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Muhammad Ali, atleta?

por Daniel Teixeira — publicado 06/06/2016 16h01
Fora da seara esportiva, o pugilista conquistou vitórias altamente significativas
Brendan Smialowski / AFP
Muhammad Ali

Flor e imagem de Muhammad Ali durante homenagem ao pugilista no Muhammad Ali Center, em Louisville, Kentucky, nos Estados Unidos, em 5 de junho

Antes de uma possível interpelação contra o título deste artigo – que pode parecer acinte a uma das mais brilhantes personalidades da história do esporte mundial – convém responder à pergunta: sim, Ali foi atleta e um dos melhores. Mas sua biografia registra a trajetória de um ser humano que marcou sua era, como líder e referência em muitas outras searas, além da esportiva.

São diversas as iconografias em que se reserva um espaço de luxo para o impávido Muhammad Ali. A referência e reverência feitas por Caetano Veloso na música “Um Índio” (1976) não podia ser mais feliz por caracterizar em uma palavra a figura do boxeador no imaginário social, especialmente em um tempo no qual eram comuns as agressões a pessoas que defendiam ideais democráticos pelo mundo, a exemplo dos Estados Unidos.

Como ícone destes ideais, Muhammad Ali não se deixou abalar pelo temor, foi corajoso, destemido, intrépido, ou seja, impávido, de acordo com definição dicionarizada.

Sua influência estende-se muito além dos ringues da nobre arte. Sua força alcançou outros continentes, além das terras americanas. Na luta do século, realizada no ano de 1974, contra George Foreman, em Kinshasa (então Zaire), a população local já predizia o resultado acolhendo o campeão aos gritos de vitória “Ali, bomaye!”, o que se confirmou em um dos momentos de maior glória do esporte.

Para o movimento político pelos direitos civis, entretanto, um dos grandes títulos de Muhammad Ali é antecedente à luta: a recusa em servir o exército durante a Guerra do Vietnã, por conta de convicções políticas e crença religiosa, o que provocou a perda de sua condição anterior de campeão da divisão de pesos pesados de boxe.

Sua vida após o boxe profissional continuou emblemática. Por meio de ações simbólicas e concretas, conseguiu continuar chamando a atenção do mundo para batalhas necessárias contra injustiças.

Neste sentido, sua viagem a Cuba, nos anos 1990, possui tanto caráter simbólico, por denunciar a perversidade do embargo econômico sobre uma população que tanto se esforçava para sobreviver de acordo com suas convicções, quanto concreto, por ter ajudado com equipamentos os projetos comunitários destinados à saúde de crianças.

A despeito de sua trajetória espantosa como atleta, o que mais impressiona é seu cartel nas lutas contra um sistema que insistia e insiste em embrutecer as pessoas por meio do racismo, intolerância e manipulação. Muhammad Ali teve um desempenho invejável nestas batalhas e por isso será sempre lembrado. O seu melhor ícone, em razão disso, é o da esperança em tempos nos quais seus adversários de sempre ganham força, em diversos países, inclusive no Brasil.

 

*Daniel Teixeira é advogado e diretor de projetos do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades - CEERT. Graduado e Especializado em Direitos Difusos e Coletivos pela PUC-SP, foi pesquisador-visitante da Faculdade de Direito da Universidade de Columbia (Nova Iorque) e fellow do Public Interest Law Institute (Budapeste).

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