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Corpo amputado querendo se recompor

por Redação Carta Capital — publicado 08/04/2013 11h14, última modificação 08/04/2013 11h14
Um relato cruel sobre o drama de estudantes perseguidos, presos e torturados durante a ditadura. Por Emiliano José

Por Emiliano José

Era pancada pra todo lado. Estava diante de um corredor polonês. Batiam com ódio, sem dó, nem piedade. E com gosto. Eu não os via. O capuz só me permitia ouvir os gritos de raiva. Comunista filho da puta! A cobra vai fumar! Eu sabia: caiu, o pau come. Eu caíra nas malhas da repressão. Existisse inferno, era ali. Agora, seria eu e eles, não havia choro, nem vela. Ou agüentava ou agüentava: não havia outra opção. O corredor polonês era só aperitivo, nem me incomodava, embora doesse pra burro, murros, pontapés, e ao final o corpo estava quase anestesiado. Fosse só isso e nada tirariam de mim, nada. Podia morrer na porrada com certa tranqüilidade. Mas, sabia que a tortura mesmo, vejam só que ironia, nem considerava aquilo tortura, a tortura mesmo viria logo em seguida, eu já esperava, e aí a coisa iria engrossar, teria que me preparar para o pior. E nos minutos da surra no corredor polonês eu tentava me fortalecer para o que viria a seguir...

Renato Afonso de Carvalho tinha apenas 21 anos naquele fevereiro de 1971, prestes a completar 22 anos no dia 12 de março. O corredor polonês dava-se no quartel da Barão de Mesquita, centro conhecido de torturas no Rio de Janeiro, onde o filho chorava e a mãe não via. Militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Renato Afonso tinha certeza de que jamais esqueceria o ano de 1970. Estar ali na Barão de Mesquita lhe era particularmente penoso. Sabia que ali fora morto Mário Alves, empalado, no início de 1970,  principal dirigente do BR, como se denominava o PCBR nos círculos de esquerda. Baiano, comunista desde a juventude, dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) por longo período, ao lado de Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender, entre outros, Mário Alves funda o PCBR, em abril de 1968. A perda do dirigente Alves foi profundamente sentida por todos os militantes do BR.

Quando senti a angústia do pau-de-arara, a força tenebrosa dos choques, o terror do afogamento, pensei em Mário Alves. Todos nós, quando caíamos, militantes do BR, tínhamos a pretensão de apenas dar o nosso nome, revelar nossa condição de militante comunista, e nada mais dizer. Como fizera Mário Alves, trucidado, morto da forma mais covarde por aqueles filhos-da-puta. E esta foi a minha primeira atitude. Nessa etapa da tortura, me desculpem falar assim, sentia saudades do corredor polonês. Ali, ao menos, você não está inteiramente imobilizado, nem está nu, nem está de cabeça pra baixo, nem está sentindo aqueles choques que penetram não o corpo, mas a alma, os choques trespassam a alma, sacodem sua existência mais íntima, que quem nunca passou por isso jamais há de imaginar o que se sente. E os torturadores iam num crescendo, sem contemplação. Pareciam enlouquecidos. Não sei se simulavam ou se sentiam ódio mesmo. Parecia que a tortura lhes dava um estranho prazer.

O ano de 1970 seria de fato um ano para nunca ser esquecido. Com a linha militarista adotada pelo Comitê Central do BR, cujo principal dirigente era Mário Alves e que segundo Renato Afonso, defendia aquela linha, a repressão cresce violentamente para cima do partido. O BR, sob o cerco intenso da ditadura, paradoxalmente, só fez aprofundar a concepção militarista, abandona a política, e planeja ações armadas. Pensou em várias delas em Salvador, na Bahia, onde Renato nasceu e desenvolveu sua militância.

Em maio daquele ano, o partido assalta o Banco da Bahia, na Liberdade, que se não chegou a ser um fracasso completo, foi uma ação bastante limitada: a polícia chegou no decorrer do assalto, um dos sacos de dinheiro ficou pelo meio da rua e, o que é pior, a partir daí a repressão começou a rastrear a presença do partido na capital baiana.

No final de outubro, prende Theodomiro Romeiro e Paulo Pontes, no Dique do Tororó. Theodomiro reage e mata o sargento Walder Xavier de Lima. Vários outros militantes são presos, e Renato Afonso é encarregado, então, de retirar os militantes importantes que estavam em Salvador.

Eu fui pensar muito no que significava a tortura depois que saí da prisão. Ali, naquela situação-limite da existência, você está numa guerra, a quente, onde a morte súbita pode até ser bem-vinda.  Só que ela não vinha, e a tortura prosseguia, e meu corpo resistia, só experimenta a dor, e é o corpo que quase pede a você que dê um jeito de parar com aquilo, é a carne que grita, que clama ao espírito, e você ali, dividido, querendo resistir, e sentindo o grito, o clamor de seu corpo. Ainda tentei, já disse, manter a linha Mário Alves. Depois, tanta a violência, adotei outra estratégia e outra tática, é a guerra, não é? Há que se pensar em tática e estratégia. Pensei: o importante é não entregar ninguém – esta a estratégia. A tática seria confirmar o que eles evidentemente já sabiam, pois isso não traria quaisquer prejuízos a nenhum dos companheiros ou à organização. Agi assim no final daquelas infernais 48 horas quase ininterruptas de tortura na Barão de Mesquita.   

