Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / O fim do Clube de Regatas Tietê

Sociedade

Especial

O fim do Clube de Regatas Tietê

por Redação Carta Capital — publicado 27/11/2012 13h50, última modificação 27/11/2012 14h25
Outrora espaço da elite paulistana, o clube terá de devolver terreno para a prefeitura de São Paulo. Conheça a sua história
TIETE21

O clube viveu dias de glória quando o Tietê era navegável. Aos poucos, os sócios tradicionais deixaram de aparecer e os negros não podiam participar. Foto: José Luis da Conceição/ AE

O tradicional o Clube de Regatas Tietê, o segundo mais antigo da cidade e formador de atletas recordistas mundiais, deve ter sua trajetória de 105 anos de história de glórias encerrada nos próximos dias. Na segunda-feira 26, um oficial de Justiça entregou aos responsáveis pelo clube uma ordem determinando a devolução do terreno de mais de 50 mil metro quadrados à prefeitura.

A administração municipal concedeu o terreno ao clube por 50 anos e decidiu não renovar o empréstimo após seu fim, em 2009. Frequentado no passado por famílias tradicionais paulistanas, hoje o clube - que formou nomes como a tenista Maria Esther Bueno, tricampeã mundial de Wimbledon, e a nadadora Maria Lenk, recordista mundial de nado de peito - está afundado em dívidas que chegam a 25 milhões de reais.

Por meio de uma nota, a Secretaria de Esportes afirmou que o terreno dará lugar a um centro de formação de atletas em alto rendimento e iniciação esportiva aberto à comunidade.

Relembre abaixo a matéria "O rio e a margem", publicada por CartaCapital em 2009, sobre o tradicional clube recreativo:

Matéria publicada na edição 544, em 6 de maio de 2009

Por Pedro Alexandre Sanches

Era a década de 1940. A um grupo de meninos pobres das redondezas foi dada a oportunidade de aprender natação no tradicional Clube de Regatas Tietê, à beira do rio, no bairro da Ponte Pequena, zona norte de São Paulo. Na portaria, a entrada foi permitida a todos
eles, menos um. Este, além de pobre, era negro. Foi barrado. A discriminação racial era regra nos clubes da cidade, do estado, do País.

Frequentado originalmente pela elite paulistana e celeiro de atletas reconhecidos internacionalmente, o Clube Tietê vive, aos 102 anos de idade, realidade bem distinta. Neste 2009, recebeu cerca de 1,8 mil novos frequentadores, 87% deles negros. É que um de seus edifícios instala, desde fevereiro, a Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares, fundada em 2004 sob a regra de destinar ao menos 50% das vagas a estudantes negros.

 

 

O clube vive um prolongado processo de decadência e perda de sócios. O contrato de comodato com a prefeitura está prestes a terminar, a dívida acumulada é de 300 milhões de reais. A Zumbi dos Palmares ocupa provisoriamente o antigo galpão de ginástica olímpica, judô,  esgrima e balé, em troca de pagamento de água, luz e manutenção do prédio, sem aluguel. O reitor José Vicente pleiteia, na prefeitura, ocupar o espaço pelos próximos 50 anos, também em regime de comodato. “Estamos nos últimos ajustes. Vamos ficar aqui”, afirma.

O garoto negro dos anos 1940 foi barrado quando o rio Tietê avançava rumo à total degradação, mas ainda era usado para nado, navegação e regatas. O menino hoje tem 75 anos, é ator e se chama Milton Gonçalves. A história é exemplar de situação amplamente familiar a cidadãos negros, ou melhor, a “todos os negros do Brasil”, segundo suas palavras. Ele próprio viveu experiência mais traumática do outro lado do rio, quase em frente, na Associação Atlética São Paulo.

Ao completar 18 anos, tentou entrar em um baile carnavalesco da Atlética, e foi mais uma vez impedido, desta vez por um segurança que nas horas vagas era seu companheiro de  peladas. Insistiu. Argumentou que costumava assistir aos jogos no clube e ninguém dizia nada. Foi contido pelo presidente do clube em pessoa, sob a explicação de que “os sócios não iam gostar”.

