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Influência 2.0

por Thomaz Wood Jr. publicado 10/01/2013 09h53, última modificação 06/06/2015 18h42
A onipresença das redes sociais, a ansiedade por status e o culto à celebridade levam à criação de índices de influência
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A onipresença das redes sociais, a ansiedade por status e o culto à celebridade levam à criação de índices de influência

O fenômeno foi detectado acima da linha do Equador. Em abril de 2012, a revista Wired publicou matéria a respeito. No fim de novembro, um texto no website da Harvard Business Review lhe fez eco e, em seguida, uma colunista do Financial Times orientou sua ironia britânica ao assunto. O centro da polêmica é o Índice Klout, criação de Joe Fernandez, um empreendedor de São Francisco, a mesma cidade na qual Alfred Hitchcock filmou Vertigo. A cria gerou polêmica, e alguma vertigem, porque o tal índice foi desenvolvido para medir o grau de influência de qualquer indivíduo (eu, tu, ele, nós, vós e eles) nas redes sociais, ou pseudossociais.

O Índice Klout, como outros similares, é calculado a partir de uma base de variáveis que inclui o número de seguidores no Twitter, a frequência de atualizações, o número de recomendações, o Índice Klout de amigos e seguidores etc. A escala varia de 1 a 100: 1 equivale a um atestado de inexistência digital; valores próximos de 20 indicam a insignificância social do indivíduo; valores próximos de 100 são atribuídos aos luminares do nosso tempo, como, por exemplo, a celebridade pop Justin Bieber.

Para ter um Índice Klout decente é necessário frequentar as redes sociais, dedicar tempo e energia a indicar os mais incríveis restaurantes japoneses no Facebook e a inserir aforismos filosóficos em até 140 caracteres no Twitter. Entretanto, isso não basta: é preciso também que as pérolas, em fatos e fotos, viajem pelas redes sociais e sejam reproduzidas por outros usuários.

Agora, reportam os cronistas do Norte, o fenômeno chega às empresas. De fato, no mundo corporativo, o fetiche da influência não é novo. Há duas décadas, em um estudo científico, pesquisadores fizeram ao corpo gerencial de uma empresa três singelas perguntas: Primeira, quem é o seu líder? Segunda, em quem você confia? E, terceira, quem você procura quando tem um problema? Da compilação das respostas surgiram, respectivamente, o organograma da empresa e suas redes de confiança e expertise. Significativamente, os diagramas gerados eram diferentes. Alguns gestores, de alta patente, apareceram solitários nas redes de confiança e expertise. Outros, apesar da baixa patente, mostraram-se influentes.

De lá para cá, multiplicaram-se os cursos e livros de autoajuda corporativa, para treinar candidatos a Maquiavel na arte de fazer amigos e influenciar pessoas. Hoje, reza o credo, explícito ou implícito, nas empresas: não basta ser honesto, inteligente e trabalhador; o que importa é ter influência ou parecer ter influência.

A novidade agora é a onipresença das redes sociais, inclusive nas empresas. Com a base montada, era questão de tempo até um empreendedor californiano, anabolizado por um investidor, criar um obscuro algoritmo matemático e inventar um índice de influência.

Gestores de recursos humanos, sempre ávidos por novidades de baixa densidade, começam a adotar os índices de influência para definir contratações, promoções e demissões: “Prezado, todos aqui o respeitamos e reconhecemos sua contribuição, mas seu índice de influência caiu 20% no ano passado e não poderemos mais mantê-lo em nossos quadros”. Se a moda pega, logo surgirão assessores especializados, capazes de alavancar o Índice Klout de qualquer um disposto a pagar pelo serviço. E pode ser um negócio lucrativo, porque um patamar duramente conquistado pode despencar se o personagem tirar duas semanas de férias, distante das redes sociais.

Empresas mencionadas pela Wired estão também utilizando o Índice Klout de clientes para decidir a quem dar maior atenção. Talvez num futuro próximo tenhamos celebridades Klout sendo convidadas a furar filas, ganhar descontos especiais em hotéis e restaurantes, e obter upgrades instantâneos em viagens aéreas.

Com a novidade vieram as críticas. A ideia de ter a vida profissional ou pessoal afetada por algoritmos obscuros criados por pós-adolescentes recém-egressos de Stanford pode ser detestável. Lucy Kellaway, do Financial Times, afirma não fazer sentido sintetizar em um número algo tão subjetivo quanto o grau de influência. Simplista, o Índice Klout iguala celebridades pop a chefes de Estado.

Joe Fernandez, o criador, declarou à Wired que vê o Índice Klout como uma forma de dar mais poder às pessoas comuns, de democratizar a influência. Parece ter boas intenções. No entanto, em um mundo obcecado com a aparência e o status, os índices de influência podem também constituir mais um componente para alimentar a estratificação social, a ansiedade e o comportamento de manada, características já marcantes, e irritantes, do nosso tempo.

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