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Dia de princesa

por Matheus Pichonelli publicado 08/03/2013 14h18, última modificação 06/06/2015 18h23
As homenagens no Dia Internacional da Mulher parecem imperativos a reforçar estereótipos e espíritos paternais

A fabricante de sabão em pó coloca nas ruas um exército de meninos sarados (os “tanquinhos”) para presentear as mulheres, homenageadas do dia, com amostras grátis de seus produtos. Alguém reclama e a empresa responde: “querida, você não entendeu a brincadeira: a ideia é mostrar que os homens podem te ajudar na cozinha”.

“Tanque”. “Ajuda”. “Cozinha”. Você já ouviu essa história antes. No Dia Internacional da Mulher, as referências se proliferam. É o dia para supostamente agradar um público-alvo que – pelo pressuposto da propaganda – está em casa à espera do milagre: a “ajuda” da mão de obra masculina.

É, como quase tudo, uma brincadeira. Sem graça, mas brincadeira. Mas não deve ter outro jeito de irritar mais alguém em plena batalha: uma batalha, inclusive, para deixar de ser alvo de brincadeirinhas que o tempo todo escancaram uma pré-condição.

A data é, portanto, uma ótima oportunidade para se confundir alhos e bugalhos. A manifestação pública do instinto paternal (sic) é vendida como “homenagem a um dia tão especial”. É o que explica a profusão das mensagens ao estilo “vocês são tão lindinhas, floreiam nossos dias, encantam nossas dores”. Tudo nas entrelinhas (masculinas, claro): vocês são nossas auxiliares e faremos de tudo para dar proteção neste mundo malvado. De novo, o pressuposto de que precisam de ajuda/empurrão – conceito bem distinto de respeito, igualdade, liberdade.

Cansada disso, uma doutoranda e ativista carioca resolveu homenagear as homenagens. Criou uma página (veja clicando AQUI) para colecionar as maiores gracinhas que uma mulher poder ouvir no Dia Internacional da Mulher. Estão lá pérolas como “As mulheres dizem que Cristiano Ronaldo e Kaká são lindos de morrer. Elas precisam conhecer o goleiro Bruno: ele é lindo de matar”. O oferecimento é de uma loja de tecidos. Ou memes ao estilo: “Mulheres indefesas? Apenas enquanto o esmalte está secando”. E homenagens da estirpe “ser mulher é” ou “só mulher entende”. “Ser mulher é romper barreiras, transpor obstáculos, sem jamais perder a leveza e delicadeza”. Ou: “Só uma mulher entende o valor de um simples chocolate na TPM e o prazer de tirar o salto alto no final do dia”.

É quase uma ordem: sejam leves, sejam delicadas, sejam princesas, mas sejam dóceis (como esposas, mães, amantes,  consumidoras). Afinal, se não forem delicadas, não usarem salto, se não babarem por jogadores de futebol, se não usarem o sabão em pó do tanquinho nem souberem secar o esmalte ou não comerem chocolate na TPM (inclusive se não sofrerem na TPM), se não forem, enfim, exatamente tudo o que o mercado, as empresas e os maridos esperam de vocês, não terão direito a doces nem traquinagens. É preciso, portanto, ser doce (dócil?) e acessível para ganhar flores e bombons. É obrigatório, inclusive, gostar de flores e bombons. Pode até ser rebelde, dizem as propagandas, desde que inofensiva. É só charme. Só brincadeira. Só carinho. Só um dia de concessões e convites ao romantismo - “amor, hoje é seu dia: escolhe onde vamos jantar”. Um dia, ao que parece, com data e hora para terminar.

 

*Colaboraram Tory Oliveira e Clarice Cardoso

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