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Com crise econômica e incerteza política, MST vive remobilização

por Marsílea Gombata publicado 29/07/2016 05h22
Movimento social próximo ao PT vê no aumento do desemprego oportunidade para amplificação da luta pela reforma agrária
José Cruz/ Agência Brasil
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Militantes do MST ocuparam em outubro sede do Incra, em Brasília

Em um cenário de crise econômica, desemprego e incerteza política, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) consegue, de forma aparentemente paradoxal, colher “bons frutos”. Enquanto o PT, ao qual o MST sempre esteve alinhado, mostra pouca capacidade de mobilização, o MST dá sinais de revigoramento, após se mostrar "adormecido" ao longo das gestões Lula e Dilma.

“Tanto o PT quanto o MST floresceram em um mesmo contexto, de enfrentamento da ditadura. Mas no momento em que o PT assume o governo, passa a ter uma visão de mundo própria que abate o MST”, observa Deni Alfaro Rubbo, autor de Párias da terra: o MST e a mundialização da luta camponesa.

Segundo ele, a chegada do PT ao Palácio do Planalto provocou uma acomodação no MST, por conta de programas como o Bolsa Família, o Prouni ou mesmo o financiamento para alguns assentamentos. "São políticas públicas que fizeram com que o MST não praticasse tanta ação direta, mais frequentes nos anos 1980 e 1990.”

Para Gilmar Mauro, quadro histórico e um dos líderes do MST, duas razões estão por trás de uma maior mobilização dos sem-terra hoje. Uma seria a volta do desemprego, depois de um período de pleno emprego no governo Lula. “Na medida em que houve mecanização no campo, aumentou o desemprego do proletariado agrícola, que logo foi absorvido pela construção civil”, observa.

“Hoje estamos com o desemprego em torno de 11%, com perspectiva de chegar a 15%, e uma parte desses sem-terra que estavam na construção civil agora são fortemente atingidos pelo desemprego", diz Gilmar Mauro. "Existe, então, uma tendência para que a luta pela reforma agrária se amplifique no atual contexto.”

A outra motivação residiria em um aspecto cultural, de mudança de visão sobre a vida no campo e a produção agrícola. A agricultura sempre foi vista pela sociedade como sinônimo do atraso, segundo ele, e a ideia do caipira Jeca Tatu de Monteiro Lobato foi bastante difundida na sociedade.

“É comum usar a expressão ‘estou na roça’ ou ‘tenho uma batata quente nas mãos’ para dizer que se tem uma tarefa difícil pela frente ou muito trabalho. São referências ao trabalho agrícola, cujos próprios trabalhadores não vislumbram para seus filhos”, afirma Mauro.

Hoje, o alto grau de estresse das cidades e o atabalhoamento do mundo urbano têm levado a uma revalorização da agricultura como espaço de qualidade de vida e produção de alimentos saudáveis e a um debate sobre mudanças do paradigma da produção agropecuária, explica. "Esses dois cenários, de crise e mudança cultural, dialogam com o tema da reforma agrária popular, de que é possível distribuir terras, desde que se mude o modelo agrícola de produção.”

Integrante da coordenação nacional do MST, Marina dos Santos ressalta que hoje, com trabalhadores desempregados nas grandes cidades e “preços dos alimentos exorbitantes”, muitas famílias têm procurado o MST e engrossado as fileiras da luta pela terra. “A possibilidade de ter terra para morar, plantar e produzir alimentos é vista como uma alternativa de vida”, explica.

Reforma agrária

Quando Lula chegou ao poder, em 2003, a expectativa era de que a reforma agrária demoraria pouco para se tornar realidade no Brasil. À época, 130 mil famílias estavam acampadas em todo o País chanceladas pelo MST.

O tema andou pouco nos últimos anos, e o desânimo levou a uma desmobilização responsável pela queda no número de famílias acampadas, hoje em torno de 90 mil. Em relação a ocupações, o que se observa é uma diminuição, especialmente durante o governo Dilma. Depois de ter atingido um pico de 289 ocupações em 1999, segundo arquivos do próprio MST, foram 222 em 2003 e 94 em 2013. No ano passado foram 99 ocupações em todo o País, segundo relatório da Comissão Pastoral da Terra.

“O que infelizmente aumentou foi o número de camponeses mortos na luta de resistência e o número de camponeses criminalizados, presos porque lutam por terra e cidadania em um país persistentemente desigual”, afirma Bernardo Mançano Fernandes, especialista em geografia agrária e movimentos sociais da Unesp.

Ele também é da opinião de que, por outro lado, algumas políticas dos governos petistas acabaram por enfraquecer o MST. “O Bolsa Família, por exemplo, desmobilizou quando deveria mobilizar. E isso é resultado da ausência de um trabalho de base para mobilizar a partir dos recursos conquistados. Ocorreu muito mais uma mercantilização do Bolsa Família do que uma conscientização dos direitos.”

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MST ocuparam a fazenda Esmeralda, com sede em Duartina, interior de São Paulo (Foto: MST)
Um mecanismo semelhante é apontado por Mauro como arrefecimento do MST nos últimos anos: “O movimento pisou no freio quando houve algumas conquistas, como maior volume de crédito e abertura de alguns mercados, como o da merenda escolar, para nossos produtos. Mas o principal ainda não ocorreu. Não tivemos uma reforma agrária, de fato, o que implicaria discutir a estrutura e desconcentrar.”

Como a reforma agrária não foi prioridade dos governos petistas, o movimento tem adiante o desafio de promover sua principal bandeira e lutar contra a concentração e o agronegócio, que tiveram na recente aproximação entre Dilma e a ruralista Kátia Abreu o reflexo da agenda do governo.

“Tínhamos um compromisso político histórico do Lula de que faria a reforma agrária em uma canetada se eleito fosse. Isso passou longe, e o agronegócio se fortaleceu muito com políticas econômicas”, observa Marina.

Soma-se a isso, lembra Mançano, o fato de o governo repassar “90% dos recursos para o agronegócio que controla 74% das terras e produz 62% do valor bruto da produção, enquanto o campesinato fica com 10% dos recursos, 26% das terras e produz 38% do valor bruto da produção.”

Com o governo interino de Michel Temer e uma agenda ainda mais distante da plataforma do MST, a tendência é que o movimento tenha uma rotina mais agitada do que nas gestões Lula e Dilma, seja através de acampamentos, marchas, jejuns, greves de fome e vigílias.

Em maio, por exemplo, os sem-terra ocuparam por cinco dias uma fazenda em Duartina, no interior de São Paulo, que pertence a João Batista Lima Filho, sócio da empresa Argeplan e amigo de Temer.

“O golpe atual é também um golpe agrário. Os golpistas fecharam o Ministério do Desenvolvimento Agrário e destruíram um conjunto de políticas públicas fundamentais para o desenvolvimento da agricultura camponesa”, afirma Mançano.

“Estão defendendo o processo de estrangeirização da terra, em que governos e corporações da China, dos Estados Unidos, de países árabes e europeus compram e arrendam terras em países pobres, que possuem o recurso natural, mas são subalternos às políticas globais do agronegócio. Evidente que a postura do governo golpista incita a luta.”