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No morro, a disputa olímpica é por direitos

por Miriane Peregrino — publicado 15/08/2016 04h09, última modificação 15/08/2016 08h51
Assassinato de militar da Força Nacional enseja uma nova incursão no Complexo da Maré e mais tensão para os moradores
Vladimir Platonow / Agência Brasil
Maré

Agentes da Força Nacional durante ação na Vila do João, localidade do Complexo da Maré

Nas primeiras horas da manhã de quinta-feira 11, Evandro Souza (nome fictício), de 38 anos, pensou que sua vida chegaria ao fim. Morador do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, ele andava sozinho pela rua Capivari, no Morro do Timbau, em busca de uma padaria onde compraria pães para o café da manhã de sua esposa, que sai para trabalhar logo cedo. A calmaria daquele momento foi repentinamente interrompida por gritos e uma luz forte apontada para ele.

"Tinha alguém gritando, mandando eu parar e acendeu uma luz forte na minha cara”, diz. “Eu parei por impulso, vi que um homem estava apontando um fuzil pra mim, outro do meu lado esquerdo também e mais dois do lado direito. Fiquei muito nervoso. Naquela fração de segundo passou tudo na minha cabeça: tô sozinho na rua, vou ser fuzilado aqui, vão dizer que sou bandido”.

A sequência de pensamentos que tomou conta de Souza é compartilhada por todos os moradores da Maré, em especial quando são homens e negros como ele. O sentimento se agravou desde a quinta-feira 11, quando 200 homens da Polícia Federal, da Força Nacional e Batalhão de Operações Especiais (Bope) entraram em diversas favelas da Maré. 

A justificativa da missão era prender os responsáveis pelo ataque a um veículo da Força Nacional ocorrido na tarde de quarta-feira. Uma viatura da força, despachada ao Rio de Janeiro por conta dos Jogos Olímpicos, foi alvejada após entrar por engano na Vila do João, uma das 16 favelas do conjunto da Maré. Estavam no carro os agentes Hélio Andrade (Roraima), Alen Marcos Ferreira (Acre) e Rafael Pereira (Piauí). Andrade foi baleado na cabeça e, após várias cirurgias, faleceu na noite de quinta-feira (11). 

Em eventos como esse, os moradores da comunidade temem uma história que insiste em se repetir: extermínios e a imediata criminalização das vítimas. Souza escapou desse destino. “Eles me revistaram, viram que eu não tinha nada e me deixaram passar. Cheguei na padaria tremendo", disse. "Todo mundo que mora aqui morre de medo da polícia”, afirmou.

Souza descreve os eventos daquele dia como emblemáticos sobre a situação da Maré. "O soldado mandou pra eu parar, mas ele poderia não ter nem pedido, poderia simplesmente ter atirado em mim. Ou eu poderia não ter parado, simplesmente, porque não entendi o que estava acontecendo. A minha vida ficou realmente em risco ali. Logo de manhãzinha o morro estava todo ocupado", diz.

A ocupação leva aos moradores a sensação de que vivem periodicamente sitiados. Naquela manhã, ciente da situação, Souza acompanhou a mulher na saída para o trabalho. No percurso, encontrou três tanques de guerra nas ruas de acesso ao morro.

A situação é conhecida na região. “A garantia dos direitos humanos da favela mais uma vez é negada e isso deveria ser da primeira ordem numa cidade no período das Olimpíadas", diz a moradora Marielle Franco, de 36 anos. "Não foram os moradores da Maré que entraram no lugar errado ou que compactuam com a ineficiência da segurança pública. A segurança pública mais uma vez é negada para quem estava entrando ou saindo para trabalhar”, diz.

Para Franco, as autoridades têm dificuldade para entender os efeitos nocivos das ocupações para as comunidades como a Maré. “O presidente [interino, Michel Temer] disse que era um lamentável acidente. Eu acho que pela morte a gente deve sempre lamentar, inclusive do agente de segurança que sai de outro estado e o Exército brasileiro não dá segurança para ele", diz.

"Mas aí a gente amanhece sitiado, limitado para entrada e saída, com caveirão e as forças, e eu ainda tive o desprazer de escutar um deles dizendo ‘mais de uma hora e a gente não matou ninguém’. É isso, é a política do revide em vez de política de segurança”.

