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Rio 2016 vence cronograma, mas não a desconfiança

por Deutsche Welle publicado 27/04/2016 09h58
Tragédia em ciclovia elevou pessimismo e reforçou a sensação de impunidade entre a população, já cética com a classe política
Fernando Frazão/Agência Brasil/Fotos Públicas
Ciclovia

A percepção geral no Rio de Janeiro é de que foram feitas “de qualquer jeito” e que podem ter envolvido irregularidades.

Nas ruas do Rio de Janeiro, o assunto é um só: a crise política. E a tragédia na Ciclovia Tim Maia, que deixou dois mortos, veio agravar o clima de pessimismo e sedimentar a sensação de impunidade entre a população. A cidade, que dentro de cem dias sedia o maior evento esportivo do planeta, não parece tocada pelo espírito olímpico. Nada de verde e amarelo, de bandeirolas pinturas nas ruas – como se viu antes da Copa do Mundo.

Claro que futebol é a grande paixão nacional. Mas, de forma geral, esperava-se mais entusiasmo com os primeiros Jogos Olímpicos na América do Sul. Os eventos recentes em Brasília mobilizaram os ânimos da população de tal forma que eclipsaram totalmente o clima festivo que se esperava já reinar na cidade. O clima, na verdade, anda mais para funesto.

A queda, na semana passada, da ciclovia da Avenida Niemeyer – um dos legados olímpicos, inaugurado há apenas três meses – deixou expostas, em um dos cartões-postais da cidade, as entranhas de um processo de licitação e construção que suscita muitas dúvidas na população.

Embora as obras estejam dentro do cronograma e praticamente concluídas, a percepção geral é de que foram feitas “de qualquer jeito” e que podem ter envolvido irregularidades.

É o que revela, pelo menos, um levantamento realizado a cada dois anos pelo Movimento Rio Como Vamos – uma organização de moradores da capital fluminense que cobra das autoridades a boa governança e pretende estimular a sociedade a se comprometer mais com melhorias sociais, econômicas e estruturais para a cidade.

Muito antes da queda da ciclovia, no fim do ano passado, a última pesquisa feita pelo grupo, com 1,5 mil pessoas, já mostrava que “o desvio e a má gestão dos recursos públicos” nas obras era uma preocupação de praticamente a metade da população da cidade (48%) – em 2013, o percentual era bem menor, de 25%.

“Os números mostram que os efeitos do cenário nacional recaíram sobre a cidade, que há uma preocupação sobre como são utilizados os recursos públicos, que a discussão sobre corrupção alcança o Brasil todo”, afirma a coordenadora executiva do movimento, Thereza Lobo.

Outra pesquisa, também feita no fim do ano passado e divulgada no início deste ano, desta vez pela Unicarioca, já apontava para o mesmo problema: 62% dos entrevistados afirmavam ter a sensação de que as obras eram feitas “às pressas e sem planejamento”.

“Ou seja, já existia esse ceticismo antes mesmo da queda da ciclovia”, constata o coordenador do Laboratório de Práticas de Pesquisas da Unicarioca, Jalme da Silva Pereira, especializado em marketing e psicologia social. "Vamos refazer o levantamento agora em maio, mas, como todas as influências políticas de Brasília e a queda da ciclovia, a sensação de insegurança deve ter piorado."

Sensação que só pode ter piorado ainda mais com a divulgação de que o consórcio responsável pela construção da ciclovia teve quase metade dos contratos firmados com a Prefeitura do Rio com dispensa de concorrência, sob o argumento de que seriam realizadas “obras emergenciais”.

Como se não bastasse, a empresa pertence à família do secretário municipal de Turismo, Antônio Pedro Figueira de Melo. Em nota distribuída à imprensa, Melo afirmou que a empresa foi fundada por seu avô, há 60 anos, e que não possui participação nos negócios.

Recentemente, o presidente do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, Pedro Celestino Pereira, levantou ainda outra questão crucial: desde 2011, a pretexto de agilizar as obras necessárias para a Copa e as Olimpíadas, os processos licitatórios para obras públicas foram simplificados.

Desde então, o mesmo grupo que faz o projeto pode executar a obra, e parte da fiscalização foi banida. Isso poderia estar por trás do desabamento da ciclovia, por exemplo.

O presidente da Empresa Olímpica Municipal, Joaquim Monteiro, não quis comentar diretamente a questão da queda da ciclovia: “É impossível uma sede olímpica não lidar com problemas durante a organização do evento”, se limitou a dizer, em entrevista por e-mail.

Segundo ele, a crise política não vai tirar o brilho dos Jogos: “Nosso foco agora é na organização da cidade no período olímpico e paralímpico. As obras estão todas dentro do prazo, a maioria das arenas esportivas já foi entregue para o Comitê Organizador e testada. Estamos na reta final de uma edição dos Jogos, que, temos certeza, vai entrar para a história.”

O antropólogo Roberto DaMatta discorda: “Uma coisa é certa: o espírito olímpico neste momento está para lá de rarefeito.” Para ele, além da preferência do brasileiro pelos esportes coletivos em geral, e o futebol em particular, o ambiente psicológico atual é ruim para a realização do evento, com um clima de depressão coletiva, frustração e decepção diante das denúncias de corrupção.

“Ninguém acreditava que as obras ficariam prontas a tempo”, diz o antropólogo. “Aí eles conseguem fazer uma coisa moderna, bacana, uma ciclovia na Niemeyer. Mas aí essa ciclovia é destruída”, ressalta o antropólogo.

Embora ainda não haja um laudo oficial sobre a queda da ciclovia, engenheiros tendem a concordar com o antropólogo. Para especialistas, deveria ter sido feito um estudo para avaliar os riscos da ação das ondas sobre a estrutura.

“Aquela região é muito conhecida, a Avenida Niemeyer foi construída em 1916, há cem anos”, constata o professor de engenharia costeira da Coppe (o Instituto de Pós-graduação e Pesquisa em Engenharia da UFRJ) Paulo César Rosman. “De acordo com as informações preliminares, a construção da ciclovia não levou em consideração que há ondas mais fortes em determinados trechos."

A Policia Civil do Rio abriu inquérito por homicídio culposo (sem intenção de matar). Na última segunda-feira, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, garantiu que pretende identificar e punir os responsáveis pelo desabamento. Ele afirmou ainda que a faixa será reconstruída a tempo para os Jogos. Resta saber se a confiança da população será restituída a tempo da festa olímpica.

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