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Por que atletas brasileiros “amarelam” nas Olimpíadas?

por José Antonio Lima publicado 04/08/2012 13h06, última modificação 06/06/2015 18h25
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Fabiana Murer compete no salto com vara neste sábado. Campeã mundial, ela não conseguiu nem chegar à final olímpica. Foto: Franck Fife / AFP

É um erro avaliar como fracasso a participação do Brasil nos Jogos Olímpicos. O que se vê em Londres é reflexo da política esportiva que o País desenvolve. Há que se ponderar, porém, que o Brasil tem sim seus atletas “amarelões”. Alguns simplesmente não conseguem chegar ao auge quando deveriam, os Jogos Olímpicos. Mas por que isso ocorre?

Um dos argumentos contrários ao tênis nas Olimpíadas é o fato de o esporte ter seu auge fora dos Jogos (nos Grand Slams). Contrapõe-se a este argumento a tese de que, nas Olimpíadas, os atletas estão finalmente representando seus países, e não a eles próprios. A semifinal de Londres, na qual Roger Federer e Juan Martin Del Potro saíram claramente emocionados na sexta-feira 3, foi prova disso. O choro de Victoria Azarenka ao conquistar o bronze para a Bielorrússia neste sábado 4 também é. Os três, incluindo o suíço Federer, conhecido por sua frieza, estavam claramente em um estado fora do normal.

Nos Jogos Olímpicos, é também possível verificar como atletas de esportes diferentes e que talvez nem se conheçam fazem parte de uma mesma equipe. Assim, o que um faz pode influenciar os outros. Nesta edição, o time do Reino Unido demorou a engatar medalhas de ouro. As primeiras vieram no dia 2, com as remadoras Helen Glover e Heather Stanning e o ciclista Bradley Wiggins. Veio, então, segundo o Guardian, o “alívio” pelo fim da seca. O presidente do Comitê Organizador, o ex-atleta Sebastian Coe, foi enfático ao comemorar. “Vencer é contagioso”, disse ele.

O óbvio entendimento da frase de Coe é um só: quando saem as primeiras medalhas de ouro de um país, os atletas que competem a seguir, em qualquer esporte, ganham mais confiança. Com segurança para competir, sabe qualquer esportista, a vitória fica mais fácil.

É preciso notar, entretanto, que os atletas britânicos estão preparados para serem campeões olímpicos e que há muitos nesta condição. Isso é fruto da forma como Reino Unido trata o esporte. No caso do Brasil, a coisa muda de figura. Há muitos brasileiros competindo em Londres, mas pouquíssimos em condições de ganhar medalhas. Assim, resultados ruins são comuns, e não poderia ser diferente.

Quando um dos que tem chance de medalha é derrotado, por exemplo Leandro Guilheiro ou Cesar Cielo, o que é perfeitamente comum em competições de alto nível, a confiança de todos fica abalada. Surgem os pedidos de “desculpas” ao povo brasileiro, a “torcida” para que o país consiga medalhas em outras modalidades. A imprensa, que vai em peso aos Jogos e se concentra nos esportistas que têm mais chances, mostra a eles o tamanho da “responsabilidade”. Os atletas menos preparados psicologicamente, como Diego Hypólito no domingo passado e Fabiana Murer neste domingo 4, sucumbem.

Ceder à pressão não é exclusividade dos atletas brasileiros. No judô, o Japão, melhor do mundo no esporte que criou, conseguiu apenas um ouro, desempenho muito abaixo do normal. Na sexta-feira 3, o panamenho Irving Saladino, campeão olímpico do salto em distância, queimou suas três tentativas e nem foi para a final. Os americanos Todd Rogers e Phil Dalhauser, campeões no vôlei de praia, caíram nas oitavas de final. Neste domingo 4, a russa Maria Sharapova foi massacrada pela americana Serena Williams na final do tênis.

Se nos Jogos Olímpicos vencer é contagioso, fracassar também é. Com uma equipe grande, porém sem muitas esperanças de medalha, o Brasil só experimenta o contágio ruim. Derrotas normais viram um “fracasso”, cria-se um clima de desespero, atletas que brilham quando as competições não são transmitidas afundam e, assim, alimenta-se o círculo vicioso de derrotas. Talvez, no Rio-2016, com a torcida a favor, parte deste ciclo seja rompido. Enquanto o Brasil não tiver uma política esportiva para formar atletas de ponta em quantidade razoável, porém, a pressão psicológica vai continuar a ter papel de destaque nos resultados dos atletas brasileiros.

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