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O caos nosso de cada dia

por Thomaz Wood Jr. publicado 10/09/2012 09h45, última modificação 06/06/2015 18h41
Empresas locais de todos os portes parecem viver imersas em um estado crônico de confusão

Converse o prezado leitor com um executivo de uma empresa local, de qualquer porte, e dele ouvirá histórias de horror. Todas elas parecem viver em constante estado de confusão. Jornadas intermináveis de trabalho, telefones celulares que não param de cuspir emergências, e-mails que não cessam de disparar urgências, chefes atordoados e liderados em pânico: a lista é longa e tenebrosa. Todos parecem viver à beira de um ataque de nervos.

O que provoca tal estado das coisas? O suspeito usual é velho conhecido. Nove entre dez executivos perguntados a respeito provavelmente culparão a globalização, a volatilidade econômica e a instabilidade dos mercados. Há alguma verdade nessa resposta. De fato, quanto mais conectado for um sistema, mais sensível um componente será em relação à ação de outro componente. Uma borboleta batendo as asas na Amazônia pode provocar um tufão no Texas.

No entanto, mesmo que se aceite a vilania da mão invisível do mercado, há de se considerar que parte considerável do caos vem das próprias empresas. Cinco fatores, isoladamente ou combinados, contribuem para o caos nosso de cada dia.

O primeiro fator é a confusão estratégica. Se estratégia significa aonde ir e como chegar lá, então, provavelmente, o conceito está ausente da maioria das organizações. Muitas empresas multiplicam iniciativas, projetos e ações, perdendo tempo e recursos em atividades que não as levará a lugar algum. Tempo, recursos e energia jogados fora.

O segundo fator é a confusão estrutural. Um modelo de organização bem pensado provê foco ao trabalho, indica o que cada um deve fazer e os limites de sua ação. Os melhores modelos equilibram clareza e flexibilidade, permitem extrair o melhor de cada profissional, ao mesmo tempo que garante espaço à criatividade. Muitas empresas ignoram as boas práticas e trabalham com estruturas mal desenhadas, provocam alocação inadequada de recursos e geram conflitos. Com isso, gasta-se mais tempo definindo o que deve ser feito e quem deve fazer, do que realizando.

O terceiro fator é a confusão na gestão. As consultorias, aliadas à fantasiosa mídia de negócios, vêm há tempos criando e disseminando soluções mágicas para todos os males organizacionais. Muitas empresas adotaram as soluções sem ter os problemas. Então, para justificarem os vultosos investimentos realizados, desenvolveram as respectivas patologias. Com isso, tornam-se verdadeiros hospícios, nos quais os executivos passam parte considerável do tempo em intermináveis comitês, reuniões e atividades que não agregam valor.

O quarto fator é a confusão cultural. Nas últimas décadas, empresas de todos os setores passaram por inúmeros processos transformacionais: fusões, aquisições e outras mudanças radicais. Hoje, muitas empresas constituem aglomerados de tribos com histórias, identidades e culturas distintas, trabalhando sob uma mesma bandeira. Ocorre que elas mantêm seus valores, comportamentos e formas de tomar decisões e conduzir negócios. O resultado é uma nau em estado permanente de motim, o capitão e seus asseclas sempre atarantados, procurando manter a aparência de normalidade sob uma realidade convulsionada.

O quinto fator é a presença dos agentes do caos (não confundir com agentes da Kaos, da antiga série de tevê, embora haja semelhanças). Os agentes do caos são executivos que sofrem de confusão mental crônica. Eles (e elas) poderiam ter vida produtiva e feliz longe dos centros decisórios empresariais. Por razões desconhecidas, conseguiram penetrar nas pirâmides corporativas e delas fizeram seu lar. Foram promovidos por motivos misteriosos, vindo a ocupar cargos nos quais têm grande poder de influência. E fazem de seus cargos a plataforma para espalhar a confusão.

Os agentes do caos marcam e desmarcam reuniões, nas quais sempre chegam com atraso e das quais sempre saem mais cedo; sua mente flana por outras galáxias; eles estabelecem prioridades, esquecendo-as em seguida; mobilizam equipes para realizar projetos de utilidade duvidosa e resultados embaraçosos; esquecem compromissos e ignoram cronogramas. O melhor amigo do agente do caos é seu telefone celular, permanentemente em ação, sua principal ferramenta para disseminar a desordem.

O tempo, sabemos, é inexorável. No entanto, o ritmo do trabalho é socialmente construído. Certos executivos o modelam ao gosto de sua paranoia, convulsivo e frenético, em esforço patológico para manter as hordas sob seu controle.

Para ajudá-los, criam exércitos de agentes do caos. Eles confundem frenesi com produtividade, atividade insana com trabalho eficiente. Em muitas organizações, o caos não vem do ambiente. É fruto direto da incompetência gerencial.

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