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Empresas de alimentos ignoram bem estar de fornecedores e exploram mais pobres, diz ONG

por Gabriel Bonis publicado 28/02/2013 16h38, última modificação 06/06/2015 18h42
Estudo da Oxfam mostra que companhias lucram bilhões com matérias-primas do campo, mas não têm políticas efetivas para eliminar miséria rural

Apesar de admitirem a necessidade de criar um sistema alimentar mais justo, as dez maiores empresas do setor de alimentos do mundo não adotam políticas para garantir o bem-estar dos trabalhadores de sua própria cadeia de fornecimento. Ao contrário, elas lucram com o sistema que explora os mais pobres e ignoram necessidades de produtores por melhores salários e combate a pobreza. Essas são as conclusões do relatório "Por Trás das Marcas" (Leia AQUI), divulgado nesta semana pela ONG britânica Oxfam.

A campanha "Por Trás das Marcas" analisa, por meio de dados públicos e oficiais das empresas, as políticas sociais e ambientais de dez companhias: Associated British Foods (ABF), Coca-Cola, Danone, General Mills, Kellogg, Mars, Mondelez International (antiga Kraft Foods), Nestlé, PepsiCo e Unilever. Para chegar ao resultado a Oxfam atribuiu notas de zero a dez para as políticas das empresas em sete temas da produção agrícola sustentável: as mulheres, agricultores familiares e de pequena escala, trabalhadores rurais, água, terras, mudança climática e transparência.

A ONG realizou o estudo provocada pela afirmação da FAO, órgão da ONU para segurança alimentar, de que 850 milhões de pessoas passam fome no mundo. “Destes, 80% estão nas áreas rurais, de onde vem a matéria-prima destas empresas de alimentação”, ressalta Rafael Cruz, assessor de políticas públicas da Oxfam, a CartaCapital.

Juntas, as companhias analisadas geram mais de 1,1 bilhão de dólares por dia, empregando milhões de pessoas no cultivo, processamento, distribuição e venda de seus produtos. O setor, avaliado em 7 trilhões de dólares - 10% da economia global -, tem receita anual acima de 450 bilhões de dólares, mais que o PIB de Argentina, Chile e Portugal.

Mesmo com tamanha capacidade financeira, as empresas “claramente não utilizam o poder que têm para ajudar a criar um sistema alimentar mais justo”. Em alguns casos, até prejudicam a segurança alimentar e a oportunidade econômica dos mais pobres, segundo o relatório. “Essas empresas têm receitas maiores que o PIB de muitos países. Isso as coloca na posição de quem tem que contribuir para que seus negócios não sejam apenas exploratórios", diz Cruz. "Se elas não se sentem responsáveis, não entenderam o papel das empresas no século XXI.”

Em meio a esse quadro, todas as companhias tiveram resultados abaixo de 40 dos 70 pontos possíveis (veja o ranking completo no gráfico abaixo). Nestlé e Unilever apresentaram melhor desempenho que os demais por terem desenvolvido e publicado mais políticas para combater riscos sociais e ambientais em suas cadeias de fornecimento. Na outra ponta ficaram a ABF e a Kellogg.


Algumas empresas conseguiram bons resultados em certos itens, mas foram mal em temas como concentração agrária ou políticas para mulheres. “Essas companhias não atingiram um grau de maturidade em que encaram o problema com seriedade. Respondem mais a demandas regulatórias do que elaborar um plano para inclusão de pequenos agricultores e combate a fome", aponta Cruz.

Os problemas aparecem até mesmo nas duas primeiras colocadas. Ambas ignoram situações urgentes que vêm se intensificando, como a apropriação de terras de agricultores pobres e a exploração de mulheres no setor. Elas também não adotaram políticas para combater a “pobreza esmagadora” no campo. Um cenário parecido encontrado na ABF e na Kellogg.

Empresas vilãs?

O estudo destaca que, ao longo do século passado, diversas empresas do setor tiveram grande sucesso comercial, enquanto milhões de pessoas que produziam as matérias-primas para abastecê-las passavam por dificuldades em acesso a terra, água e condições decentes de trabalho.

Entre os casos apresentados pela ONG está a exploração excessiva de água pela Nestlé no Paquistão, que causa escassez nos lençóis freáticos e aumenta o custo da água às comunidades locais. A empresa lucra por meio da venda engarrafada da marca Pure Life, que representa cerca de 50% do mercado de água paquistanês.

O engarrafamento, diz a Oxfam, ocorre em uma instalação próxima de comunidades da região de Sheikhupura, onde o acesso à água potável é inadequado. Segundo moradores, a multinacional não garante acesso adequado de água aos residentes, que possuem uma necessidade exponencialmente menor que a da Nestlé.

As comunidades locais “pagam altos custos para bombear” a água, porque “os níveis baixaram” demais devido às operações da empresa. A Nestlé, por outro lado, diz usar os recursos de forma responsável e que construiu duas instalações de filtragem para fornecer água potável a mais de 100 mil pessoas na região.

As compras de baunilha da Unilever em Madagascar também foram citadas no relatório. A empresa adquire cerca de 8% da baunilha produzida no país africano para uso em seus sorvetes, mas os fornecedores recebem pouco, o que colabora, de acordo com a Oxfam, para a existência de trabalho infantil. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, um terço das crianças entre 12 e 17 anos de Madagascar são afetadas pelo problema. A Unilever afirmou que compra baunilha somente de alguns grandes fornecedores globais.

As dez empresas analisadas contestaram a pesquisa afirmando que os problemas do sistema alimentar são causados em grande parte por governos, traders e consumidores.

A Oxfam rebate a defesa das empresas afirmando que elas realizam forte lobby nos governos, responsáveis por garantir os direitos dos cidadãos. Ainda segundo a ONG, as traders, fornecedoras de sementes, fertilizantes e que atuam como proprietários de terra, produtores de gado e aves, etc, também podem ter seu modo de atuação influenciado pelas empresas alimentícias, que compram seus produtos.

O papel dos consumidores

Os consumidores têm papel importante para pressionar as empresas a adotarem políticas sociais e ambientais mais adequadas, conforme já vem ocorrendo. Segundo a Oxfam, nos últimos dois anos mais de 200 investidores protocolaram individualmente ou em conjunto resoluções de acionistas relativas a questões ambientais, sociais ou de governança, representando mais de um trilhão de dólares em ativos.
Além disso, uma recente pesquisa online da Nielsen com mais de 28 mil respostas em 58 países revelou que mais da metade dos entrevistados de Ásia, Oriente Médio e África está disposta a pagar mais para ter produtos que “dão retorno à sociedade”.

Outro estudo da Oxfam (gráfico acima) mostrou que quase 90% das mulheres entrevistadas na Índia, Brasil e Filipinas afirma ter interesse em se informar melhor sobre os alimentos que compra.

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