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Sociedade

Chacina alimentou facção

O massacre do Carandiru visto por dentro

por Redação Carta Capital — publicado 16/04/2013 12h15, última modificação 16/04/2013 15h57
As mortes quebraram cada um dos presos. Ali se consumou a ruptura que há muito vinha se configurando, dando início à facção
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Estudantes de direito da Universidade de São Paulo (USP) instalaram na semana passada, em frente ao prédio da faculdade, no centro da capital, 111 cruzes para lembrar o número de presos mortos por policiais militares no Carandiru. Foto: Marcelo Camargo/ABr

Por Luiz Mendes*

Comecei a cumprir pena em 19 de julho de 1972. Lembro que, já naquela época, todas as vezes que os soldados da Polícia Militar invadiam a prisão, eles nos ameaçavam. Falavam que um dia viriam para matar, e depois riam debochados do arrepio que nos causavam. Engatilhavam armas em nossa cara e diziam que um dia apertariam o gatilho. Vivi com o pé deles em minha garganta até 5 de abril de 2004, quando fui solto.

Quando abandonavam a cadeia, lambíamos as feridas que eles haviam deixado. Várias vezes tive que ir à enfermaria para costurar cortes de pancadas. Não posso cortar careca porque minha cabeça parece o mapa do inferno de tantos cortes. Quebraram meu braço direito, batendo com uma barra de ferro. Hematomas a gente nem mostrava, era comum, quase todos tinham suas marcas.

Guerra. Era um dia comum de outubro de 1992. Eu estava na Penitenciária do Estado (hoje Penitenciária Feminina de Santana) distraído em meus afazeres e, de repente, escutei o som inconfundível de tiros. E foi crescendo. Muitos tiros, um tiroteio intenso. Parecia guerra, e não parava mais.

Liguei a TV e lá estava: policiais militares haviam invadido a Casa de Detenção que estava ali ao lado. E o tiroteio continuava, agora amplificado pelo som da televisão. Estremeci. Meu Deus! Os soldados estariam matando todo mundo lá dentro? Já havia o precedentes de outras ameaças --e assassinatos.

Em 1987, por exemplo, eles haviam invadido a Penitenciária do Estado e saíram matando pavilhões adentro. Ficamos correndo para todos os lados, como ratos, para nos esconder dos tiros. Pulei os que caíram em minha frente e me escondi em uma oficina junto com outros oito companheiros. Ao final, não fomos mortos por conta de um herói entre nós que se desnudou e, corajosamente, saiu se arrastando nu no chão como caranguejo, até os pés dos soldados. Nós o imitamos. Apanhamos como cães, mas continuamos vivos. 37 companheiros não tiveram a mesma sorte e foram mortos. Nenhum soldado foi processado por tantas mortes. Impunidade, até onde sei, gera continuidade.

Pilhas de corpos. Na Casa de Detenção, o tiroteio cessou e a televisão foi impedida de cobrir os acontecimentos. Mas, espertos, os repórteres encaminharam-se para o Instituto Médico Legal. Então mostraram aquelas cenas horríveis que todos acompanharam. Filas de corpos nus, um ao lado do outro, esburacados. Era uma tragédia. Logo os jornais já falavam em “massacre”. Foi ouvir aquilo e imaginei milhares de mortos, pela quantidade de tiros que ouvi.

Aquilo quebrou cada um de nós que estava preso. Foi aí que se consumou a ruptura que há muito vinha se configurando. Não dava para confiar no bom senso, na humanidade, no respeito à nossa condição de encarcerados, na justiça, nisso de cristianismo, nas pessoas de fora da prisão, nas autoridades e em nada ou ninguém mais. Eles nos queriam mortos. Imaginava que dali para frente seríamos assassinados como patos em parque de diversão.

Por conta da proximidade, alguns companheiros baleados foram, aos poucos, sendo trazidos para o hospital da Penitenciária. Cenas de horror eram narradas em primeira mão. Os soldados queriam matar mesmo e mataram quanto quiseram. Satisfizeram seus instintos bestiais e cumpriram suas ameaças. Alguns matavam ao pé do poço do elevador, depois jogavam os corpos para baixo. Outros matavam e mandavam outros presos carregar os cadáveres até o andar térreo da prisão. Muitos se salvaram lambuzando-se de sangue e se misturando a outros já mortos.

Desse inferno sem Dante restaram 111 presos mortos e centenas de feridos. Cegos pela nuvem de gazes que as bombas esparramaram na prisão, alguns perderam membros, outros foram baleados e morreram depois, em consequência. Nenhum policial ou guarda de presídio foi ferido.

O começo da facção. Para nós, presos, o erro foi confiar. Confiar nos funcionários e deixar que saíssem do pavilhão. Confiar na humanidade da sociedade, da justiça, do governo e até na PM. Sim, nós não acreditávamos que eles pudessem nos matar como ratos. Ainda os víamos humanos como nós. Dali para a frente, tudo se radicalizou. Apoiamos em peso a organização de nossas lideranças que nos prometiam união, justiça e proteção. Até quem era contra acabou por se tornar a favor e a facção proliferou. E, para todas as rebeliões que aconteceram dali por diante, tornou-se imprescindível ter reféns sob ameaça de morte. E muitos deles foram mortos realmente.

*Luiz Mendes é escritor. Autor de quatro livros, no primeiro deles, “Memórias de um sobrevivente”, discorre sobre os 31 anos em que passou preso. É ainda colunista da revista Trip e, no dia do Massacre do Carandiru, estava em um prédio vizinho, na Penitenciária do Estado.

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