“Já existia a Lei Afonso Arinos, e eu disse: ‘O senhor sabe que se eu for à delegacia vão fechar seu clube?’ Ele respondeu: ‘Você acha mesmo que vão fechar este clube por causa de alguém
como você?’ Foi um dia de terror para mim”, relembra. Naqueles tempos, só soube de um casal negro que conseguiu entrar num baile do Tietê. Estavam fantasiados, os rostos ocultos por máscaras. “Lá pelas tantas, tiraram as máscaras. E foram retirados do clube.”

Vicente lembra que o Movimento Negro Unificado foi articulado, inicialmente, em reação a um caso de discriminação racial de quatro jogadores de vôlei no Clube Tietê. Era 1978, mais de três décadas após o episódio vivido pelo ator. “O público que antes não podia entrar aqui hoje vem para estudar”, avalia.

Mineiro criado em São Paulo, Gonçalves traduz o que sentiu quase 60 anos atrás: “Me deu um ódio, fui beber cachaça no bar ao lado, fiquei lá sozinho. Num momento desses, explode na sua cabeça tudo que você já sabia e fingia não existir. Passei muitos anos com muito ódio dentro de mim. Por anos, planejei tocar fogo nos barcos, dinamitar o prédio, qualquer coisa. Mas o bom senso prevaleceu, fui procurar outros conhecimentos”.

O atual presidente do Clube Tietê, o esgrimista Edson Oliveira Rocha, aborda o tema espinhoso: “Num passado não tão distante, o clube era racista. Havia racismo, não se deve negar. Foi praticado, mas não é mais. Hoje é uma associação de várias raças”. E ilustra: “Temos aqui 300 coreanos praticando badminton (esporte semelhante ao tênis, praticado com raquete e peteca). Alguns chegam de limusine blindada, são pessoas de posse mesmo”.

O clube, que no auge chegou a ter 30 mil associados, possui hoje cerca de 2 mil, segundo seu presidente. Ainda se tentam vender os outrora disputados títulos, por uma “joia” de 1,8 mil reais, sem sucesso. E a mensalidade de meros 35 reais garante o acesso de qualquer  frequentador.

Rocha atribui ao avanço dos condomínios fechados o ocaso do clube. “Hoje os condomínios da
elite dão ênfase a piscina e quadras de tênis.”

Mas na vida e morte do rio parece se esconder o  fio da meada. Milton Gonçalves lembra quase ter se afogado embaixo da Ponte Grande,nos  anos 1940, mas o pequeno paraíso de caça, pesca, coleta, esporte e recreação, utilizado por ricos e pobres, se deteriorava desde ao menos o início do século, como descreve o historiador Janes Jorge no livro Tietê – O Rio Que a Cidade Perdeu (Alameda).

Nada faz lembrar a diversidade ao longo do curso do rio, num passado em que uma ponte ligava os rivais Tietê e Floresta (outro clube ainda em atividade, hoje sob o nome Espéria),  atletas amadores andavam de pedalinho pelo rio, frequentadores de chapéus, ternos e vestidos elegantes assistiam às regatas em mesas instaladas à beira da água. Lavadeiras pobres também exerciam seu ofício à margem do rio, e o confronto de classes nunca deixou de estar presente.

O livro de Jorge descreve a criação da União Paulista dos Clubes de Remo, em 1903, e se refere ao estatuto “altamente elitista” formulado para afastar os trabalhadores dos esportes  náuticos. Em 1912, narra, a Federação Paulista de Remo excluiu os operários do rol de  remadores registrados para a temporada oficial.

Em seus anos de auge, o Clube Tietê deu guarida a uma série de esportistas bem-sucedidos. Maria Esther Bueno começou a treinar ali em 1950 e conquistou 589 títulos internacionais. Foi tricampeã em Wimbledon, em 1959, 1960 e 1964. O nadador Abílio Couto foi recordista  mundial na travessia do Canal da Mancha e atravessou, em 1965, o Estreito de Gibraltar.
Antes, a pioneira Maria Lenk se tornou a primeira mulher sul-americana a competir nas Olimpíadas, em 1932, e a primeira a quebrar recordes mundiais de nado, em 1939. No  futebol, o Tietê adquiriu, em 1935, o São Paulo da Floresta, que tinha jogadores como Arthur Friedenreich.

