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Espancado em reintegração está em estado grave, dizem ativistas de direitos humanos

por Redação Carta Capital — publicado 05/02/2012 15h57, última modificação 06/06/2015 18h21
Enquanto hospital aponta AVC, entidades de direitos humanos temem adulteração de informações sobre suposto caso de agressão pela PM
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Moradoras deixam comunidade no dia da reintegração de posse do assentamento Pinheirinho. Foto: Reuters/Latinstock

Por Clara Roman e Isabel Harari*

Depois de quase duas semanas de procura, Osorina Ferreira de Souza finalmente conseguiu localizar seu ex-marido. Ex-moradora do Pinheirinho, ela perdeu o contato com Ivo Teles dos Santos, com quem foi casada, no dia da operação policial que despejou cerca de 1,6 mil famílias do assentamento, em 22 de janeiro. Teles está internado no hospital municipal Dr. José Carvalho de Florence, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e permanece desacordado. A entidades de direitos humanos Osorina declarou que seu companheiro foi agredido pela Polícia Militar e o mesmo foi dito ao hospital e à Prefeitura de São José dos Campos.

Santos seria uma nova vítima de agressão da PM, que foi flagrada em um vídeo espancando outro homem durante a reintegração de posse do terreno.

Segundo a própria Secretaria de Saúde, Teles chegou ao Pronto-Socorro do Campo dos Alemães, ao lado do Pinheirinho, no próprio dia 22. Lá, ele relatou ter sido agredido pela Polícia Militar. O paciente foi encaminhado para o hospital, onde permanece internado.

Na tarde do sábado 4 de fevereiro, Osorina se reuniu com o defensor público Jairo Salvador, o advogado Aristeu Pinto Neto, da Comissão de Direitos Humanos da OAB, acompanhados do deputado Federal Adriano Diogo (PT) e da vereadora de São José dos Campos Amélia Naomi (PT). Durante o encontro, Osorina teria dito que ainda não teve acesso aos documentos de entrada de Teles no hospital, nem aos exames feitos.

O grupo exigiu que o hospital mostrasse o Boletim de Atendimento Urgencial (BAU), documento que faz parte do prontuário e que é emitido no momento da entrada do paciente. O pedido, no entanto, foi negado.

“A companheira deste senhor entrou no hospital e disse que ele foi vítima de traumatismo craniano em virtude dele ter sofrido uma agressão. Desde que ela falou essa palavra, não teve acesso a nenhum documento, a nenhuma informação”, aponta o deputado Adriano Diogo.

Segundo Diogo, o médico responsável, Dr. Marcelo Guerra, telefonou ao secretário de Saúde, Danilo Stanzani, que proibiu a liberação do BAU, mas permitiu a emissão de uma nota de esclarecimento sobre o estado de saúde de Teles. A informação é confirmada pelo secretário.

Segundo a nota, Teles sofreu um acidente vascular cerebral hemorrágico (AVCH), decorrente de hipertensão. O documento afirma que o hematoma foi drenado e a situação é estável. “Legalmente, não podemos ter acesso aos documentos de entrada. Mas os familiares podem ter informações de como esse senhor entrou”, diz Diogo.

Stanzani argumenta que o paciente tem direito ao sigilo de prontuário e que somente ele pode requisitar sua divulgação. “É uma questão legal, baseada numa resolução do CRM”, diz.

Com Teles inconsciente, o relatório só poderá ser liberado por meio de ordem judicial, segundo ele.

“O funcionário disse que não iria nos dar nenhuma informação, e chamou o secretário de Saúde, que mandou produzir esse ‘papeluço’ e nem assinou”, afirma Diogo, que acredita que o quadro possa ter sido alterado.

"O médico daqui, o doutor Marcelo, diretor de plantão administrativo, ligou para o secretário de Saúde, que mandou produzir este documento, e não nos deu acesso ao documento de entrada. Nós fomos enxotados do hospital, e aí foi produzido este documento pela Secretaria de Saúde, por uma pessoa que assinou o documento e que nós não vimos," completa.

Já Stanzani diz que Teles já apresentava confusão mental quando chegou ao Pronto-Socorro no dia 22, sintoma de AVC e que, por isso, pode ter se enganado quando afirmou que foi agredido. Ele desconhece a informação de que Teles e o homem que aparece no vídeo sejam a mesma pessoa. 

Enquanto grupos de direitos humanos apontam para uma tentativa de esconder informações por parte do hospital, ligado a prefeitura e administrado pela organização social SPDM, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) , o secretário de saúde enxerga uma politização do tema. “Essas pessoas que estavam lá ontem só querem gerar um clima ruim entre a população e o poder público”, afirma o secretário.

“Isso faz parte da guerra eleitoral desse ano”, diz, em referência à disputa pela Prefeitura e na Câmara dos Vereadores. Os grupos de direitos humanos também entendem que a questão é política, uma vez que é atrelada à desocupação do Pinheirinho - para eles, fruto de divergências partidárias e interesses econômicos, políticos e sociais.

A Secretaria de Saúde aponta que Teles já apresentava quadro hipertensivo e que fazia acompanhamento regular na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Residencial União, medicado com o remédio Captopril.
Médicos ouvidos por CartaCapital sinalizam que a agressão pode ter deflagrado a crise hipertensiva. “O estresse causado por uma briga ou lesão física pode ser o gatilho para um AVC, se o paciente tiver um quadro de hipertensão [como é o caso de Ivo]”, afirma José Almir Adena, do departamento de Cardiogeriatria da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

 A Secretaria de Saúde encaminhará o prontuário de Teles ao Conselho Regional de Medicina (CRM). Depois de análise, o órgão emitirá parecer sobre a validade da documentação divulgada.

*Colaborou Alexandre Maciel 

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