Embora o ataque ao veículo da Força Nacional tenha ocorrido na Vila do João, a operação do dia 11 atingiu favelas próximas, como o Pinheiro e o Timbau, mas também a Nova Holanda. “Eu já esperava também que fossem na Nova Holanda. Entraram umas 10h e ficaram quase até umas 13h. Foi muito violento”, disse o morador TJ (nome fictício), de 33 anos.

“Mataram um menino e teve muito grito. Os moradores queriam tirar o garoto de lá, mas não conseguiram. Tentaram juntar as mulheres pra socorrer o menino, mas cada vez que alguém tentava ir pra rua, os soldados davam tiros de novo. Foi vingança. E não era troca de tiros", denuncia.

Para TJ, a morte do militar agravou a situação. "Quando tem confronto a gente escuta tiros vindo de dois lados, mas quinta-feira só vinha tiro de um lado. Foi muito violento e os moradores gritando. Eles falam que foi bala perdida, mas a bala perdida só vinha de um lado."

Para o morador Carlos Gonçalves, 25 anos, a operação do dia 11 fez parte de uma política de revanchismo já bastante conhecida. E esse aspecto não foi considerado pela grande mídia, afirma. “Em nenhum momento fizeram a recapitulação das consequências desse tipo de política, a do revanchismo, para a favela. Isso aconteceu em 2013 e o resultado é sempre a chacina e a criminalização cada vez maior", afirma.

“Quinta-feira teve incursão na Maré, mas teve simultaneamente operação em Acari, Manguinhos, Jacarezinho, Alemão e Cruzeiro. Lembrando que esses lugares são seis conjunto de favelas e, na verdade, se desdobram em um número maior ainda de favelas. Esse é o projeto de cidade que a gente vive: guerra na favela e paz no asfalto.”

O caso citado por Gonçalves ocorreu na noite de 24 de junho de 2013, quando nove pessoas foram assassinadas. A chacina da Maré ocorreu depois que um militar morreu durante um confronto num ato realizado pelo aumento de passagem na Avenida Brasil. No contexto das manifestações de junho de 2013, a repressão do dia 24 de junho foi com balas letais e não de borracha como vinham acontecendo nas outras áreas da cidade do Rio.

Evandro Souza lembra que o caso do veículo da Força Nacional não foi o primeiro e que casos de civis mortos após entrarem por engano na Vila do João também já ocorreram. A resposta das autoridades, entretanto, não foi a mesma. “O Estado atua na lógica da vingança. Quando morre um civil, qual a reação do Estado? Não me lembro de nenhum caso de morte de civil que tenha tido uma reação parecida", diz.

"Ao contrário, nem investigação teve, ficou por isso mesmo. Isso comprova que a lógica da operação é de vingança. Matou um dos nossos, vamos matar dez lá e não importa se são moradores”, diz. “A gente sabe que toda vez que morre um militar vem a represália no dia seguinte. Acho que a partir daqui vão fazer operações pontuais”.

Histórico de abusos

O fotógrafo Bira Carvalho, de 45 anos, morador da Maré, teve sua casa invadida numa operação do Batalhão de Choque na Nova Holanda, em maio de 2013, e teve, segundo ele, vários pertences pessoais roubados. “Foram mais de 20 casas invadidas. Arrombaram minha casa, minha privacidade e roubaram coisas – livros, vídeo game, Play 2. Destruíram toda minha casa. Jogaram minha câmera no vaso", conta.

Imagem
Imagem divulgada pelo Coletivo Maré Vive mostra dois militares aparentemente tentando invadir uma casa na Maré. Segundo moradores, invasões são prática comum nessas operações, intensificada em 2014 por meio da Garantia da Lei e da Ordem, sancionada em 2014 para a realização da Copa do Mundo
"Dei queixa na delegacia. Fizeram duas perícias, uma da Polícia Civil e outra da Polícia Militar. ‘Primeira vez que a polícia fez perícia’, disse o delegado” afirma Bira. “Nem resposta deram [para as perícias], mas segundo a advogada do Instituto de Defensores de Direitos Humanos, eles deram entrada esse ano. Dois anos depois”.

