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Sociedade

Incêndio na boate

Santa Maria é aqui

por Matheus Pichonelli publicado 29/01/2013 16h22, última modificação 06/06/2015 18h25
O mapeamento dos erros que levaram à tragédia expõe as omissões guardadas sob os tapetes de todo o País

“Vou te dizer. Se acontecesse alguma coisa parecida na festa de sábado eu já estaria morta”. Ouvi a frase durante o almoço ainda na segunda-feira 28. Minha amiga não estava em Santa Maria. Estava em São Paulo, em uma badalada casa noturna da zona oeste.

Àquela altura, estavam praticamente mapeados todos os fatores que levaram à morte de 234 pessoas, a maioria jovens universitários, e deixou outros 118 feridos – mais de 70 ainda em estado crítico – no município gaúcho. Dois empresários e dois músicos da banda estavam detidos. Não tardou apara se descobrir que a boate Kiss não tinha alvará de funcionamento e o auto de vistoria do Corpo de Bombeiros estava vencido. Havia apenas uma porta de saída, quando, por suas dimensões, deveria ter duas. A comunicação entre os funcionários era falha – há relatos de que, sem saber o que acontecia, seguranças barravam a passagem das pessoas a fugir do fogo. A festa tinha mais gente do que sua capacidade. Por fim, com materiais inflamáveis no teto, a casa não poderia receber um show de fogos, a atração da banda da noite.

Não é difícil, portanto, explicar o que aconteceu em Santa Maria. Há indícios de negligência em cada canto. Difícil é pensar o quanto seria simples evitar tragédias do tipo. E que a receita para a tragédia não era exclusiva da Kiss (Dia desses, conta a mesma amiga, um garçom cruzou os corredores de uma casa noturna com uma garrafa de champanhe envolta de “cones faiscantes” para brindar um aniversariante. Algum santo protetor impediu que o mimo esbarrasse em material inflamável).

O incêndio em Santa Maria abriu uma caixa de pandora que só agora parece óbvia: corremos riscos o tempo todo. E a sensação de justiça proclamada contra os responsáveis diretos e indiretos pelo episódio não servirá para purgar acidentes evitáveis Brasil afora – não só em casas noturnas.

Ainda assim, quem resolveu levantar o tapete para onde foram levadas as lacunas jurídicas e anos de omissão esbarrou numa série de dificuldades para traçar um panorama exato sobre o despreparo de empresas e do poder público para garantir que tantas vidas não sejam novamente ceifadas com tanta facilidade.

Como a transparência, nesses casos, é artigo de luxo, fica difícil descobrir onde os problemas começam. Só como terminam.

Empresários reclamam do excesso de burocracia e condicionantes para operar na legalidade. Em São Paulo, onde a prefeitura hoje garante que uma boate como a Kiss não funcionaria em razão da legislação, o responsável por liberar licenciamentos até pouco tempo atrás foi denunciado por supostamente receber propina para aprovar empreendimentos suspeitos. Ele acumulou durante anos um patrimônio incompatível com a sua renda.

A lei, portanto, parece ser o menor dos problemas.

Na maior cidade do País há apenas 19 funcionários da prefeitura responsáveis por fiscalizar a aplicação das normas em cerca de 500 estabelecimentos de grande porte. Mais: não existe em lugar nenhum um sistema de monitoramento para saber se o local frequentado está adequado. Se tiver boa vontade, o dono do estabelecimento pode afixar o documento em lugar visível. Mas só se tiver boa vontade.

As atenções sobre o assunto, de toda forma, parecem ter despertado uma espécie de espírito vigilante: graças aos jornais, sabemos, por exemplo, que a distância máxima a ser percorrida até um extintor não deve ultrapassar 20 metros; que a distância máxima até a saída deve ser de 68 metros se houver chuveiros e de 45 metros se não houver chuveiros. Ta,bém aprendemos a desconfiar de quem confina clientes sem garantir ao mesmo uma porta a mais para a saída.

Até domingo pela manhã, dificilmente estas regras e números estariam em destaque.

Por aqui as coisas são assim: parecemos sempre pegos pelo despreparo e acordados aos sobressaltos de uma profunda letargia. Sabemos que vai chover em janeiro e que há construções em áreas de risco, mas só lembramos de resolver o problema quando o deslizamento já ocorreu. Não há mapeamento, não há cultura da prevenção. Não prestamos sequer atenção quando uma voz em off acompanha os desenhos sobre os pontos com saídas desobstruídas e barras antipânico do cinema.

Por este motivo, chama a atenção, em casos de comoção desta magnitude, a profusão de especialistas de todos os matizes para vender explicações possíveis para evitar no futuro a tragédia não evitada ontem (é assim em acidentes aéreos, desastres naturais e em grandes incêndios). Dessa vez as assessorias de imprensa foram ágeis em tentar emplacar suas pautas. Uns usaram o gancho para pedir a divulgação de um curso sobre atendimento médico. Outros, para oferecer contato de advogados dispostos a falar sobre as implicações civis, penais e administrativas que os donos da boate e até da Prefeitura de Santa Maria poderiam responder. Outro articulista oferecido perguntava: imagina na Copa?

Até mesmo um gestor de empresa de radiocomunicação enviou artigo para dizer que o uso desses equipamentos poderia ter mitigado a tragédia. Tudo para concluir: “será que Deus é mesmo brasileiro?”

Há dúvidas, caro especialista de radiocomunicação. Há muitas dúvidas.

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