Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Respeito é bom

Sociedade

Crônica do Menalton

Respeito é bom

por Menalton Braff publicado 08/07/2016 03h59
Dizer que o atraso é uma das características do brasileiro não homologa nem justifica o mau costume
frankileon/Flickr
Relógio

Quem já não esperou por uma hora além da hora marcada em um consultório médico?

Se considero o tempo dos outros tão importante quanto o meu, isso significa que aprendi a respeitar meus semelhantes. E o respeito é uma das virtudes conquistadas pela civilização.

Desde Charles De Gaulle, aquele gigante francês, sabemos que o europeu não nos considera um povo muito sério. E rimos disso como se tivéssemos sete anos de idade e estivéssemos brincando num parque de diversões, ou num desfile carnavalesco. Eles, os europeus, também riem de nós, mas não gosto nem um pouquinho do sorriso deles, que me parece de mofa, de alguém que ri olhando pra baixo.

Espero ter crédito suficiente no que digo para não me cobrarem os nomes, mas outro dia um adido comercial esteve em certa cidade interessada em intercâmbio comercial com seu país.

Ele esperou mais de meia hora praticamente sozinho em um auditório, até que finalmente começaram a chegar os brasileiros que pretendiam negociar com o país do visitante.

Enfim, seus commodities (brasileiros) poderiam muito bem casar com artefatos tecnológicos que o adido podia oferecer. Era só uma questão de simples arranjos.

Em sua intervenção, o adido informou que para negociar com países da Europa era necessário aprender questões elementares de boa educação, entre as quais a pontualidade.

A plateia, de brasileiros exemplares, achou que o estrangeiro estava extrapolando suas funções, irritou-se, não perguntou nada e o negócio não andou pra frente.

Não adianta vociferarmos contra estrangeiros que vêm à nossa terra e se metem a nos dar lições. É realmente uma coisa detestável, uma atitude extremamente antipática por parte deles, mas, se agimos como crianças, que tratamento deles deveríamos esperar?

Um dia desses sentei ao lado de uma jovem peruana, que fazia turismo no Brasil. Não me lembro por que, pois não é costume meu, começamos a conversar. Ela, principalmente, parecia muito necessitada de um desabafo. Disse ter adorado o Rio de Janeiro, principalmente as praias e a natureza em geral. Elogiou bastante a geografia. E então veio com sua severa observação: mas o povo, o povo todo, parece não ter a menor noção de relógio.

Também já passei por muitos transtornos causados por querer respeitar o tempo dos outros. Quem já não esperou por uma hora além da hora marcada em um consultório médico? Já vi coisas que me fazem ter certeza de que muitas vezes o atraso nada tem a ver com emergências, e muitas vezes são questões banais.

Dizer que o atraso é uma das características do brasileiro não homologa nem justifica o mau costume. Aceitar tranquilamente a falta de respeito como natural, coloca-nos entre os seres naturais, aqueles que é preciso ainda civilizar.