Na quinta-feira 11, diante de uma nova ocupação, Carvalho fez um desabafo em sua página em uma rede social. "Rio de Janeiro 11/08/2016, Complexo da Maré. Aqui começaram hoje os jogos olímpicos de todo dia, correria 100, 200 metros para salva a própria vida. Um detalhe, a equipe de tiro estava com mais de um uniforme, tinha preto e tinha camuflado, mas aqui, os alvos não são uma silhueta preta, aqui são pretos vivos ou mortos de medo. Eu pensava que, como na Grécia antiga, os Jogos eram uma forma de trazer paz, de evitar a guerra, porém, aqui não funcionou".

“O Rio de Janeiro é uma cidade racista, machista, transfóbica e que tem ódio de nordestino. As Olimpíadas só externalizaram essa situação através das remoções, políticas de segurança pública, sucateamento dos serviços públicos”, diz Lídia Felix, 25 anos, moradora da Maré.

“Visitei o Boulevard Olímpico e não vi pobre naquele lugar. É muita maquiagem. Eu e minha família não moramos no Rio de Janeiro apresentado naquele espaço. Tinha muita e muita polícia, mas lá eles eram educados, muito diferente da forma que eles nos tratam na favela”.

Na quarta-feira 10, as aulas em escolas e pré-vestibulares foram canceladas na Maré. Era o prenúncio do horror que viria para os mais de 130 mil moradores do conjunto de favelas da Maré diante da nova incursão. 

No período pré-olímpico, sob a justificativa de localizar um criminoso que fugiu do Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio, ocorreram várias operações nas favelas da Maré. Na Nova Holanda, as operações chegaram a ocorrer dois dias seguidos. Muitos moradores estavam tensos com a possibilidade de o Exército voltar para a Maré.

No último megaevento esportivo, a Copa do Mundo de 2014, as Forças Armadas entraram na Maré no dia 31 de março de 2014 e só saíram em 30 de junho de 2015, numa operação que custou R$ 1,7 milhão por dia e resultou em diversos abusos de autoridade, sendo emblemáticos os casos da Kombi de transporte e o carro de passeio alvejados pelos militares em fevereiro de 2015. Vitor Santiago, de 30 anos, um dos passageiros do carro alvejado, foi atingido nas pernas e no tórax, teve uma perna amputada e está paraplégico.

Prevendo novas ações repressoras e abusos no período das Olimpíadas, moradores e movimentos sociais realizaram atos na Maré no mês de julho deste ano, como a Caminhada por Cultura, Memória e Justiça no dia 9 de julho. 

Para Carlos Gonçalves e outros vizinhos, as medidas repressivas do Estado devem aumentar nos próximos meses, também por conta da instabilidade política no plano nacional. “No outro dia 11, entrou Exército, entrou Bope, entrou Core [a Coordenadoria de Recursos Especiais, da Polícia Civil], entrou Polícia Federal, entrou Força Nacional... entrou tudo que poderia entrar para o extermínio do outro. Eles estão com carta branca pra fazer o que quiserem” – disse Gonçalves.

“Capturaram as pessoas responsáveis? Não capturaram. Inviabilizaram a entrada de armamento bélico aqui? Não. Inviabilizaram a entrada de drogas aqui? Não. Consequência disso? Três pessoas mortas, uma delas um jovem que estava soltando pipa”.

Depois das Olimpíadas, ocorrerão os Jogos Paralímpicos em setembro. Na cidade montada para os megaeventos esportivos, em benefício de investimentos imobiliários e turísticos sem qualquer consideração com a classe trabalhadora que a sustenta, as denúncias de violações se acumulam e indicam que o placar final ainda não está definido. Para Evandro Souza, é repetição do abalo sofrido sistematicamente pelos moradores. "A militarização do espaço da favela, em todos os sentidos, é muito ruim. Os moradores vivem numa situação de fogo cruzado", diz. "Passar por uma experiência de tiroteio é muito traumática e praticamente todos os moradores já passaram por isso”.  

*Miriane Peregrino é jornalista do Jornal O Cidadão da Maré