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Crônica

Ciclovia,10. Educação, zero

por Edgard Catoira — publicado 15/01/2012 11h18, última modificação 15/01/2012 11h18
De corridas matinais a entregas de colchão, o tráfego nas pistas da orla carioca traz um pouco de tudo, exceto prioridade para as bicicletas
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De corridas matinais a entregas de colchão, o tráfego nas pistas da orla carioca traz um pouco de tudo, exceto prioridade para as bicicletas. Foto: Edgard Catoira

Manhã de sol. Reflexos prateados circulam a marca das ondas nas areias na praia de Copacabana. Uma brisa refresca o calor nos rostos dos que usam seu tempo matutino para correr no calçadão ou os ciclistas de plantão, que tomam a ciclovia.

O cenário é de filme. Mas vamos enfrentar a realidade com bom humor. Afinal, estamos no Rio de Janeiro, cidade maravilhosa. Precisamente em Copacabana, atravessada por uma excelente ciclovia de seis quilômetros, entre Ipanema e Botafogo.

A Zona Sul do Rio é cortada por ciclovias, todas em ótimo estado. É uma das coisas boas que a população pode desfrutar, inclusive para ir para ao trabalho.

Vale uma reflexão como frequentador da ciclovia – já que não me considero um ciclista.

Antes de tudo, precisamos reconhecer que qualquer ciclovia da cidade é boa para o ciclismo. O que a Prefeitura nunca fez – nem os vereadores pensaram nisso – é organizar seu uso.

Depois de ultrapassar duas quadras brigando com carros ou quase atropelando velhinhos inocentes nas calçadas, chego à praia e, devidamente paramentado com capacete e luvas, me arrisco na ciclovia. Aliás, sou uma das poucas pessoas que usam os acessórios de proteção.

Pelo horário, por volta das 7h30, os corredores e pedestres que passam por mim estão voltando da caminhada, suados e exaustos, prontos para ir para casa e ao trabalho.

Alguns – ou melhor, muitos deles – se aventuram a correr na ciclovia – dizem que a performance é melhor do que correr sobre as pedras portuguesas da calçada. Mas, eles invadem a pista e não respeitam as bicicletas.

De fones nos ouvidos e sem escutar buzinas ou gritos dos ciclistas, tornam-se causadores de acidentes. Pior é quando correm ao lado de amigos, achando que o espaço é apenas deles!

Além dos corredores, existem aqueles que preferem só caminhar, passeando, se aboletando na ciclovia em vez de andar na calçada. A passos lentos, podem estar sós, com crianças e muitas tralhas ou com cães que, invariavelmente, querem cheirar o outro lado da pista.

Os auxiliares de barraqueiros atravessam a Avenida Atlântica empurrando seus carros com muitos guarda-sóis e pilhas de cadeiras de praia. Entram na ciclovia e tumultuam o trânsito, onde também já estão os entregadores de gelo e de coco para os quiosques.

Mas ainda temos outros "passeantes" de ciclovia. Os jogadores de voley com suas redes e bolas, os participantes das aulas de ginástica na praia e os surfistas, isso sem mencionar os skatistas e suas manobras nesse ‘trânsito’. Carrinhos de bebê com suas mamães ou babás param de repente para atender à criança. É uma festa!

Da mesma maneira, as cadeiras de rodas. Algumas são motorizadas e a maioria empurrada por acompanhantes – e também costumam frear subitamente.

Muitos não sabem, mas a ciclovia é uma via expressa. Que o digam os entregadores com suas bicicletas/carrinhos, verdadeiros bólidos acompanhados por assovios – ou avisos de “sai da frente”.

Cedinho, é a vez dos entregadores de peixe que levam encomendas da Cooperativa do Posto Seis aos hotéis e restaurantes pela orla. Enormes cabeças de peixes balançam dentro das caixas com gelo.

E quando o comércio abre as portas, é hora de as lojas enviarem suas entregas aos clientes. E pela orla é mais fácil levar compras de supermercado, pequenos móveis e até colchões!

Já deu para sentir que o trânsito na ciclovia é muito intenso e às vezes chega a parar, quando as máquinas de limpeza da prefeitura – laranjinhas e com enormes escovas – tiram a sujeira e a areia acumuladas na pista.

Susto mesmo levamos nós, ciclistas, quando os ônibus, ou as vans, abrem suas portas e descem os passageiros em frente à praia. Para não perder o equilíbrio, eles têm que colocar um pé sobre a mini calçada limite da pista e o outro, na própria ciclovia.

E, mea culpa: nós, ciclistas, também não paramos nos sinais de trânsito fincados nas ruas especialmente para nós. É a velha história da falta de cuidado com o equipamento público. Acaba valendo tudo.

Numa rede importante de ciclovias, como é a do Rio – ou de Paris – não custa destacar guardas municipais para orientar e disciplinar esse tráfego. Até pouco tempo atrás, um guarda, PM, na Rua Constante Ramos com Avenida Atlântica, tirava pedestres da ciclovia e mandava as bicicletas entrarem nelas. Ninguém reclamava.

Autoridades, imploro, em nome da santa padroeira dos ciclistas, que seja normatizado o uso das ciclovias.

Agora que a Prefeitura está incentivando o uso de bicicletas, inclusive com aluguel dos veículos, que, como em Paris, podem deixados em diversos bicicletários públicos ou perto de terminais de ônibus e metrô, aqui vai um conselho: ordenem rapidamente esse importante meio de transporte, cuja infra-estrutura a cidade já tem.

Uma ação séria nesse sentido dá até Jornal Nacional – na Globo, prefeito! E vai até lembrar o funcionamento civilizado das ciclovias de Paris. O governador, se não estiver lá, vai ver e gostar. É um apoio importante – do PMDB – para as eleições deste ano.

É uma forma de os senhores eleitos para cuidar da cidade fingirem, sem fazer força, que estão preocupados com o bem estar do cidadão. Afinal, dia 7 de outubro está chegando...

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