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Sociedade

Rio de Janeiro

Os problemas além da pacificação das comunidades

por Edgard Catoira — publicado 24/01/2012 14h49, última modificação 06/06/2015 18h20
Com as UPP´s, os moradores das favelas conhecem outros problemas. O desafio agora é como enfrentá-los

Depois de ocupar informalmente o Vidigal, na última quarta-feira 18 foi inaugurada oficialmente a UPP – Unidade de Polícia Pacificadora – na favela do Vidigal.

O bairro do Vidigal é contornado pela Avenida Niemeyer, na costa litorânea que liga São Conrado ao Leblon. Faz parte do conjunto das favelas da Rocinha, em São Conrado e Chácara do Céu, já no Leblon.

O próprio secretário de Segurança do Rio, Mariano Beltrame, executor das ocupações e pacificação de favelas, lembra que não basta afastar os grupos criminosos. É necessária a entrada de ações sociais que apóiem os moradores dessas comunidades. Caso contrário, a desordem retoma as regiões conquistadas.

Leblon e São Conrado são dois bairros nobres da Zona Sul carioca. Os contrastes, por isso, são gritantes: mansões e prédios de luxo são vizinhos de casas populares e barracos.

Exatamente por esses motivos, a visibilidade dessa nova região pacificada pelas autoridades legais é muito grande.

E, nestes dois meses depois da presença do Estado nas favelas, as discussões dos prós e contras as ações de pacificação, mais que nunca, são os focos de estudiosos e da população em geral.

Constatações controversas

Estatísticas oficiais mostram que a criminalidade cai vertiginosamente no Rio. A cidade, de acordo com pesquisa do Instituto Sangari, teve uma queda de 53,7% na taxa de homicídios – saltando para a 23ª posição do Mapa da Violência, ou a quinta menor do país. São Paulo, pela mesma pesquisa, tem a melhor posição em queda de homicídios do Brasil, entre 2000 e 2010.

O secretário de Segurança Pública, com propriedade, comemora o resultado da estatística.

Nas favelas de São Conrado/Leblon, ainda não se pode calcular o que está acontecendo, já que só agora estão sendo pacificadas.

O que se comenta é que o número de assaltos vem aumentando, em relação à época da ocupação pelo tráfico. São opiniões desencontradas das pessoas que tentam analisar os resultados.

Economicamente, as controvérsias também estão soltas. Cabeleireiros, por exemplo, se queixam que os salões estão com pouco trabalho. Dizem que, com o fim dos bailes funks semanais em toda a favela, as clientes desapareceram.

Um levantamento não oficial, porém, concluiu que os empresários locais avaliam a situação dos seus negócios como estável (71,8%) ou em crescimento (20,3%) – apenas 2,4% os consideraram "decrescendo".

Mas existem atividades econômicas visíveis também. Grandes magazines e supermercados já estão se instalando na Rocinha, que conta também com três agências de bancos – Itaú, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, que está na favela desde 1998 e neste ano, vai abrir sua segunda agência, bem no seio da comunidade e outra no Vidigal, primeira agência bancária do bairro. Hoje, fora as casas lotéricas e conveniadas, a CEF disponibilizou mais duas agências móveis – na verdade dois ônibus especialmente construídos para ser uma agência, com banheiros, caixas eletrônicas, gerente e oferta de todos os serviços sociais, como os ligados a Fundo de Garantia, Bolsas Sociais, Salários Desemprego – e financiamentos para pequenas empresas, formais ou o não.

Diferente do que muitos dizem, que os bancos só entram para fazer negócios, mas a CEF, por exemplo, aparece entre os importantes serviços sociais oferecidos e com taxas diferenciadas.

Nessas três favelas também começam a aparecer hostels e o turismo se desloca rapidamente para a região, que tem uma vista maravilhosa da Zona Sul.

Os serviços estão caros: um refrigerante chega a custar R$ 4,50, bem mais caro que no asfalto. A subida de moto táxi custa R$ 2,50. Em compensação, um motorista de van ligando o morro a Copacabana chega a ganhar mais de R$ 5 mil líquidos por mês.

Com uma população estimada mais de 150 mil pessoas na Rocinha e 50 mil no Vidigal, a região conta com duas rádios comunitárias e um canal de TV a cabo.

O sucesso ou não da revitalização dessas comunidades carentes só poderá ser contatada a médio prazo. Afinal, a pacificação da região é muito recente.

Mas o secretário de Segurança tem razão ao afirmar que o estado tem que estar presente em todas as áreas. Principalmente no Vidigal, há comentários – absolutamente sigilosos, no gênero omertà das máfias italianas, de uma facção do tráfico, rival à que estava lá, entrando. E já botando as manguinhas de fora, cobrando pedágio das vans e oferecendo serviço de TV a cabo, o gatonet. E, sutilmente, os moradores dizem que alguns policiais também cobram taxas. Segundo as pessoas, as autoridades policiais já estão tomando conhecimento dessa pequena recaída na área da pacificação.

Deixando para as autoridades resolverem essas graves denúncias que correm a boca pequena, o ideal é que o atual quadro social realmente melhore nos próximos meses. Hoje, 71,8 % dos empresários locais vêem como estáveis seus negócios e 20,3% consideram que estão crescendo.

Também é alto o índice de emprego entre os moradores: 30,8% têm carteira assinada e 13,8% têm atuação informal. Os estudantes chegam a 23,5%.

Numa ação da Petrobras, na segunda-feira, dia 16, uma reunião de 32 empresas participaram de um encontro na quadra da escola de samba Acadêmicos da Rocinha, onde ofereceram cerca de mil vagas para trabalho a cerca de dois mil candidatos que se inscreveram.

Toda a população do Rio vê, com esperança, o desenvolvimento do programa que tem tudo para elevar o nível de vida dos moradores das favelas da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu – o que promoverá a elevação de melhoria social a toda a cidade. O Rio merece!

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