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Humor Criminalmente Incorreto

por Matheus Pichonelli publicado 20/03/2012 12h28, última modificação 06/06/2015 18h22
Paródia sobre comediantes racistas é a melhor resposta, até agora, aos engraçadinhos que minimizam o preconceito com mais preconceito
rafucko

Em paródia, videomaker afirma ter fundado o 'Clube KKK de Humor Criminalmente Incorreto'

Parecia piada, mas não era. Na semana passada, o tecladista de uma banda que acompanhava um show de stand up comedy num clube em São Paulo abandonou o palco e chamou a polícia. Estava ofendido com a referência feita por um comediante sobre a relação entre Aids e o sexo entre humanos e macacos – o comediante, ao dizer que vivia comendo macacos e nunca pegou a doença, olhou para o tecladista, que é negro, e perguntou: “né?”

O show de humor proibidão – era o nome do espetáculo – acabou mal, ainda que os espectadores, logo na entrada, tivessem assinado um termo se comprometendo a não se ofender com piadas sobre negros, mulheres e deficientes. Como virou caso de polícia, a patrulha antipoliticamente correto, capitaneada pelos gênios da comédia atual, chiou, lamentando o sepultamento do bom humor.

Pois foi com bom humor que surgiu a resposta aos engraçadinhos. Se é rindo que se corrigem os costumes, como ensinava Gil Vicente, um vídeo protagonizado pelo radialista e videomaker carioca Rafucko é o candidato a novo "meme" (fenômeno) da internet. (assista ao vídeo AQUI)

 

Apresentando-se como Danilo Alexandrino, fundador do clube KKK de “Humor Criminalmente Incorreto”, Rafucko fez até agora a melhor leitura sobre o episódio ao mostrar, por meio de uma paródia, que o caso não teve graça (pelo menos não para as vítimas das piadas, ainda repetidas à exaustão em palcos de comédia, mesas de bar e almoços em família).

O nome é uma alusão à Klu-Klux-Klan, milícia racista que defendia – com métodos violentos – a supremacia branca nos Estados Unidos. “Nosso clube não é racista, é um clube sem limites. São brincadeiras para pessoas que aceitam brincadeiras”, explica, com fingido cinismo.

“A gente faz muita piada com negros, né? Mas também a gente faz com gay, com nordestino, com travesti. Quer dizer: não tem essa implicância que estão falando, não”.

Com uma máscara da Klu-Klux-Klan em mãos, o videomaker cita as regras do “Proibidão” da vida real. “A gente tem um termo que todo mundo assina no início. Não é uma proibição de a pessoa se sentir ofendida, mas se a pessoa sabe o que tá acontecendo ali...Aí veio um cara, um negro, se sentiu ofendido, mesmo já tendo sido avisado que ali as piadas iam ter conteúdo racista. Claramente querendo se promover às nossas custas.”

O radialista dá a estocada final ao resgatar alguns dos mais racistas dos argumentos para justificar os crimes de racismo:  “Tanto não é ofensivo que a gente lotou a casa. Estava todo mundo rindo, se divertindo. Imagina! Não tinha motivo pra chamar a polícia. Esse negócio de falar que tem preconceito, não tem nada a ver. Tenho até amigos negros, gays, nordestinos. Tenho, inclusive, um amigo que é gay e nordestino.”

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu algo parecido para justificar o discurso sobre nosso País de não-racistas (os mesmos não-racistas que não parecem se incomodar com os espaços de exclusividade para brancos e ricos, como as salas de comédia e outros equipamentos culturais e sociais). Se a ridicularização de minorias é a regra para fazer rir, é bom que se lembre quem faz o papel mais ridículo (e tragicômico) da história toda. Seria mais fácil sorrir no Brasil se houvesse outros comediantes como Rafucko.