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Prezado amigo Afonsinho

por Redação Carta Capital — publicado 30/04/2012 11h35, última modificação 30/04/2012 11h43
O ex-craque, também doutor, substitui Sócrates em CartaCapital
afonsinho

Marco. Ao lutar pelo passe livre em plena ditadura, ele mostrou que o jogador de futebol não era uma simples mercadoria

por Francisco Alves Filho

Para quem se inspira no futebol atual, coalhado de craques tão milionários quanto alienados, pode ser incompreensível a trajetória do ex-jogador Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho. Apesar do estilo de jogo refinado e toque de bola impecável exibidos em grandes clubes brasileiros (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Santos, entre outros), Afonsinho ficou conhecido por ter sido o pioneiro na luta pelo passe livre. Isso em pleno ano de 1971, com a ditadura a todo vapor. No Botafogo, primeiro liderou os companheiros de time em uma campanha pelo pagamento de prêmios atrasados. Algum tempo depois, foi impedido pela diretoria alvinegra de jogar enquanto mantivesse o visual “subversivo”: cabelo comprido e barba. Indignado com a arbitrariedade, entrou na Justiça em busca do passe livre. E ganhou. Sua atitude abriu caminho para outros jogadores lutarem por direitos trabalhistas e mereceu de Gilberto Gil a música Meio de Campo (Prezado Amigo Afonsinho, eu continuo aqui mesmo..., diz a primeira frase). A partir de maio, Afonsinho assumirá a coluna Pênalti em -CartaCapital, espaço ocupado por mais de uma década por Sócrates, morto em dezembro passado. Há muita semelhança entre os dois craques: ambos cursaram Medicina, eram amigos e usaram o futebol como instrumento de defesa da cidadania. “Sócrates tinha posições bem claras. Sou mais intuitivo”, compara o ex-jogador de 65 anos, que se diz profundamente honrado em substituir o “Doutor” nas -páginas da revista.

CartaCapital: É possível fazer uma relação entre o seu jeito de escrever e aquele do Sócrates?
Afonsinho: O Sócrates -rapidamente chegava a uma apreciação -profunda, parece que via em raio X. Em todos os momentos da vida se mostrava bem definido, como seu estilo de jogo. O futebol dele era retilíneo, até o corpo tinha ângulos agudos. Tanto no campo quanto na vida, Sócrates tinha posições bem claras. Eu sou mais sensível que inteligente, sou mais de sacar -coisas do que aprofundar um -raciocínio, mais intuitivo.

CC: Acompanhou de perto a Democracia Corintiana?
Afonsinho: Sim. Foi um movimento vitorioso também dentro de campo. Então, ninguém pode contestar. No futebol, o resultado é determinante. Quando se ganha, muita coisa errada passa e na derrota mesmo o que está certo vai por água abaixo. Ficou provado: é possível organizar os jogadores de forma diferente e ganhar os jogos. Foi um marco, algo extraordinário não só para o futebol, mas também para a sociedade.

CC: Há um paralelo entre a Democracia Corintiana e a sua luta pelo passe livre?
Afonsinho: A minha atitude em relação ao passe tinha a ver com a situação política do momento. Aquelas discussões tiveram importância porque era tudo fechado, então foi uma oportunidade de se abrir um espaço de debate. Aquilo tomou um vulto muito grande. Chegou ao ponto de as dondocas da sociedade discutirem o que achavam de um jogador usar barba e cabelo grande.

CC: O senhor já tinha participação política, não é?
Afonsinho: Estava na faculdade de Medicina quando o estudante Edson Luiz foi morto. Participei da missa dele. Sempre tive atuação política. Cheguei a participar de uma reunião onde foi discutida abertamente a possibilidade de entrar para a luta armada. Não fui porque eu e alguns outros não tínhamos a menor condição prática de entrar numa dessas.

CC: Como a ditadura mexeu com o futebol?
Afonsinho: O Brasil ganhou a Copa de 70 e depois ficou 24 anos sem ser campeão mundial. Há quem atribua a Jules Rimet ao regime. Para mim, aquela Copa é uma vitória da geração de 58 e 62, a própria formação dos jogadores foi baseada nessas equipes. Ninguém comenta o jejum de mais de duas décadas como consequência da ditadura.

CC: O modelo da CBF ainda tem muito da antiga CBD, não?
Afonsinho: É uma coisa terrível, porque a organização do futebol é medieval. O sistema de ligas, federações e confederações é estruturado dessa forma anacrônica. Isso persiste. Na federação mineira era o coronel Guilherme. Ele saiu ficou o filho. Na Paraíba, saiu o coronel de lá e ficou a mulher. Continua assim.

CC: O que acha do futebol ter se tornado um meganegócio em todo o mundo?
Afonsinho: O volume de dinheiro explodiu, mas à medida que injetam mais recursos no futebol, o espetáculo empobrece. Independentemente do tipo de organização, o clube é a razão de ser, pelos torcedores que mobiliza. Se o cartola vende a camisa de um clube para uma determinada marca, é o torcedor sendo visto como consumidor. E qual a participação dele quando se decide o horário dos jogos, qual emissora vai transmitir, qual a cor da bola? Quando o dirigente vende a transmissão ou a camisa para uma marca de fabricante, está negociando o torcedor. E o cara não tem nenhuma participação ativa nisso.

CC: Isso atrapalhou a essência do esporte?
Afonsinho: A relação dos jogadores com a bola hoje é diferente. O Flamengo passou dez jogos sem vencer uma partida, era como se não estivesse acontecendo nada. No Palmeiras a mesma coisa. Eles parecem não ter mais relação com o jogo em si. É o espírito do neoliberalismo transportado para o campo. Cada atleta é uma empresa, tem relações públicas, administrador... Uma coisa fria. Não se relacionam bem. E a coisa mais linda que existe no futebol é a relação dos jogadores entre si. A maneira como fui tratado por craques como Didi, Nilton Santos, Zizinho, era uma coisa de igual para igual.

CC: O Brasil vai conseguir realizar uma boa Copa em 2014?
Afonsinho: É um momento propício a mutretas. É assim: você aceita as regras e tem a Copa, ou não aceita e não tem a Copa. Optou-se por fazer. O Lula apostou nisso. É preciso então encarar de frente, aprofundar a fiscalização. Essa é uma oportunidade de ter alguns avanços na infraestrutura aeroportuária, transportes. Acho que, obrigatoriamente, vai se melhorar alguma coisa.

CC: E a Seleção Brasileira? Tem chances?
Afonsinho: O Brasil sempre faz um bom time, mas até agora não há nada que justifique grande animação. Dois anos para fazermos uma Seleção de verdade é muito pouco. O que eles fizeram? Por dois anos usaram a Seleção para mostrar, valorizar, negociar jogadores. Foram dois anos de esculhambação, não havia ideia de time para ganhar a Copa. Era algo deliberado. A CBF tem essa estratégia de negócios mesmo, porteira escancarada.

CC: E o Mano Menezes, o que acha dele?
Afonsinho: Ele não foi colocado lá para ficar. Assim como o Dunga também não foi colocado para ficar, mas acabou complicando por ter conquistado a Copa das Confederações. Depois, o ciclo se completou mal.

CC: O que o leitor de CartaCapital pode esperar de suas colunas?
Afonsinho: Posso dizer que vou me colocar de coração, mas vou levar a racionalidade até onde conseguir. Vou manter minha linha mestra de vida: ser coerente.

O documentário Passe Livre discute, entre outros, a importância de Afonsinho para o futebol: