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Eles são PMs de Cristo. E há 20 anos

por Gabriel Bonis publicado 25/07/2012 10h25, última modificação 06/06/2015 16h55
Grupo evangélico que atua na corporação paulista ganhou até dia no calendário oficial do estado
Capjoel

Foto: PMs de Cristo

O capitão Joel Rocha, da Polícia Militar de São Paulo, discursa sobre religião com a habilidade de um pastor. Suas palavras, cuidadosamente escolhidas, lideram os PMs de Cristo, associação de policiais militares evangélicos que completou em junho 20 anos de atuação dentro da PM paulista. Algo curioso para um ambiente facilmente associado a armas e combate à criminalidade, mas não à atuação religiosa. Há na corporação, entretanto, milhares de evangélicos, muitos deles atuando pela fé. “Enquanto conversamos, provavelmente em alguma reunião de quartel nosso grupo está orando”, diz o presidente da entidade.

E ele o faz com alguma base estatística. Dos cerca de 100 mil policiais do estado de São Paulo, 25 mil se declaram cristãos. Destes, em torno de 2 mil são PMs de Cristo, ou seja, 8% do total. Considerado um “braço amigo da PM”, o grupo age alinhado com a visão laica do comando, garante Rocha. “Temos o apoio incondicional para valorizar a figura humana do policial”, diz. Uma missão que ganha cada vez mais relevância conforme policiais são associados a uma conduta truculenta e casos de mortes de civis causadas por erros.

Para combater essa imagem, os PMs de Cristo reúnem policiais militares e civis voluntários de diversas religiões cristãs evangélicas para estimular nos companheiros características bíblicas de Jesus Cristo, como honestidade e coragem. Assumem também a propagação de valores cristãos à corporação e às pessoas com quem esta se relaciona. Tudo isso, por meio de núcleos espalhados pelo estado e com uma agenda movimentada.

Os frequentes eventos chegam a ter a participação de mil pessoas. Não chega a surpreender que a entidade tenha acabado de ganhar um dia no calendário oficial de São Paulo, graças ao projeto de lei de um deputado estadual. O dia pode ter sido ideia de um político, mas a entidade se apressa para dizer que o grupo é apartidário e com origem distante. Parte da história de Neemias, personagem bíblico que mobilizou as famílias de Israel para a reconstrução dos muros de Jerusalém.

É comum os voluntários realizarem atividades comunitárias nos espaços da Polícia Militar e em diversas igrejas, além de oferecer um serviço de capelania e orientação espiritual para complementar as ações de apoio pessoal da PM. Algo fundamental para o presidente dos PMs de Cristo, pois os policiais vivem em um ambiente onde a margem entre o correto e o ilegal é muito estreita. “Lidamos com valores fortes como a liberdade e o direito à vida. Isso provoca um nível de estresse elevado."

Justamente o tipo de ambiente que atrai mais religiosos, explica Leonildo Silveira Campos, teólogo e especialista emAntropologia da Religião. Para o professor da Universidade Metodista de São Paulo, a religião éum elemento chave emgrupos profissionais comclima deincertezas. “Durante as guerras, as Forças Armadas sempre levavam para as trincheiras capelães para realizar cultos e missas a fim de fortalecer os soldados na batalha contra oimponderável”, diz. Para ele, em regiões onde a atuação policial é mais perigosa, como Rio de Janeiro e São Paulo, é possível que a ação até traga certo benefício psicológico.

E esse é um dos objetivos do grupo, incluindo a atuação com policiais que cometeram erros durante o trabalho. “O erro neste serviço pode implicar tanto em uma suspensão, quanto na morte de inocentes. Isso traz muita pressão.” Para isso, afirma, a religião seria uma forma de harmonizar sentimentos conflitantes e recuperar PMs e presos com o vislumbre de um futuro a ser construído. A religião também controlaria o uso da força, diz Rocha. “O policial não deve sentir prazer na morte de ninguém.”

A atuação do grupo vai além dos cultos em quarteis. O trabalho começa quando o PM entra na corporação e recebe a orientação da entidade, que acompanha seu caminho. Quem se filia ganha a Bíblia dos PMs de Cristo. Um livro customizado com o logo da corporação. “É uma lembrança da responsabilidade, de orar e defender a corporação”, diz Rocha. “O policial gosta de carregar um chaveiro ou uma marca que lembre a instituição, valoriza os símbolos e insígnias.” Por isso, o Pão Diário, livro com mensagens diárias sobre vida e família, também foi customizado.

Esse desejo por símbolos e valores próprios pode ser visto no crescimento da proporção de evangélicos no Brasil. Dados recentes do Censo do IBGE de 2010 mostram que essa faixa da população soma 42,3 milhões de pessoas (22,2% da população), contra os 64,6% de católicos, em queda há décadas. Um aumento que também reflete na composição dos quadros das instituições, como a própria PM. “A convicção espiritual coopera para que alguém tenha uma visão pessoal sobre Deus, mas não estamos preocupados com os cargos que cada cristão está ocupando”, ressalta Rocha. Mas completa ser natural o desejo de ser representado por pessoas com os mesmos princípios e valores que os seus.

A mudança no perfil dos integrantes das entidades públicas permitiu que as Forças Armadas passassem a fazer concursos para ser capelões evangélicos e protestantes. Algo sequer imaginado quando a população era hegemonicamente católica, destaca Campos. “O que importa é o modo como a pessoa se relaciona com seus vizinhos. Sua integridade dá respaldo para compreender pessoas com valores cristãos em locais chaves em um País que carece de uma revitalização moral”, diz Rocha.

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