São Paulo cresceu, a ponte entre o Espéria e o Tietê desapareceu e extensas áreas dos terrenos às margens do rio foram desapropriadas para a construção da Marginal Tietê, que soterraria
com ela a memória de uma cidade erguida às margens do rio.

De 1924 em diante, por exemplo, realizou-se no Tietê a tradicional Travessia de São Paulo a Nado, um percurso de 5,5 quilômetros da Ponte da Vila Maria até o Espéria, na Ponte Grande.

Em 1935, 1936 e 1947, a disputa foi vencida pelo jovem João Havelange, mais tarde presidente da Fifa. Em sua última participação, em 1948, ele contraiu tifo negro e ficou dois anos internado, segundo narra o livro fotográfico Tietê – O Rio de São Paulo (A Books).

Em 1972, as regatas foram transferidas para a raia olímpica da USP. A avenida Santos-Dumont, onde fica a entrada do Clube Tietê, é hoje uma inóspita via expressa. Sem rio à vista nem paisagem aprazível, os frequentadores originais abandonaram a região. “O Tietê estava às moscas, a faculdade está trazendo vida ao lugar”, diz Vicente.

Outro elemento da democracia de raças e identidades instalada no Tietê versão anos 2000 é a Pool Party, uma festa à beira da piscina promovida no clube pela boate gay The Week, para uma média de 8 mil frequentadores. “Não fazemos restrição nenhuma. Nossas sócias velhinhas vão. No começo se assustam, mas participam. Modestamente, essa democracia irrestrita deve-se a mim”, diz Rocha, num início de noite, recém-chegado do emprego diurno numa multinacional fabricante de elevadores, onde trabalha como eletrotécnico, uniformizado.

“O conselho e os associados mais velhos resistem. Resistem à Pool Party, ao tênis dos coreanos, à Afrobras (a ONG por trás da Zumbi dos Palmares), aos programas sociais”, diz. “Como  presidente voluntário, minha vida é um inferno. Tenho polícia atrás de mim, por causa da dívida do passado, processos trabalhistas. Isso vai ser resolvido com a venda do clube de campo, que está em andamento”. Refere-se à sede campestre de 1 milhão de metros quadrados às margens da represa do Guarapiranga, hoje desativada.

A convivência entre negros e não negros parece rudimentar na nova configuração do clube. “Os coreanos ficam lá longe, acho que estão indo embora mais cedo desde que a gente chegou”, sorri Alexandrina Souza, aluna do quarto ano de administração. Três jovens coreanos reagem à tentativa de aproximação com expressões assustadas. Dão as costas e se afastam rapidamente.

Segundo o presidente do Tietê, não há nenhum registro de conflito até aqui. “Os sócios frequentam mais durante o dia, e a faculdade só funciona à noite. Não há confronto entre as partes”, afirma.

De fato, é exclusivamente noturna a escola,que atualmente oferece os cursos de direito,  administração e tecnologia em transportes terrestres, e no segundo semestre deste ano deve abrir vagas para publicidade e propaganda e pedagogia. As mensalidades, abaixo dos preços
médios das universidades particulares, oscilam em torno dos 300 reais.

Entre o fim da tarde e o início da noite, a paisagem do clube se mescla entre meninos da escolinha de futebol, tenistas coreanos e os alunos da Zumbi que chegam, muitos deles de terno, gravata e cabelo black power. A maioria trabalha durante o dia e estuda à noite. Vários dormem nos pufes da biblioteca enquanto esperam as aulas.

Numa noite de sexta-feira, o movimento é grande nas várias lanchonetes do Tietê. Em cena improvável há 50 anos, uma das lanchonetes comanda a animação com churrasquinho ao ar livre e Zeca Pagodinho cantando o tempo que Don Don jogava no Andaraí em alto volume.

“Às 20h30, está todo mundo nos nossos bares. Isto aqui está uma grande festa”, comemora  Rocha. Ainda tem adesão pequena, segundo ele, a proposta de associar os alunos da Zumbi ao  clube. Admite que a concessão de desconto, inicialmente proposta, é objeto de discórdia na  diretoria. “O conselho não aceitou um preço promocional para os alunos. Eles pagam o mesmo  que qualquer associado”, diz.

