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Racismo

Maria Filó põe à venda roupas estampadas com mulheres escravizadas

por Tory Oliveira publicado 14/10/2016 18h25, última modificação 14/10/2016 18h33
Grife é criticada por consumidoras e celebridades negras. Em justificativa, empresa diz que coleção era alusão à obra de Debret
Blusa com estampa de mulheres escravizadas da Maria Filó

Com estampa a retratar a escravidão, blusa da coleção Pindorama era vendida por 329 reais

Uma calça comprida, uma blusa e uma saia estampadas com imagens de mulheres negras em situação de escravidão ensejaram uma chuva de críticas e acusações de racismo contra a marca Maria Filó, após o relato de uma consumidora negra criticando os produtos viralizar nas redes sociais nesta sexta 14. 

"Começo a olhar as roupas e me pergunto: Confere? É uma estampa de escravas entre palmeiras. É uma escrava com um filho nas costas servindo uma branca? Perguntei à vendedora se aquela estampa tinha alguma razão de ser ou se era só uma estampa racista mesmo. Ela, me dirigindo à palavra pela primeira vez, não soube responder", relatou Tâmara Isaac no Facebook, em publicação com mais de 1,1 mil compartilhamentos. O caso ocorreu em uma loja de Niterói, no Rio de Janeiro. 

As peças, com preços entre 239 e 329 reais, que faziam parte da coleção Pindorama, estavam à venda nas lojas físicas e virtuais da marca até o início da tarde da sexta 14. Com a repercussão negativa, as roupas para venda online não estão mais disponíveis. A Maria Filó também passou a responder às críticas em seu perfil oficial no Facebook. 

"Gostaríamos de fazer um esclarecimento. A estampa em questão buscou inspiração na obra de Debret. Em nenhum momento tivemos a intenção de ofender. Pedimos sinceras desculpas e informamos que já estamos tomando as devidas providências para que a estampa seja retirada das lojas", justificou a marca. 

Também pelo Facebook, a atriz Taís Araújo expressou críticas à Maria Filó: "A escravidão não pode virar 'pop', não pode ser vendida como uma peça de moda"

Para a filósofa política e feminista negra Djamila Ribeiro, as estampas naturalizam uma situação de opressão da população negra que foi escravizada no Brasil como se fosse algo comum. "Se fossem estampas aludindo ao Holocausto seria um problema enorme", exemplifica a secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Ela classifica como insuficiente a justificativa de que se tratou de uma alusão ao pintor francês pintor francês Jean-Baptiste Debret, que retratou, entre outras, cenas da escravidão no Brasil no século XIX. "Há outros recortes na obra dele". 

Ribeiro também chama atenção para o fato de o caso vir à tona justamente após o comentário de uma consumidora negra. "Ela ter reparado nisso diz muito. Muitos participaram da concepção e comercialização das roupas com essas estampas e sequer se incomodaram. Isso diz muito sobre a falta de uma discussão séria sobre o racismo e sobre a falta de diversidade nessas marcas", critica a colunista do site de CartaCapital. 

O Brasil foi o último país da América a abolir a escravidão, o que só ocorreu às vésperas do século XX, em 1888. Os cálculos sobre o número de africanos transportados como escravos para os portos brasileiros varia, mas estima-se que entre 1550 e 1855, quatro milhões foram trazidos à força para o Brasil. Submetidos a condições extenuantes de trabalho e castigos físicos, a estimativa de vida de um homem negro escravizado no Brasil em 1872 era de 18,3 anos, bem inferior à média da população, de 27,4 anos. 

A grife já esteve envolvida recentemente em outra polêmica, quando o empresário Alberto Osório, dono da rede, disse para uma funcionária grávida que só contrarará trabalhadores gays no lugar de mulheres "porque eles não engravidam". A declaração, ocorrida em setembro de 2015, gerou uma avalanche de críticas.