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Sociedade

Cerimônia de Encerramento

Na festa de despedida, uma sentida lacuna: as vaias ao interino

por Nirlando Beirão publicado 22/08/2016 00h58
Os Jogos do Rio entraram para a História pela porta da frente; ao intruso Michel Temer a História já reservou a sua lata de lixo
Manan Vatsyayana/AFP
Sorriso

Carnavalesco haveria de ser o grand finale, e é bem possível que no momento em que você estiver lendo essas mal traçadas a batucada ainda esteja comendo solta no Maracanã

Na colorida aquarela musical que Rosa Magalhães reuniu para a cerimônia de encerramento da Olimpíada do Rio teve de Pixinguinha a Tom Jobim, de Silas de Oliveira a Luiz Gonzaga, de Carmen Miranda a Villa Lobos, das Frenéticas a Ary Barroso, mas deu para lamentar uma sentida lacuna: faltou aquele som que brindou, na festa de abertura, com estrépito coletivo, o interino Michel Temer – duplamente intruso, no governo e na tribuna. Uma bela, contundente, maviosa vaia.

Temer tratou de se esquivar no domingo do apupo coletivo e despachou para representá-lo um outro apparatchik do golpe, o deputado Rodrigo Maia, presidente do picadeiro, quer dizer, da Câmara Federal, o qual prudentemente sequer foi anunciado. As vaias acabaram resvalando no prefeito Eduardo Paes, mas com uma condescendência que já antecipava o espírito da noite: assim como acontece no carnaval, a gente só vai pensar na realidade no dia seguinte.

Carnavalesca é Rosa Magalhães, que concedeu o encerramento; carnavalesco haveria de ser o grand finale, e é bem possível que no momento em que você estiver lendo essas mal traçadas a batucada ainda esteja comendo solta no Maracanã, com aquela disposição incansável de cabrochas, passistas, baterias, porta-estandartes, mestres-salas e o Renato Sorriso, gari promocional. Alguém em algum momento vai ter de tirar aquela gente toda da tomada.

Eduardo Paes
Na ausência de Temer, as vaias acabaram resvalando no prefeito Eduardo Paes (Foto: Leon Neal/AFP)
Difícil esperar de um grande evento canarinho, tal como esses Jogos do Rio, alguma coisa diferente do exagero da autolouvação e da hipérbole da exaltação. Nesse quesito, o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, se superou. Foi ainda mais repetitivo no que no seu discurso inaugural, com uma saraivada infindável de lugares comuns voltados para o aplauso da galera. Constrangedor.

 

Se a chuva surgiu para empanar a féerie à brasileira, com chibatadas de vento, pior ainda, para os organizadores da noite, foi o contraste com o show high tech, de beleza radical, encenado pelos japoneses – presumindo o magnifíco espetáculo que certamente será a Olimpíada de Tóquio em 2020. Até o primeiro-ministro Shinzo Abe aflorou no gramado do Maracanã. Os políticos japoneses não têm por que ter medo do público.

O Rio fez o que dava para fazer, bem ao seu estilo. A Olimpíada não vai, sozinha, fazer o Brasil acreditar que é melhor do que é; nem que é pior do que é.

Foi bonita a festa, sim. Da vaia ao interino ficou a lição de que ele e seus aduladores não serão absolvidos por obra de uma mistificação esportiva ou graças a um despiste cenográfico. Os Jogos do Rio entraram para a História pela porta da frente; ao interino a História já reservou a sua lata de lixo.