Renato começara cedo a militância e já em 1968 é recrutado pelo BR. Na Faculdade de Direito, entre aquelas tantas lutas do ano mágico de 68, participa da que tentou expulsar da escola três estudantes, que a maioria considerava agentes infiltrados, entre os quais o tenente da Polícia Militar da Bahia, Átila Brandão de Oliveira. Isso está registrado em documento do SNI, agência de Salvador, número 36/16, 12/2/1973, prontuário de Rosalindo de Souza, morto na guerrilha do Araguaia em outubro de 1973, e desaparecido politico. Em 1968, Rosalindo era o presidente do Centro Acadêmico Ruy Barbosa, da Faculdade de Direito da UFBA, e principal liderança da luta para expulsar os três estudantes. Mais tarde, Renato Afonso vai se defrontar novamente com Átila Brandão de Oliveira, que irá torturá-lo pessoalmente.

A mudança de postura diante da tortura veio da compreensão de que ela era muito mais devastadora do que eu imaginava. Em alguns momentos, inclusive, perdi parcialmente a consciência. Ora, eu detinha informações essenciais: eu tinha o endereço, no Rio de Janeiro, dos companheiros do Comando Militar Nacional da organização, todos evidentemente previamente condenados à morte pela ditadura. Era uma informação que não poderia ser dada, qualquer que fosse a hipótese. Daí a minha escolha: em vez de apostar tudo num desafio, correndo o risco de não resistir e falar, adotei a tática de sondar o inimigo, invertendo o jogo, tirando dele as informações e passando a impressão de não ter resistido. Um jogo perigosíssimo, até porque realizado sob tortura.

No final de 1970, diante daquela conjuntura de várias prisões de vários militantes, Renato Afonso retira de Salvador os principais dirigentes do Comando Político Militar (CPM) que estavam em Salvador: Getúlio Cabral, Suzana Maranhão, José Adeildo, Fernando Sandália, Bruno Maranhão e Antônio Prestes de Paula, distribuindo-os entre Maceió, Propriá e Aracaju, zonas de recuo do BR. Quando volta, dá um jeito de guardar o que se chamava arsenal da organização: duas pequenas metralhadoras, algumas escopetas e pistolas. O arsenal foi bem guardado: Renato convence um desembargador que a casa dele era o melhor lugar para as armas. Lá, descansariam em sossego, ninguém desconfiaria. Prefere não revelar o nome. O desembargador já morreu, mas a família poderia não gostar. O arsenal nunca chegou a ser utilizado novamente e ninguém sabe do destino das armas.

A repressão intensificou o trabalho em Salvador, prendeu um militante do BR, Carlos Henrique Leal Nascimento, e este acabou entregando tudo sem tomar um tapa, segundo a informação de Renato Afonso. Carlos Henrique passa a colaborar com a repressão logo após a prisão de Theodomiro. É isso, na opinião de Renato Afonso, que explica o acompanhamento que a polícia passa a fazer de pessoas que não tinham antecedentes políticos, como Maria da Glória Midley (Goia), com quem Renato namorava então, e Roberto Albergaria, militante do movimento estudantil – as informações tinham sido dadas por Carlos Henrique. A repressão demorou a prendê-los porque eram o fio condutor que permitiria que Renato Afonso fosse alcançado, como foi, só que no Rio de Janeiro.

Essa estratégia e tática diante da tortura, num primeiro momento, provoca em mim um estranho sentimento de solidariedade: desejava ter morrido, ter acompanhado os companheiros que não haviam sobrevivido. Não era propriamente um sentimento de culpa, era mais um sentimento de corpo amputado que quer se recompor... Não foi tampouco por muito tempo que esse sentimento me acompanhou. A convivência com outros companheiros presos me ensinou duas coisas: que a tortura é algo absolutamente pessoal, que o comportamento sob a tortura é inteiramente seu, as escolhas são inteiramente suas, intransferíveis, e sob condições que só você conhece plenamente. Como diz o Ray Bradbury: “a morte é uma transação solitária”. E a convivência com os companheiros presos, em segundo lugar, me fez redescobrir a luta. Ela prosseguia, com outros parceiros, em outras condições, o que provoca em você uma espécie de reelaboração da militância revolucionária.  

