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Em busca do nono planeta

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 21/01/2016 21h43, última modificação 21/01/2016 21h51
Uma possível descoberta nos confins do Sistema Solar ecoa a busca por novos astros e planetas ao longo da história
Caltech/R. Hurt (IPAC)
Planeta 9

Concepção artística da vista do planeta

Na quarta-feira 20, os astrônomos Konstantin Batygin e Michael E. Brown, do California Institute of Technology, divulgaram um estudo no qual concluem pela existência de um planeta desconhecido nos confins do Sistema Solar.

Não um “planeta anão” como Plutão, Éris ou Sedna, mas um gigante, com massa pelo menos dez vezes superior à da Terra, ou seja, comparável, no mínimo, a Urano e Netuno e extremamente distante.

Sua órbita teria uma excentricidade de 0,6 e um semieixo de 700 unidades astronômicas, o que significa que no ponto da órbita mais próximo do Sol, o periélio, estaria a uma distância em torno de 280 unidades (cerca de 42 bilhões de quilômetros) e no mais distante, o afélio, a 1.120 unidades (168 bilhões de quilômetros).

Sua volta em torno do Sol deve demandar quase vinte mil anos. A inclinação de sua órbita em relação à eclíptica deve ser de 30 graus, maior que qualquer outro grande planeta.

Isso nada tem a ver, vale notar, com o imaginário Nibiru de Zecharia Sitchin. Este teria um período de 3.600 anos e um semieixo de 235 unidades astronômicas, cujo periélio passaria próximo da Terra, o que implica uma excentricidade de 0,996. Se um planeta gigante com essas características existisse, o Sistema Solar teria se desarticulado há muito.

Vale lembrar como a existência de Netuno foi deduzida em 1846 pelo matemático francês Urbain Le Verrier em função de perturbações da órbita de Urano e confirmada meses depois pelas observações do astrônomo britânico James Challis, na região do espaço apontada e com as características esperadas.

Desde então, muitos tentaram repetir a façanha. No fim do século XIX e início do XX, supostas perturbações adicionais da órbita de Urano e do próprio Netuno levaram vários astrônomos, inclusive o excêntrico Percival Lowell, a prever a existência de um ou mais planetas a distâncias de 38 a 72 unidades astronômicas do Sol.

A busca pelo “Planeta X” de Lowell acabou por levar à descoberta de Plutão por Clyde Tombaugh em 1930, mas por pura coincidência. Como se comprovou nos anos 1970, Plutão é pequeno demais para as supostas discrepâncias orbitais que deveria explicar.

Outras tentativas de buscar o “Planeta X” nos anos 1970 e 1980 fracassaram. Em 1993, uma medição mais exata da massa de Netuno pela sonda Voyager 2 comprovou que ela era ligeiramente menor do que se calculara e isso explicava as aparentes anomalias orbitais sem a necessidade de um planeta adicional.

Desde 1992, cerca de dois mil corpos celestes foram descobertos para além de Plutão, um deles (Éris) de massa até um pouco maior. Certamente se confirmarão ou descobrirão muitos outros, mas nenhum em condições de ser considerado um “verdadeiro” planeta desde que, em 2006, a União Astronômica Internacional redefiniu o termo e criou a nova categoria de “planeta anão” para incluir os maiores deles ao lado de Plutão, de Éris e do asteroide Ceres.

Outra busca fracassada foi a do suposto planeta Vulcano, deduzido de perturbações da órbita de Mercúrio e que existiria entre este e o Sol. O mesmo Le Verrier tentou calcular sua órbita em 1843, sem sucesso.  

Após o sucesso com Netuno, voltou ao tema, fez um novo estudo em 1859 e novamente fracassou. Alguns astrônomos do século XIX julgaram tê-lo descoberto, mas certamente se enganaram. Em 1915, Albert Einstein demonstrou que as perturbações de Mercúrio não eram causadas por um corpo desconhecido, mas por um efeito colateral da teoria da relatividade. Nunca se descobriu sequer um asteroide entre o Sol e Mercúrio.

Outra especulação descartada foi a proposta de 1984 de uma estrela anã vermelha ou anã marrom apelidada Nêmesis a uma distância de 95 mil unidades astronômicas do Sol e com um período de 26 milhões de anos.

Ela responderia por perturbações massivas nas órbitas de cometas e por extinções em massa resultantes da queda de alguns deles na Terra (como no fim da era dos dinossauros). Apesar do tamanho suposto, jamais foi encontrada e desde então, análises mais precisas das extinções do passado rejeitaram a tese de que elas ocorreram a intervalos regulares de 26 milhões de anos.

