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Opinião

O Criança Esperança, a pobreza idealizada e os cidadãos de bem

por Rosana Pinheiro-Machado publicado 20/07/2016 10h56
Nos emocionamos com a penúria na televisão, mas como tratamos o porteiro do prédio?
Reprodução
Mesão da Esperança

O "Mesão da Esperança" do Criança Esperança, organizado pela Globo

Ato 1: O espetáculo da pobreza passa na televisão. Artistas com voz de generosidade pedem a sua contribuição. Histórias de pobreza e superação. Chega até a cair uma lágrima genuína da senhora que vê a criança que teve uma oportunidade num mundo tão injusto. Doam-se cinco, vinte ou cinquenta reais.

O fato de o Brasil ser um país conservador, segregado e cheio de camarotes por todos os lados não quer dizer que tenhamos uma sociedade composta por pessoas que admitem para si próprias que não gostam de pobres.

Ninguém se percebe como esse sujeito “ruim”. O “cidadão de bem” se emociona e até sofre com a espetacularização da pobreza. "O pobre" da televisão passou por diversos filtros para ser assimilado positivamente: Ele é necessariamente bom, carismático e lutador.

O “cidadão de bem” precisa do sentimento de pena pelo qual é movido esporadicamente. Até uma lágrima pode escorrer quando “o pobre” tem uma casa reformada na televisão. Esse engasgo atualiza seu lugar no mundo de sujeito bom. 

A doação de caridade acalma certa culpa por não se fazer nada. Fazer um pouquinho para o pobre bonzinho e domesticado da televisão é um alívio que reatualiza a generosidade dos doadores e a passividade dos receptores. 

De clientelismo à caridade, toda a doação que não é reciprocada reproduz relações hierárquicas de poder e dependência.

Ato 2: A senhora de bem fica profundamente ofendida quando a diarista não aceita a comida ou a roupa velha. Ela faz ironia sobre a filha da diarista que está na faculdade, dizendo que a menina é muito “atrevida”. O filho da senhora de bem não frequenta certas festas porque “é cheio de gente feia”. A amiga da senhora de bem diz que “fulana tem cara de pobre”. E todos eles falam essas coisas uns para os outros o tempo todo, enquanto continuam se emocionando com a pobreza encapsulada da televisão.

No conto de fadas, todo mundo torce para que a mocinha pobre da novela fique com o galã rico. Só que na vida das interações reais, isso não acontece porque há abismos simbólicos, sociais e econômicos profundos entre os dois sujeitos. Na vida real, a mocinha é invizibilizada aos olhos do menico rico. 

Os mecanismos subjetivos que nos afastam do Outro reforçam os abismos entre sujeitos e produzem múltiplas formas de violência interpessoal. E tudo isso reforça a perpetuação da pobreza.

Apesar de existir uma discussão bastante consolidada sobre o quanto a caridade é ineficiente e até nefasta – produz sujeitos passivos e receptores, não atinge o cerne estrutural da reprodução da pobreza e atualiza a superioridade dos doadores – eu não vejo problema em alguém querer se depreender de um pouco que tem para dar para os outros. 

O desafio que nos é colocado todos os dias é como romper com o abismo entre o ato um e o ato dois, ou seja, entre o mundo ideal e o real. É preciso justamente avançar a partir dos sentimentos que movem a caridade. A pena é um sentimento horrível. A pena nega o Outro e o aprisiona em seu lugar de subalternidade.

O que precisamos não é de pena dos menos privilegiados, mas de empatia e alteridade, que só podem ser construídas em uma relação face a face por meio da qual a presença e a diferença – a voz, a roupa, o cabelo, o cheiro, as vontades e os desejos – do Outro é reconhecida. É preciso ter curiosidade pelo Outro. É preciso situá-lo no mundo, no espaço e em sua própria trajetória.

Nos últimos anos, deparei-me com diversos alunos que começavam o curso querendo mudar o mundo e acabar com a pobreza na África. Meu desafio em sala de aula é constranger produtivamente esses alunos – tirá-los de sua zona de conforto. É preciso mostrar que o sentimento de salvar o mundo e a pena dos menos privilegiados são sentimentos vazios e arrogantes quando não são acompanhados por solidariedade com o colega do lado ou com o porteiro do prédio. O mesmo serve para a militância revolucionária de esquerda ou para a senhora que liga para o 0500.

Se nós não somos capazes de reconhecer o sujeito do nosso lado e entender toda a perversidade do deboche contido no comentário sobre o colega, o vizinho ou a filha da diarista, o que nós somos, na verdade, é um bando de hipócritas. 

Eu prefiro acreditar que a pena é resultado da ignorância. Ela pode ser um primeiro passo, pedagogicamente falando. Se trabalhada, problematizada e contestada – e aí entra o papel dos educadores pais ou professores – a pena pode se transformar em solidariedade e empatia, que, provavelmente, não acabarão com a pobreza do mundo, mas podem ajudar a tornar o nosso mundo um pouco mais habitável, um pouco menos violento.

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