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Sociedade

Crônica

Mas o que é isso?

por Menalton Braff publicado 06/08/2012 11h30, última modificação 06/06/2015 18h25
As pessoas acabam acreditando que um atleta tem o dever da vitória, numa transferência ridícula dos êxitos alheios para suprir as frustrações próprias
Brasil

A judoca Rafaela Silva, que falhou e se tornou sujeito e objeto da fúria. Foto: Marcio Rodrigues / Fotocom.net

Desde que o esporte deixou de ser uma questão de saúde, qualidade de vida, para tornar-se uma questão econômica com altíssimos faturamentos, temos assistido a cenas lamentáveis, para não dizer grotescas.

A pressão que a mídia exerce sobre os atletas exigindo-lhes resultados é simplesmente monstruosa. E pior. Os órgãos da imprensa conseguem contaminar o público em geral com seu vírus. As pessoas acabam acreditando que um atleta tem o dever da vitória, numa transferência ridícula dos êxitos alheios para suprir as frustrações próprias.

Ora, um atleta tem o dever de fazer o melhor que humanamente conseguir. Sem o que muitas vezes ocorre, com a agressão e a violência ao corpo, como se esse fosse apenas uma máquina que se repõe com facilidade.

É lastimável o nível da maioria dos jornalistas postos a campo a fim de realizar o desiderato dos investidores e exploradores do esporte. São geralmente ingênuos, sem a menor noção do papel que desempenham, mas que desempenham muitas vezes burlescamente. Acredito até que alguns conheçam a modalidade que se botam a comentar. As emissoras e os jornais, altamente patrocinados, contratam alguns especialistas que deverão impressionar o respeitável público. Os demais, que se pode chamar de generalistas, esses são dignos de pena.

Conhecer a modalidade que comentam, podem conhecer. Alguns, pelo menos. Mas de ser humano, do verdadeiro sentido do esporte, não entendem um mínimo para evitar uma das cenas monstruosas a que se assistiu nestas Olimpíadas 2012. Não interessa saber a que empresa pertence nem o nome do infeliz. E isso porque não houve grande variação nas transmissões, nos comentários e nas reportagens.

Uma jovem brasileira acabava de ficar em terceiro lugar, ou seja, estava desclassificada para disputar a final dos cem metros rasos femininos. Ora, a própria mídia, durante muito tempo alimentou as ilusões da moça, pressionando para que mostrasse resultado, para que honrasse o investimento que alguém havia feito em seu sucesso.

A moça em causa subiu a rampa na direção da sala onde deveria juntar seus pertences, e o fez com as lágrimas riscando seu rosto. A derrota nunca é causa de regozijo. O público em volta observava provavelmente condoído com a tristeza daquela moça vestida de verde e amarelo, representante de um remoto país da América do Sul, aquele triângulo imenso coberto de florestas e índios.

 

O jornalista não perdeu a oportunidade. O câmera focou o rosto da infeliz criatura, e o repórter, microfone em punho, fez de tudo para interromper seu choro. Perguntas não só tolas, algumas até ofensivas. Mas é claro que ele não percebeu o que estava fazendo. No esporte, como na economia, não existe tristeza, este sentimento inferior observado em alguns seres humanos.

Pois não é que o repórter pediu à moça que se conservasse a seu lado observando uma outra fase da competição? No meu tempo de jovem a gente chamava isso de crueldade. Hoje me parece que ninguém mais sabe o que seja isso, tão banalizados vão os atos desumanos.

Quando a câmera cortou o plano maior, onde outras moças estiveram correndo, e fechou sobre o rosto da indigitada atleta, o repórter disse entre sorrisos que seu canal estava na casa de parentes da jovem, se ela gostaria de enviar alguma mensagem. Meu deus do céu, se isso não é grosseria, não sei mais o que seja.

A atleta, fungando ainda, muito simplesmente virou as costas e desapareceu no túnel de saída.

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