Wallace de Moraes, do terceiro ano de administração, utiliza o equipamento esportivo  diariamente. Comenta os vaivens de localização da escola, que antes teve sedes na Luz e na  Barra Funda, essa última num antigo centro de distribuição da loja virtual Submarino. “A parte ruim é tanta mudança. A faculdade ainda não tem uma estrutura sólida. O curso tem  problemas, mas isso vai do esforço do aluno.”

Atualmente desempregado, Alexandre Pinheiro dos Santos, do terceiro ano de administração, tem usado a piscina durante o dia. “O mundo dá voltas. Quem diria que eu ia entrar num clube, estudar nele e ainda nadar por 15 reais”, observa. “A escola está engatinhando, muita coisa precisa melhorar. Mas não dá para se cobrar tanto, o projeto é maravilhoso.”

O reitor interpreta as “andanças” da sede em termos simbólicos. “Elas retratam o tema do nosso lugar no imaginário, na educação. É uma luta difícil, exige ações objetivas, mão na massa, dinheiro, tanto que às vezes é mais fácil ficar na utopia”, diz.

“Há uma contradição aí. É um tema terrível para trabalhar, mas que na atualidade permite  alguns sucessos. Temos andado sempre para a frente, não de lado.” Além do crescimento dos 2 mil metros quadrados iniciais para os 20 mil de hoje, as andanças têm levado a faculdade aos Estados Unidos, dentro de um programa de ações afirmativas firmado por Condoleezza Rice no governo Bush e mantido por Barack Obama.

Vicente foi observador das eleições presidenciais pelo Partido Republicano, e voltou para a posse de Obama, a convite do comitê democrata e da American Express, cujo vice-presidente é negro. “O que senti ali, a 150 metros do Capitólio, é inenarrável.” Na segundafeira 27 de  abril, integraria uma comitiva do Plano de Ação Conjunta Brasil-Estados Unidos contra o  Racismo e a Discriminação Racial em Washington, numa reunião com a secretária de Estado,
Hillary Clinton.

Sua intenção, se confirmada a conquista do Tietê, é erguer ali uma sede própria, especialmente planejada. Segundo ele, o objetivo do prefeito Gilberto Kassab (DEM) é  transformar o terreno em um centro de referência em treinamento olímpico, sem interromper o uso do clube como espaço coletivo. A escola faria parte desse contexto.

Vicente cita a CPI municipal que em 2001 investigou a cessão de espaços públicos a entidades privadas como marco de um processo de mudança. “A prefeitura tem solicitado contrapartida social por parte das instituições privadas, ou então retomar os espaços. Ficaram obrigados assim a apresentar outra roupagem, não se sabe até que ponto por decisão voluntária.”

Este é um dos entraves do atual Tietê, e de outros clubes. “Hoje o Ministério Público estranha o uso de espaços públicos sem fins de prestação de serviço à comunidade. Não entendem muito  isso de ser restrito a uma elite, exigem contrapartida”, afirma Rocha.

A população negra que hoje aflui à Faculdade Zumbi dos Palmares segue na luta por espaço na sociedade. “Nas novelas, os negros não são mais só empregados domésticos. Agora também  são
sambistas e jogadores de futebol. Não sei se você entende que estou sendo irônica”, diz Alexandrina. “Quando o personagem negro é rico, é bandido. Precisa ser assim?”, pergunta, em referência ao político corrupto interpretado por Milton Gonçalves em novela recente da Globo.

Milton Gonçalves até hoje não pisou no Clube Tietê, mas diz que voltaria se fosse pela Zumbi dos Palmares. E formula, com a voz embargada, um elogio amargo à iniciativa: “Ser  obrigado, em pleno século XX, a ter uma faculdade separada... Não é justo. Não é justo. Eu ajudarei enquanto vida tiver, mas ainda acho que é uma humilhação”. Em março de 2008, ele fez um discurso sobre a Abolição na cerimônia de formatura da primeira turma da faculdade, no Ginásio do Ibirapuera.

Sobre aquele dia, fala José Vicente: “Não tenho o que dizer, é missão cumprida. Eram 241 negros se formando, nossa terceira abolição. É o maior número de negros formados na universidade em toda a América do Sul, você acredita?” O que responderiam os dirigentes
e sócios do Clube Tietê que barraram Gonçalves seis décadas atrás?

registrado em: ,