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Opinião

O ouro de Rafaela Silva e a fábula da meritocracia

por Marcelo Baumann Burgos — publicado 10/08/2016 10h30, última modificação 10/10/2016 11h33
É preciso resistir à tentativa de tornar a história da judoca em argumento para resignação diante das desigualdades nacionais
Roberto Castro / Brasil2016
Rafaela Silva

Exemplos como o de Rafaela Silva são usados mais para esconder do que para exibir as desigualdades. Ela resiste a isso

A conquista da medalha de ouro olímpica por Rafaela Silva, menina da Cidade de Deus, traz de volta, com renovado vigor, a retórica da superação que o caminho do esporte, como expressão máxima do poder transformador do mérito, é capaz de propiciar.

O fato de Rafaela ser negra, de família pobre e oriunda da favela, serve como uma luva à narrativa de que pelo esporte é possível “escapar ao caminho da violência”, e o judô seria a atividade ideal para transformar a “violência que ela trazia da comunidade em força para vencer na luta”.

Afirma-se, irresistível, o caráter redentor do esporte contra uma realidade que tem tudo para desencaminhar as crianças levando-as para o “caminho do mal”.

Acostumados com essa narrativa sobre a favela, que a toma como locus da cultura da violência por excelência, assistimos impassíveis à repetição do mantra que traz o sinal da naturalização de uma cidade desigual, e que se contenta resignada com o fato de que, como nem todos podem ser como Rafaela, não resta outra alternativa a não ser cumprir o destino traçado pela “cultura da violência das comunidades”.

Difícil dizer o que choca mais: se é a falta de respeito e cuidado com os milhões de crianças e famílias que moram em favelas e periferias e que lutam cotidianamente contra a violência do Estado e do tráfico (as quais frequentemente se confundem) para construir uma vida digna baseada na valorização da escola e do trabalho, e que são insultadas com a suspeição de que caso não bafejadas pela sorte de um projeto salvacionista cumpririam um destino inexorável; ou se é a desfaçatez com que se assume a violência das comunidades como um dado natural, tal como um desígnio de deus, contra o qual nada se pode fazer.

A trama macabra do fatalismo desresponsabiliza a sociedade e o poder público, e esvazia o papel transformador da política.

Atenta às consequências de suas palavras, e aparentemente prevenida para o mau uso político de sua imagem, Rafaela demonstra prudência apesar da emoção, mas não deixa de pontuar que na Cidade de Deus “não tem nada”. Em uma única frase, resume timidamente sua percepção nua e crua de uma realidade brutalmente desigual.

O que talvez seja menos evidente para Rafaela, embora ela pareça intuir, é que para ser produzida e reproduzida essa cidade desigual não pode dispensar o uso de contraexemplos como o dela que, perversamente, mais servem para ocultar do que para revelar a questão social na qual sua vida – nossas vidas – estão encerradas.

Quem conhece as armadilhas do debate sobre a favela sabe o quanto tem sido difícil romper com esse círculo vicioso, de uma narrativa que tanto opera com uma sociologia vulgar, que toma o território (a favela) como determinante de um comportamento violento e potencialmente criminoso – a velha máxima “o meio faz o homem”; quanto com uma psicologia igualmente vulgar, que procura explicar as exceções pelo talento e pela perseverança individual, mas nunca pelos efeitos virtuosos que a família e a vizinhança podem ter para a sua formação.

Essa forma específica de articulação entre a dimensão social e a dimensão individual tem tido entre nós a força de um mito que, afinal, explicaria a sobrevivência, desde a abolição da escravatura, de uma dinâmica que torna muito difícil a emergência dos conflitos sociais urbanos, na medida em que contribui para naturalizar a pobreza e a desigualdade social, e suas formas mais explícitas de exteriorização, que são as favelas e periferias das grandes metrópoles do país. 

É por isso que a maravilhosa conquista de Rafaela, em vez de ser tratada como a vitória de uma atleta, logo teve que ser convertida em “medalha de sabor social”, com o que se vivifica a força do indivíduo que serve de exceção que confirma a regra.

Mais uma vez vale a pena trazer a voz da judoca: “não tenho recado para ninguém, eu tenho é uma medalha no meu peito”. Como se vê, apesar do empenho da grande imprensa, Rafaela tem dado sinais de que pretende resistir com tenacidade a cumprir com o script que se espera dela.

Como destruir esse mito que mantém a política à margem do coração do drama urbano brasileiro?  Não há caminho fácil, mas algumas apostas podem ser feitas. A que parece mais promissora é aquela que aponta para o caráter transformador da recente mobilização dos estudantes secundaristas em diversas cidades e estados do país.

Rafaela Silva
Rafaela Silva, campeã olímpica

Boa parte deles moradores de favelas e periferias pobres, os estudantes ocuparam por um momento as escolas para convertê-las nos espaços públicos que suas cidades sistematicamente se recusam a oferecer-lhes. E nas escolas ocupadas puderam ensaiar o espetáculo que cedo ou tarde levarão para o teatro mais amplo da política.

Nesse espetáculo, eles são sujeitos da história desse país, e se lutam por uma escola pública de qualidade é por verem nela o caminho mais universalista para a construção de uma sociedade mais igualitária e mais inclusiva.

Caso a vitória de Rafaela deixasse de ser lida como encarnação do discurso salvacionista, que reafirma a fábula do mérito individual e o fatalismo da desigualdade social, e se articulasse com a nova narrativa que a luta dos estudantes secundaristas está construindo, teríamos, aí sim, um verdadeiro legado social e político da Rio 2016.  

*Marcelo Baumann Burgos é professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio