthy Brains for Children (Cérebros Saudáveis para as Crianças), organização sem fins lucrativos que trabalha para informar e estimular o debate sobre maneiras de diminuir ou eliminar a exposição pré-natal ao álcool.

Nenhuma iniciativa anterior da entidade ganhou tanta repercussão como o teste vendido em bar, que deve ser reproduzido em estabelecimentos de outras cidades dos EUA e também do Canadá.

Decorado com um vaso de plantas, em tons de rosa e branco, e ao lado de uma fileira de espelhos iluminados, o dispositivo é apenas um elemento a mais – e não uma espécie de “confissão de culpa” – na decoração do Pub 500, bar de classe média arrumadinho, mas nada careta, instalado nas proximidades da Universidade de Minnesota.

Entre acordes de música ao vivo e sanduíches, outra especialidade da casa, o cardápio oferece quase a mesma quantidade de comida e álcool. Destaque para o screwdriver “elétrico”, drink à base dos clássicos vodca e suco de laranja, com a -adição de uma dose nada desprezível de Red Bull. “Se você não despertar depois disso, tente dormir à noite”, brinca o bartender. Nas mesas, universitários se misturam a executivos de grandes empresas, famílias estão ao lado de animados grupos de solteiros. “A faixa etária aqui é extensa, o que é grande parte da diversão deste lugar”, descreve Tom Frederick, dono do boteco.

A ideia de instalar uma máquina de testes de gravidez pareceu estranha no começo, diz Frederick. Mas os propósitos de Crowe e o apoio imediato de sua mulher, enfermeira, fizeram com que o proprietário do pub decidisse dar uma chance ao invento.

“A reação por aqui tem sido muito positiva. E vem de gente de setores muito diferentes, de educadores a profissionais de saúde, de gente de negócios a estudantes. Recebemos até ligações anônimas em que nos agradecem por instalar o aparelho.”

Os benefícios do serviço não são, obviamente, uma unanimidade. Há frequentadores que dizem ser inútil a existência de um teste de gravidez em um bar, por ser um lugar no qual, em tese, a habitué já deveria pisar sabendo se pode ou não escolher entre as alternativas etílicas do cardápio. Também há os que acreditam ser mais útil uma máquina que venda preservativos.

Para Crowe, autor do livro The Fatal Link (de 2008, em que relaciona violência escolar e exposição pré-natal ao -álcool) e educador premiado pelo ex-presidente norte-americano Bill Clinton em 1995 e pela Universidade Harvard, entre outras láureas, o debate é bem-vindo. A máquina é a parte visível da campanha Think Before You Drink (Pense Antes de Beber), de sua organização, e, segundo conta, a Healthy Brains for Children recebeu pedidos para exportar o aparelho para o Canadá, África do Sul, Paraguai, Belize e Rússia.

“Quando fizemos um estudo de mercado e entrevistamos mulheres sobre o uso de testes de gravidez, ouvimos muitas histórias sobre quando eram adolescentes e ficavam desesperadas para comprar esse tipo de produto sem que ninguém soubesse. A poucos dias da estreia da máquina, o bar recebeu a ligação de uma garota de 14 anos que queria saber sobre os horários de funcionamento do bar. Frederick atendeu o telefone e percebeu que o que a garota queria saber, na verdade, era a que horas poderia comprar o teste.”

Nos primeiros meses de funcionamento, menos de uma dúzia de testes foram vendidos, o que, segundo Crowe, não influencia os planos da organização nem seu impacto. “Não estamos preocupados com a quantidade, e sim com o fato de um teste poder mudar a vida de um bebê gerado em uma gravidez não planejada”, afirma o educador, que tem três filhos, dois netos e está casado há décadas com uma descendente de alemães que adora cerveja.

Nos próximos meses, uma centena de aparelhos deve começar a funcionar em centros universitários, academias de ginástica, postos de gasolina e -shoppings da área metropolitana de Minnesota (em Minneapolis e Saint Paul). Em breve, máquinas devem ser instaladas também nos estados de Nova York e Flórida.

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