Outra proposta, de 1999, sugeriu um planeta supergigante apelidado Tique (nome grego da deusa Fortuna) com massa cinco vezes maior que a de Júpiter, a 15 mil unidades astronômicas e com período de 1,8 milhão de anos que responderia por um viés na distribuição de cometas de longo período. A NASA tentou verificar essa hipótese e a descartou em 2014, com a garantia de que não existe nenhum planeta maior que Júpiter em um raio de 26 mil unidades.

A hipótese de Batygin e Brown tem um argumento semelhante ao usado para Tique, mas um tanto mais bem fundado. Baseia-se em um estudo das órbitas já calculadas de corpos para além de Plutão, meia dúzia das quais mostra um viés em uma direção definida, que faz supor sua perturbação por um corpo massivo na direção oposta. Segundo os astrônomos, a probabilidade de isso se dever ao acaso é de 0,007%. Caberia perguntar se isso poderia ser resultado da preferência de astrônomos por observar certas regiões do espaço, mas segundo os autores, esses corpos foram descobertos de maneira independente e não há nenhum viés observacional “óbvio”.

Além disso (embora o estudo não mencione esse detalhe), essa hipótese se encaixa bem no chamado “modelo de Nice” proposto em 2005 pelo Observatoire de la Côte d'Azur, na França, para explicar com bastante sucesso os detalhes da formação do Sistema Solar tal como o conhecemos hoje.

Em sua última versão, de 2011, explica a atual exata disposição das órbitas com um planeta gigante adicional entre Saturno e Urano que teria sido expelido para os confins do Sistema ou mesmo para o espaço interestelar.  

(Crédito: Caltech/R. Hurt - IPAC)
Nada está garantido, porém, até que as observações confirmem ou descartem a existência de um corpo com as dimensões esperadas (duas a quatro vezes o diâmetro da Terra) na direção apontada.

Supondo que a descoberta seja confirmada, qual seria o nome mais adequado para o novo planeta? Tradicionalmente, apenas nomes de divindades greco-romanas foram aceitos para planetas propriamente ditos (embora nomes de outras mitologias ou literários tenham sido aplicados a satélites naturais, grandes asteroides e “planetas anões” e outros mais caprichosos para os pequenos asteroides). 

Ao descobrir Urano em 1781, o leal súdito britânico William Herschel deu-lhe o nome de “Georgiano” em homenagem a seu rei George III, mas o nome foi rejeitado por outras nações e acabou por se impor o nome do deus do céu proposto pelo colega alemão Johann Bode. O brilhante, mas egocêntrico Le Verrier quis dar o próprio nome à sua descoberta, mas os astrônomos não franceses rejeitaram a pretensão e ficaram com sua segunda opção, a do deus do mar.

O jornalista Ross Andeson, da revista estadunidense The Atlantic, sugeriu Nox, “Noite”, nome latino da deusa da noite grega Nyx, por ser tão distante do Sol que estaria mergulhado em noite perpétua. Sugerimos algumas alternativas, talvez mais interessantes:

Minerva. Achamos preferível um nome feminino, visto haverem apenas dois entre os planetas (Terra e Vênus) ante seis masculinos. Embora existam asteroides nomeado com seus sinônimos gregos Palas (número 2) e Atena (número 881), é a nosso ver Minerva é a mais importante deusa do Olimpo que ainda não tem um corpo celeste com seu nome latino. É também o nome de um planeta imaginário para além de Plutão em um conhecido romance de ficção científica, O Décimo Planeta, de Edmund Cooper (1973).

Vulcano. Além de ser o nome de um deus greco-romano importante e do planeta-fantasma buscado por Le Verrier dentro da órbita de Mercúrio, é frequente para planetas ficcionais dentro ou fora do Sistema Solar, inclusive a pátria do mais famoso alienígena da ficção científica, o Sr. Spock. Os fãs de Star Trek provavelmente aprovariam.

Prosérpina. O nome da poderosa esposa mitológica de Plutão foi frequentemente atribuído a planetas imaginários nos confins “sombrios” do Sistema Solar, assim como seu equivalente grego Perséfone. Este último já foi usado, porém, para um pequeno asteroide (o número 399 do catálogo, descoberto em 1895).

Líber. Quando a versão de 2011 do modelo de Nice acima referido foi formulada, vários nomes foram propostos para o hipotético quinto planeta gigante: Hades (sinônimo de Plutão), Mefítis (uma obscura divindade romana das doenças e miasmas) e Líber (um equivalente romano de Baco ou Dioniso). Dessas, a última é sem dúvida a divindade mais importante. Os nomes Baco e Dioniso são mais conhecidos, mas foram dados a pequenos asteroides (números 2063 e 3671, respectivamente). Tem a seu favor também o fato de que a filosofia de Friedrich Nietzsche popularizou a ideia de Apolo e Dioniso como princípios contrários, e o novo planeta, tão distante do Sol (tradicionalmente identificado com Apolo) é de certa maneira seu oposto.

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