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Anjo caído

por Thomaz Wood Jr. publicado 24/09/2012 10h03, última modificação 06/06/2015 18h41
As acusações de doping contra o superciclista Lance Armstrong trazem lições e alertas para o mundo corporativo

A notícia foi divulgada no fim de agosto e ganhou manchetes em todo o mundo: a Agência Norte-americana Antidoping (Usada, em inglês) baniu o superatleta Lance Armstrong para o resto da vida dos esportes olímpicos. E ainda cancelou todos os seus prêmios da Volta da França, embora haja dúvidas se tais medidas estão sob a alçada da agência.

A decisão veio depois de muitos anos de suspeita e no fim de dois anos de investigação. Baseia-se em declarações de testemunhas que faziam parte do ciclo mais próximo de colegas do ciclista. O fato é chocante e polêmico. Alguns observadores declararam que, apesar do processo e das evidências, nunca se saberá se Armstrong é ou não culpado da utilização de drogas para melhorar o desempenho nas competições, especialmente na superprova do país de Asterix.

A Volta da França é considerada um dos mais exigentes testes de resistência humana. São cerca de 3,5 mil quilômetros, distribuídos por todo o território francês, corridos durante três semanas, a uma velocidade média de 40 quilômetros por hora. Analistas comparam a prova a correr 20 maratonas em 20 dias. Armstrong venceu a corrida sete vezes, foi considerado o melhor ciclista do mundo. Talvez por isso pairava sobre ele uma perene suspeita de uso de drogas proibidas. Ele foi também um dos atletas mais examinados da história do esporte. Sempre que vencia ou terminava uma corrida entre os primeiros, lhe era solicitada uma amostra de urina. Consta que nunca se provou algo categórico contra ele.

Armstrong nasceu em 1971 no Texas. Na juventude, foi exímio nadador e participou de provas de triátlon. Com 16 anos, começou e vencer corridas de bicicleta. Seu coração e seu corpo parecem ter sido esculpidos para o ciclismo. Em 1993, tornou-se o mais jovem atleta a vencer uma etapa da Volta da França. Em 1996, recebeu um diagnóstico de câncer nos testículos, com um prognóstico sombrio. A doença havia atingido os pulmões e o cérebro. Surpreendentemente, Armstrong venceu a doença, voltou a competir e ganhou edições consecutivas da Volta da França, de 1999 a 2005. O ciclista também criou uma fundação, que leva seu nome e apoia pesquisas sobre o câncer. Virou herói do esporte e transformou-se em fonte de inspiração para milhares de doentes.

Após ter superado o câncer, passou a afirmar que a doença havia lhe ensinado lições importantes, tais como a relevância da estratégia e do trabalho em equipe para vencer os desafios. Aprendeu a combinar a impressionante condição física com uma espantosa disciplina de treinamento e uma enorme atenção ao planejamento das corridas, fator essencial para vencer provas de longa duração.

O ciclista era descrito frequentemente como um atleta obsessivo, atento permanentemente com a alimentação e focado nos avanços tecnológicos. Sintomaticamente, nunca se afastava de suas bicicletas. Diante das acusações, Armstrong se disse vítima de uma caça às bruxas. Pode-se concordar com ele, mas isso não equivale a afirmar que as bruxas não existam, principalmente no doentio mundo do esporte profissional.

Superatletas são personagens icônicos do nosso tempo. Eles são consumidos como exemplos de esforço, superação e realização. Empresas brigam para ter a imagem daqueles mais bem-sucedidos associada aos seus produtos. No mundo empresarial, superatletas constituem também fonte de inspiração, supostamente capazes de catalisar as energias dos exércitos corporativos. Em mercados abertos e turbulentos, marcados pela competição sem fronteiras, superatletas mostram ser preciso, e possível, superar barreiras e ultrapassar os próprios limites.

Muitas empresas buscam freneticamente a capacidade competitiva como traço cultural, característica essencial de seu DNA corporativo. Com frequência são organizações financeiras ou organizações controladas e gerenciadas por profissionais formados no mercado financeiro. Como os superatletas que as inspiram ou representam, muitas delas são companhias bem-sucedidas e reconhecidas.

Não lhes faltam, contudo, detratores. Concorrentes as criticam por adotarem condutas desleais. Fornecedores reclamam do tratamento rude e das práticas agressivas. Fun­cio­ná­rios e ex-funcionários denunciam condições de trabalho subumanas, pressões exageradas por resultados e exigência de disponibilidade 24/7 (24 horas por dia, sete dias por semana). Essas empresas vivem no limite e levam seus funcionários ao limite, da dedicação, da exaustão e da ética. Elas parecem gostar de correr riscos. Como muitos superatletas, vez por outra ultrapassam os limites.

Resta saber se essas empresas estarão preparadas para devolver os troféus e seguir a sina do degredo, caso venham a ser pegas e caiam em desgraça.

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