Renato saiu de Salvador para o Rio de Janeiro. Ligou de lá para Goia, e combinaram como ela chegaria lá. O telefone dela estava grampeado. No Rio, prenderam-na ao chegar à Rodoviária – um agente a acompanhou no ônibus sem que ela soubesse –, ao próprio Renato e, também, Marco Antônio, irmão de Renato e militante do BR. Ela, também, foi muito torturada. Na Bahia, Roberto Albergaria foi preso, depois de levar Goia à Rodoviária.

Quando esteve preso no Campo dos Afonso, Renato insistia muito com um oficial para encontrar-se com o irmão, de quem ele não tinha notícias. O militar fez a seguinte proposta a Renato: trazer Marco Antônio à sua presença e ele, Renato, pediria ao irmão que dissesse tudo o que sabia. Renato concordou.

Quando se encontraram, tirados os capuzes, Renato percebeu que o irmão estava bem. O oficial então pediu a Renato que cumprisse o trato. Pois é, conversei com esse oficial, e expliquei a ele que você estava de férias no Rio, que não tinha nada a ver com a organização, mas ele não acreditou.   Tomou um murro tão forte, que foi ao chão.  E aí foi submetido a uma nova sessão de torturas, violenta. Tinham se sentido logrados.

Nessa noite, Renato Afonso viveu a experiência que antes só conhecera no cinema: a simulação de fuzilamento. Foi tirado da cela, de madrugada, encapuzado, levado para uma área que parecia externa, pelo frio intenso que sentia, amarrado num poste e induzido a achar que seria de fato fuzilado, que a vida terminaria ali, inclusive com o mis en scène do preparar, apontar... Confessa: diante de toda a simulação, o frio na espinha foi muito maior do que o frio que efetivamente fazia naquela área externa à cela.

Eles insistiam que insistiam, queriam mais e mais, além de minhas confirmações, e tome-lhe choque, tome-lhe pau-de-arara, tome-lhe afogamentos, tome-lhe pancadaria. Tinham consciência de minha estratégia e de minha tática. Desse caminho, eu estava disposto a não me afastar. E de repente, me tiraram do pau-de-arara, mandaram que eu vestisse a roupa, e me levaram de volta para a cela. Esmola quando é demais, o santo desconfia. Eu não entendi. Foi algo assim súbito. Como se tivesse vindo uma ordem de cima. E fora de fato isso: é que meu pai, Orlando Afonso de Carvalho, procurador de Justiça em Salvador, acionou seus contatos na Igreja Católica, e conseguiu com que o cardeal do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, viesse à Barão de Mesquita, falasse com o general, e pedisse a preservação da minha vida. A partir disso, não fui mais torturado, e tenho convicção de que se não fosse isso seria morto lá. 

Com a entrada em cena de dom Eugênio, fui transferido para Salvador. No Quartel dos Dendezeiros, da Polícia Militar, já recuperado, é que reapareceu o torturador Átila Brandão, o mesmo que os estudantes quiseram expulsar da universidade em 1968. Chegou ao quartel com uma equipe de tortura, Renato foi retirado de sua cela, e ele logo começou a comandar a pancadaria. Não contava com a chegada súbita da mãe de Renato, dona Yaiá (Maria Helena Rocha Afonso de Carvalho, que faleceu recentemente, com mais de 90 anos), que teve uma espécie de premonição de que o filho estava passando por alguma dificuldade e apareceu subitamente no quartel, que visitava constantemente, e foi direto para a sala onde o filho estava sendo torturado, como se soubesse exatamente o local. Não entrou, barrada pelo sentinela.

Mas, este avisou o oficial, que se retirou com a equipe que o acompanhava e com o pau-de-arara e outros equipamentos de tortura. Não gostou, se irritou, pois mal havia começado a sessão.  O antigo torturador hoje se autodenomina bispo de uma igreja que outros pastores batistas dizem que ele criou para si só próprio: Igreja Batista do Caminho das Árvores, em Salvador.

Todo militante, claro, quando das discussões políticas que fazíamos, já tinha ouvido falar de tortura, ouvira sobre os procedimentos dos torturadores e da interferência norte-americana. Foi possível pra mim constatar isso in loco: um instrutor americano ficava ao lado assim como  uma espécie de mestre de tortura, que dizia de que modo era melhor agir para tirar informações. E mais: durante a tortura um médico acompanhava tudo. Quando a barra pesava muito, quando meu corpo dava sinais de muito desgaste, de muita fraqueza, mandavam me descer do pau-de-arara, e ele me auscultava, olhava daqui, dali, e sempre dizia que tudo bem, eles podiam continuar, que eu estava bem pro pau, quase inacreditável. Era uma atividade metódica, planejada. Tenho convicção, no entanto, que com médico ou sem médico, eles acabariam por me matar, não fosse dom Eugênio.

Renato não foi mais torturado. Cumpriu pena na Penitenciária Lemos de Brito em Salvador. Hoje é professor de História em cursinhos pré-vestibulares. Marco Antônio morreu num assalto à sua casa, no Rio de Janeiro.    

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