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Ronaldinho e Flamengo: quem perde mais?

por Matheus Pichonelli publicado 31/05/2012 16h48, última modificação 31/05/2012 22h13
R10 sai menor do Flamengo, e o clube fica menor após passagem do (ex?) craque
Ronaldinho Gaúcho

Fim da linha para Ronaldinho Gaúcho. Fotos: Alexandre Vidal/FlaImagem

Dias atrás, o time sub-20 do Flamengo goleou o Friburguense no estadual da categoria por 11 a 0. Ao saber do resultado, um amigo flamenguista comentou: “bom, se fosse o time profissional, seria 11 a 11”.

A irritação tinha sentido. O Flamengo dos últimos jogos se notabilizou por entregar de mão beijada aos adversários vitórias que mudariam a história recente do clube. Bastava segurar o resultado contra o Olimpia para o time ao menos passar de fase na Libertadores. O jogo estava 3 a 0. Acabou 3 a 3.

Foi o mesmo placar do empate contra o Inter em pleno Engenhão na semana passada, quando a equipe vencia por 3 a 1 e cedeu o empate.

Ronaldinho fez gols nos dois jogos. No último, saiu sob vaias depois de perder uma bola que originou o terceiro gol do time gaúcho.

Triste fim para um atleta que ganhou status de ídolo antes mesmo de entrar em campo. Nesta quinta-feira 31, a advogada do atleta, Gislaine Nunes, anunciou que Ronaldinho não joga mais pelo Flamengo.

O anúncio acontece numa semana em que o atacante faltou aos treinos e ficou de fora de uma viagem com o time para o Piauí, onde disputaria um amistoso. Ronaldinho deixou o clube de lado para cuidar da mãe, que acabara de passar por cirurgia para retirada de um tumor.

O drama pessoal não segurou a bronca da direção flamenguista, expressa por seu vice-presidente de futebol Paulo Cesar Coutinho. Irritado porque, segundo ele, Ronaldinho não atendeu telefonemas durante a semana, o dirigente disparou: “O Flamengo tem cem anos. E o Ronaldinho não joga porra nenhuma”.

Seria o suficiente para incitar a torcida rubro-negra contra o ex-melhor jogador do mundo. A opção era uma só: sair por baixo.

O caso deixa em aberto uma série de perguntas sobre o futuro do (ex?) craque. Por exemplo: depois do Flamengo, para onde vai o astro? Alguém assumirá o risco? Ele voltará a jogar um dia o que já jogou? A saída do Flamengo vai sepultar de vez o projeto para as Olimpíadas?

Mais: depois dessa, vai ter clube com atenções redobradas antes de fazer esforços homéricos para repatriar astros da Europa.

Em 2009, o Corinthians arriscou muita ficha para ter Ronaldo Fenômeno. Mesmo fora de forma, o atacante liderou o time nas conquistas do Paulista e da Copa do Brasil naquele ano; fez gols importantes sobre os rivais Palmeiras, Santos e São Paulo e se aposentou jurando amores pelo clube. Aos 45 minutos do segundo tempo da brilhante carreira, conseguiu um título que ainda não tinha: o de ídolo de um clube brasileiro. E fez com que o mundo prestasse atenção no time paulista, que virou um chamariz de marketing e publicidade que até hoje rende frutos. Tudo isso, vale lembrar, com o astro longe do peso ideal. A imagem falava mais do que os pés.

Bem diferente do que acontece na parceria entre Flamengo e Ronaldinho Gaúcho, marcada por atuações apagadas, desentendimentos, promessas não cumpridas, troca de farpas em público e, agora, cobrança de dívidas milionárias (fala-se em 40 milhões de reais, fora o prejuízo para os dois lados).

O resultado é que o craque sai menor do Flamengo, e o Flamengo ficou menor após Ronaldinho – as lambanças da direção e os atrasos salariais servirão como vacina para afastar futuras estrelas da Gávea.

Nem Adriano conseguiu tanto ao ser resgatado e, mais tarde, rejeitado pelo Corinthians. Teve pelo menos a gentileza de fazer um gol no Brasileiro que catapultou o título (antes ainda, teve boas passagens por São Paulo e Flamengo, time pelo qual ganhou o Brasileiro de 2009). Romário, por muito menos, fez muito mais: repatriado no auge da forma pelo mesmo Flamengo, foi campeão e ídolo da Gávea e dos clubes por onde passou.

Aos 32 anos, Ronaldinho não está distante da forma ideal e ainda tem espasmos de bom futebol, como quando arrasou quase sozinho o Santos na memorável virada por 5 a 4 em plena Vila Belmiro, no ano passado. Até Neymar tirou o chapéu. Àquela altura, o R10 era um dos melhores jogadores em atividade no País e parecia nome certo pra a Bola de Ouro da Placar.

De repente parou.

O time naufragou com ele ou ele naufragou com o time?

Nunca vamos saber – nem deixar de lamentar. O menino que apareceu para o mundo dando chapéu e elástico em que aparecesse em sua frente (na seleção, no Grêmio ou no Barcelona) ficou velho e virou bad boy. Ganhou fama de irresponsável e milionário excêntrico que trocou a bola pelas festas.

Não tem espaço para ele na galeria de ídolos expostos no site oficial do clube que homenageia, entre outros, Fábio Luciano e Geraldo Assoviador (aliás, quem entrasse no site do clube veria que ele já não é sequer citado como jogador do elenco atual). Não é birra alvinegra: Ronaldinho também não receberia sorrisos gremistas se um dia visitasse o Olimpico.

É fato que o futebol brasileiro já tratou melhor seus ídolos. Mas também já foi mais bem tratado por eles.

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